16 December 2016

O POPULISMO

O fenómeno do crescimento da extrema-direita na Europa, respaldado pela eleição nos Estados Unidos de Donald Trump, com o apoio das mais obscuras forças de extrema-direita, bem como o “Brexit”, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, deve merecer-nos alguma atenção e preocupação. Como se podem explicar tais fenómenos?

Nas últimas décadas a social-democracia europeia deixou-se contaminar pelas ideias neoliberais, participou em tudo o que eram negociatas e conluios perdendo o apoio da população. As suas posições na Comissão Europeia não se distinguiram verdadeiramente das da direita, como por exemplo, nas políticas de austeridade impostas aos diversos países, principalmente naqueles em que a crise financeira mais se fez sentir.

A União Europeia tornou-se num directório dos países ricos e uma forma de opressão sobre os mais pobres, contradizendo na acção os propósitos fundadores da mesma.

Por detrás de toda esta trama está a ganancia especuladora das entidades financeiras que, depois do desastre provocada pela crise das bolhas do imobiliário, com a falência da Lehman Brothers, procuraram repor os lucros pela transferência do valor do trabalho para os seus cofres. É aqui que entram entidades bancárias como a Goldman Sachs e JP Morgan e outras, que desde 1929 sempre lucraram com as crises capitalistas. Como se vê a sua experiencia é longa e ominosa para a humanidade.

Da falta da apresentação de alternativas sociais válidas, as políticas sociais-democratas, não se distinguiram das liberais, da aceitação cúmplice das imposições neoliberais e de todo o tipo de corrupções, daí haver espaço para o surgimento de personagens populistas que foram ganhando as populações com as suas posições xenófobas e racistas, culpando os emigrantes pelo desemprego, pelo crime e por muitos outros problemas.

A crise dos refugiados, em grande parte causada pelas intervenções no Médio Oriente e nos países árabes, catapultou o sentimento do medo. Estava criado o caldo perfeito para serem os bodes-expiatórios, o alvo mais fácil, deste fenómeno.

Temos visto o surgimento de projectos populistas e de extrema-direita em França, na Áustria, na Polónia, na Hungria, na Finlândia e na Itália, para falar só na Europa, fenómenos que se vão alastrando e que representam um perigo para a própria democracia.

Sempre que a população não encontra respostas para os seus anseios e se instala o medo, facilmente é levada a acreditar em salvadores que propagam o ódio e as ameaças.

Nos últimos dias assistimos à derrota da extrema-direita na Áustria, mas em Itália a derrota no referendo/plebiscito ao governo de Matteo Renzi, pode provocar novas eleições e a consequente ameaça de vitória dos populistas do Movimento 5 Estrelas e da extrema-direita da Liga Norte.

Sabemos que a única forma de impedir o seu crescimento e a sua proliferação é mudar completamente as políticas que têm sido praticadas.

Uma possibilidade de reverter a situação pode passar por promover uma real participação dos cidadãos, aproximar a governação dos eleitores, defender os serviços públicos, exigir a transparência, combater a corrupção, ao mesmo tempo proporcionar uma melhor e mais digna qualidade de vida às populações.

A existência de partidos políticos não é a única forma de representação democrática, mas parece difícil entender a democracia sem partidos políticos. A preocupação populista de ataque cego aos partidos é por isso mesmo muito suspeita, lembrando a crença fascista de partido único.

Em Portugal, desde 2010, e sob o governo PSD/CDS, o conjunto da população foi completamente espoliado, sob o pretexto de ter vivido acima das suas possibilidades, mas na realidade destinava-se a pagar os erros e as desonestidades dos banqueiros e para agradar às entidades financeiras internacionais.

A baixa de salários e pensões foi acompanhada por um enorme aumento do desemprego e pela precarização do trabalho. O país ficou mais pobre. Multiplicaram-se os milionários portugueses, alargando-se o fosso entre ricos e pobres. Tudo isto foi apresentado como inevitável e sem alternativa.

As alterações promovidas pelo governo PS, com o apoio parlamentar dos partidos à sua esquerda, ainda não chegaram para reverter todos os malefícios da governação anterior.

As medidas que já foram tomadas mostram que a alegada inevitabilidade e falta de alternativa eram falsas. Para além de ter começado a baixar o nível de desemprego, foi possível proceder a um aumento das pensões e à devolução de parte dos salários, sem ultrapassar os limites impostos pela Comissão Europeia, nem recorrer a medidas anti constitucionais.

Procurou-se inverter o sentido e não serem sempre os mesmos a pagar o prejuízo.  

O que foi feito não é de modo nenhum suficiente, no entanto mostra que é possível melhorar as condições de vida dos portugueses, com um maior respeito pelos direitos dos trabalhadores e valorizando o factor trabalho.

São necessárias medidas mais aprofundadas e politicamente arrojadas como a recusa do Tratado Orçamental e a renegociação da divida pública, para aumentar as possibilidades de investimento na economia e a consequente criação de emprego.

Por mais que a direita parlamentar procure fazer crer que a divida pública é sustentável, começa a ser mais alargado o sentimento popular de que esta divida não é pagável e que a sua manutenção, nos termos em que ela se encontra, só interessa àqueles que lucram com os enormes juros pagos anualmente. A intransigência da sua defesa não passa de teimosia e de submissão ideológica a interesses alheios aos portugueses.

13.12.2016
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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