06 February 2017

POPULISMO E NEGÓCIOS

Todas as questões que dizem respeito à gestão da vida das comunidades constituem a essência da actividade política e são o motor da participação dos cidadãos.

Aqueles que olham para a política como um meio de se servirem em benefício próprio da coisa comum, colocam o serviço público ao nível da mera satisfação egoísta.

As razões para esse egoísmo político podem ser as mais variadas, passam pela cupidez ou ambição até à necessidade quase doentia de protagonismo e poder, ou mesmo outras, que nada têm a ver com o serviço público.

Uma das vias usadas para chegar ao poder, usando os votos e abusando da democracia, é o populismo, que se instalou na Europa e nos Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump e que através da manipulação do eleitorado, pela mentira e a utilização dolosa da comunicação social na difusão em catadupa de frases feitas e preconceitos nas redes sociais, está a alterar completamente a conjuntura política mundial, acordando os fantasmas da xenofobia e do racismo.

A democracia, como projecto integrador e generoso, não tem sido capaz de criar mecanismos para se defender de eventuais portadores de projectos pessoais egoístas ou mesmo de perpetuações no poder, e que a podem por em causa.

 No sentido da transparência há muito ainda a fazer, como as medidas legais de redução de mandatos e de entrega de declarações de rendimentos dos eleitos, acompanhadas por sensatez e informação por parte dos eleitores, eles sim, os verdadeiros detentores do poder e que não o podem alienar em troca de promessas vãs.

 Aqueles que se apresentam como salvadores do mundo, e nós sabemos como a humanidade já pagou caro essas fantasias megalómanas, devem merecer, à partida, a nossa desconfiança. Não é pelo facto de prometerem “devolver o poder ao povo” que deixarão de o exercer despoticamente.

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As desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres constituem um verdadeiro escândalo, bem qualificativo do que é o capitalismo selvagem dos nossos dias.

A Oxfam é uma organização internacional, fundada em Oxford, que actua em mais de 100 países e que busca soluções para a pobreza e injustiça.

Esta organização elaborou um relatório, imediatamente antes da abertura do Fórum Económico Mundial, em reunião em Davos, na Suíça, em que concluía que a profunda desigualdade a que assistimos é resultante da compressão salarial sobre grande parte da população mundial, da fuga aos impostos por parte do capital e da redução das margens de lucro dos produtores.

Nesse relatório a Oxfam informa que os oito multimilionários mais ricos controlam, entre si, mais riqueza do que os 50% dos mais pobres, que perfazem cerca de 3,6 mil milhões de pessoas.

A acumulação, por esses oito milionários, de 426 mil milhões de dólares, de forma concentrada é absolutamente grotesca, mesmo do ponto de vista capitalista. Esta acumulação é uma das causas do descalabro financeiro a que o capitalismo chegou.

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Em sentido contrário vai a opinião manifestada pela OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, que considera que a troika, no seu nefasto domínio em Portugal não implementou suficientes medidas de corte nos direitos dos trabalhadores, não levando tão longe como pretendia a facilitação de despedimentos e a desregularização das leis do trabalho.

Esta opinião da OCDE é tanto mais estranha quando ficamos sem saber o que significa o próprio nome da organização, que assim fica a ser bastante contraditório com os fins que parece prosseguir. A que desenvolvimento se refere?

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A promiscuidade entre política e negócios é sempre factor de preocupação para a democracia. A mistura entre dirigentes dos partidos de extrema-direita europeus e os actuais dirigentes da Rússia prefigura uma ingerência nas questões internas da Europa, com financiamentos e patrocínios, a que os escândalos vindos s lume com a recente eleição de Donald Trump e da sua ligação a negócios em Moscovo, trouxeram uma maior visibilidade.

Para além do financiamento do partido de Marine Le Pen, por bancos russos, já conhecidos, os média trazem outras questões como o anuncio do falso rapto de uma jovem russa de 13 anos na Alemanha, alegadamente protagonizado por refugiados, embora posteriormente desmentido, levou a manifestações dos partidos xenófobos e racistas alemães, num aproveitamento pouco ético. Agora sabe-se das visitas da chefe de extrema-direita francesa a Trump, o que vem adensar a desconfiança das ligações perigosas entre todos.

A reunião realizada na Alemanha, em Koblenz, dos partidos de extrema-direita europeus, que preparam a estratégia para as eleições que ocorrerão em diversos países europeus não pode ser olhada como mera operação de propaganda, antes, com grande preocupação pela real ameaça para a democracia que esta realidade representa.

31.01.2017
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda 

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