03 July 2017

UM APONTAMENTO URGENTE

A situação caótica da floresta no nosso país está directamente ligada aos interesses da fileira da produção de pasta de papel e da plantação intensiva de eucaliptos.

Compreende-se que esta espécie florestal seja preferida pelo seu rápido crescimento, que permite em poucos anos um corte de árvores e a sua venda com algum rendimento rápido aos produtores. Pelo contrário, as espécimes florestais autóctones, como carvalhos, sobreiros, azinheiras, castanheiros, sabugueiros e outras, que embora muito mais valiosas, na produção de madeira e de outros produtos, demoram mais muito tempo a gerar rendimento.

As empresas de celulose começaram por tentar a implantação do eucalipto nos países do Norte da Europa, mas, quer por dificuldades de adaptação, quer por ali terem verificado os problemas que acarretam, foram impedidas pelas autoridades desses países. Passaram então a promover a plantação no nosso país, estabelecendo para isso as ligações necessárias para a facilitação desta empresa.

Um dos problemas do eucalipto em relação à propagação de fogos tem a ver com a facilidade de ignição e com a dispersão a longas distâncias de fagulhas incandescentes, que fazem alastrar o fogo.
Os interessados na plantação intensiva de eucalipto costumam dizer que o problema não está na árvore, mas na falta de planificação e ordenamento da floresta. Não é bem assim.

Como foi largamente difundido na última semana em Fontinha, Figueiró dos Vinhos, no meio de uma completa destruição pelo fogo, existe uma quinta, destinada ao agro-turismo que passou incólume a tempestade de fogo. O segredo estará na composição da quinta, com árvores autóctones e tradicionais da zona, que se mostraram muito mais resistentes à propagação do fogo. De notar que esta situação já se verificou em incêndios anteriores.

Ora um dos grandes problemas trazidos pela implementação da monocultura eucaliptal, tem a ver com a eliminação de outras árvores e arbustos, porque na sua insaciável procura de água, esta espécie invasiva impede o seu desenvolvimento. Foi esta uma das razões que levaram a que outros países impedissem a plantação intensiva de eucaliptos.

A realidade social do nosso país, o envelhecimento da população, uma debandada dos mais novos do interior para o litoral ou para o estrangeiro, embora não sejam fenómenos recentes, tem sofrido uma aceleração nos últimos anos e constitui mais um factor propiciador dos fogos florestais, por falta de presença humana.

Há dias foi aprovado pelo governo um concurso para a reflorestação com eucaliptos, no valor de 9 milhões de euros. Como está próxima a aprovação de uma Lei de Planeamento da Floresta, não parece fazer sentido estar a avançar com este concurso antes de estabelecer claras delimitações, que dificultem a repetição da tragédia.

Esta medida governamental parece vir no seguimento da liberalização do plantio de eucalipto que foi aprovada durante o governo PSD/CDS, pela ex. Ministra da Agricultura, Assunção Cristas, que agora parece tão preocupada com a situação.

A maior área de eucalipto da Europa corresponde à maior área florestal ardida na Europa, todos os anos.

É necessário ter condições para combater os fogos, mas os custos com o combate aos incêndios é superior ao custo da implementação de políticas de prevenção elaboradas com cabeça, tronco e membros, mesmo que isso passe por uma nova contratação de um corpo de guardas florestais permanentes. É necessário criar fontes de financiamento para iniciar a promoção do ordenamento do território florestal.

Aqui e agora a melhor forma de homenagear as vítimas recentes e passadas dos fogos florestais é fazer tudo para prevenir as situações que levam à tragédia.

Importa analisar aprofundada e friamente toda a situação do que se passou, responsabilizando quem for de responsabilizar, mas mais importante e urgente é tomar medidas imediatas, para que não se repitam os erros cometidos. Por outro lado, a reforma da floresta não pode ser feita de forma apressada, é um processo mais lento devendo ser monitorizado passo a passo por entidades responsáveis.  

Tirar consequências políticas é aprender com os erros cometidos e exige coragem para enfrentar os interesses que põem em perigo o nosso país.


É incompreensível, por exemplo, que não seja o Estado a deter o sistema de comunicações, SIRESP, que neste momento é uma parceria público-privada e que tantos problemas têm provocado. Se o Serviço é mau não deveria há muito ter sido posto em causa?

27.06.2017
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal e Candidato à Câmara de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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