16 August 2016

O INSUPORTÁVEL PESO DA CAPITULAÇÃO

Aristóteles, quando afirmou que a coragem era um sentimento nobre, expressava o sentimento dum povo  perante toda e qualquer ameaça. A história do povo grego é a história da coragem e da resistência. A palavra dada no referendo, numa clara afirmação de resistência perante qualquer tentativa de humilhação europeia, voltou a ser "Aristotélica". A bandeira vermelha que esvoaçava diariamente por Atenas, foi erguida corajosamente com um não profundo à camarilha de malfeitores europeus e do FMI. Essa bandeira, tantas vezes ensanguentada pela resistência aos nazis e à ditadura militar fascista, foi desrespeitada por um governo capitulacionista dito de esquerda radical. A "filosofia da coragem aristotélica" referida, é a imagem da vida, da poesia que nos faz sonhar, que nos faz acreditar que somos capazes de transformar a resistência em vitória. O governo grego, à semelhança de "pasokes" e companhia, alienou e vendeu a esperança de todo um povo e de toda uma esquerda radical europeia. Recusando a imagem de quem, após demitir o ministro das finanças, se encaminha para Bruxelas dizendo: "aqui está o meu pescoço, não há alternativa", denunciamos o ato como renúncia à perda da esperança. A esperança está cá e inunda-nos o coração com a alegria da coragem, da determinação e da utopia. Tsipras nunca poderá retirar-nos o direito a encontrar alternativas.
As justificações capitulacionistas raiaram a inverosimilidade, comparando as suas cedências como táticas à semelhança do tratado de Brest-Litovsky e da NEP. A situação duma dívida impagável, dum povo trabalhador empobrecido e sem direitos, duma constituição onde a direita introduziu a isenção de impostos para os armadores da marinha mercante, dum desemprego galopante, duma transferência gigantesca de rendimentos do trabalho para o capital, acrescida de novo programa correspondente ao modelo austeritário e conservador ainda mais penalizante para o povo grego, ser comparado com atos que Lenine entendeu salvaguardarem a implantação do socialismo, é no mínimo aviltante. A revolução de Outubro, ao contrário do pensamento Marxista existente na época. que preconizava levantamentos revolucionários nos países mais industrializados - derrube do capitalismo -, aconteceu na Rússia onde as relações de produção tinham características feudais. A implementação da NEP, duma forma ligeira poderá apelidar-se como a introdução de diretrizes económicas do tipo capitalista, facilitadoras do avanço para o socialismo. Nunca esteve em causa, nem como estratégia política ou económica qualquer cedência ou recuo na trajetória do caminho traçado. Numa época de guerra, Lénine encontrou no tratado de Brest-Litovsky com cedências territoriais aos impérios envolvidos, a forma de sair da I guerra mundial e continuar a reconstruir o país e continuar a criar as condições para organizar uma sociedade socialista. O ministro de Tsipras, Katrougalos, teve a desfaçatez de comparar tal ato com a cedência ao resgate financeiro proposto pelas instituições da união europeia, assinale-se com total desrespeito pelo veredito popular referendado, quando a cedência do governo bolchevique tinha como principal objetivo a preservação e continuação da Revolução de Outubro. E isto perante uma plateia de comunistas, numa atitude de desrespeito histórico e de clara manipulação.
É urgente que analisemos os custos da falência da resistência, da capitulação pura e simples, na expectativa dos povos europeus e de toda a esquerda radical, para podermos falar de confrontação e como confrontar. Quem organiza um referendo numa semana, curiosamente favorável à aspiração da esquerda, também organizaria novo referendo sobre a chantagem europeia. O governo não só soçobrou, como abdicou de testar a chantagem de Schauble e a pressão do eurogrupo. 
Discordo quando se escreve, no decurso da análise à política europeia que favorece a ascensão da extrema direita, que as instituições europeias esmagaram a esquerda na Grécia. Esmagaram o governo grego, porque a esquerda está a organizar-se e a combater as políticas de austeridade, o garrote asfixiante imposto e adotado pelo governo de Tsipras. As greves gerais sucedem-se, contra o roubo nas pensões e salários, recorrendo a grande autoridade, dita de esquerda, à força da polícia de choque. Ainda recentemente li no site do Comité Internacional dos Trabalhadores, CIT, que Tsipras ultrapassou o ponto sem retorno, e que é chegada a hora de uma nova esquerda revolucionária e de massas, capaz de se opor a toda a austeridade. Ao afirmarmos que o desenlace grego prova que nas instituições europeias náo existe qualquer veia democrática, e que o fundamentalismo austeritário nos concede mandato para resistir e tomar todas as opções soberanas e de respeito pela vontade popular, temos que ter coragem de criticar e analisar procedimentos de inequívoca capitulação. Sem esta tomada de posição, nunca estaremos confortáveis para exigirmos do governo de Costa assomos ou atos de resistência. 
O combate, face à irredutabilidade das instituições europeias de manter o que o diretório alemão impõe, austeridade, autoridade e conservadorismo, passa pela conquista de maiorias sociais por essa europa fora. No entanto, não desprezando esse fórum, no âmbito do Partido da Esquerda Europeia, essa discussão é limitada pela presença de Tsipras na vice-presidência, cujo processo grego não foi devidamente escalpelizado. A Independência da  Palestina e a condenação da ocupação fascizante pelas forças sionistas e assassinas de Netanyahu, são bens inalienáveis para toda a esquerda. O acordo entre o governo de Tsipras e Israel, nomeadamente a cedência do espaço aéreo para fins militares, mereceu o comentário dum ministro palestiniano lembrando que tal nunca Israel havia conseguido com os governos de direita. Ainda, muito recentemente, Tsipras pediu clemência a Junker e Draghi, pela exigência de Lagarde de reforço da austeridade, como se a alta finança não estivesse consertada. Na mesma altura os trabalhadores estavam em greve.
Para haver uma disputa capaz e eficaz, temos de ter capacidade crítica de modo a partirmos em busca da maioria. Não podemos deixar que o insuportável peso da capitulação nos possa assombrar a qualquer momento, restando-nos a insuportável leveza da complacência.

Pedro Pereira

Dirigente da Concelhia de Matosinhos

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