10 August 2016

O CAPITALISMO E A DEMOCRACIA POR VIR

Quando Marx escreveu o "Manifesto do Partido Comunista", independentemente do conceito mais universalista quanto à visão organizativa da classe operária e do seu enquadramento nesse modelo partidário, atribuiu a esta classe o significado duma transformação radical do rumo histórico seguido. Atendendo a que essa transformação não ocorreu em toda a sua plenitude, teremos que assumir a plena atualidade desse pensamento. Quanto à premência desse pensamento, destaca-se a atualidade do seu conceito crítico quanto ao capitalismo e a visão revolucionária transformadora, atingindo o âmago de sensibilidades de esquerda, pavaneando-se de neo ou pós marxistas, apresentando o teorema de "Marx ultrapassado" ou até mesmo o axioma de "Marx foi derrotado pela história, principalmente o seu conceito coletivista". Desta forma, elevam a dogma a luta de classes, chegando a responsabilizar Marx, face ao conceito de ditadura do proletariado, por regimes de índole capitalista e repressivos, apresentados como socialistas. A história do movimento operário e do movimento comunista internacional, tem sido permissivo a oportunismos de toda a espécie que têm auxiliado a comunicação internacional burguesa a criar dogmas e conceitos deturpadores dessa história. O serviço político-ideológico prestado por alguns mentores, ainda hoje reconhecidos de esquerda, ao capitalismo e seus cogitadores ideológicos, tem servido para afirmar que Marx é e foi um desperdício histórico.

A crise do capitalismo a partir de 2008, impossível de acontecer segundo a cartilha e as sebentas neoliberais que apresentavam um novo mundo global sem Marx, sem muros nem ameias, fez ruir ideologicamente a visão do "eden democrático" e da "vida boa generalizada". Esse terramoto, com permanentes réplicas sísmicas e sistémicas até aos dias de hoje, mudou a face da burguesia financeira e do poder a ele inerente, maquinando um modelo social regressivo e repressivo. O regresso a parâmetros sociais do sec- XIX, trouxe Marx a jogo em nome da luta de classes e da ideologia. De volta ao capitalismo selvagem, à sobreexploração de todas as formas de trabalho, à proletarização generalizada, às desigualdades profundas, à destruição de direitos, Marx e o comunismo assumem a condição de contemporâneos. A fé na virtude civilizacional do capitalismo ou mesmo num capitalismo civilizado, esfumou-se filosófica e ideologicamente como crítica à visão "utópica" de mudança histórica e social. A ideia de um mundo "pós-ideologia", conformado com a inexistència duma realidade sem alternativa ou ainda como a melhor realidade históricamente conhecida e existente, confronta-se com um contrário real afirmado no despojamento da democracia e de qualquer progresso social. O anúncio das virtualidades de um novo estado social nascido do culminar da 2ª guerra mundial, apressadamente apresentado como oposição a um socialismo desnecessário, é desbaratado de forma lenta ou mais rápida, por uma burguesia comprometida com uma rápida recuperação de rendimentos. Assim se descompõe a vestimenta de um "capitalismo civilizado", garbosamente apresentado como o fim da história da nova era, retratando-se, afinal, como a democracia por vir. A inexistência de democracia, faz de Marx o impulsionador teórico e prático da necessária mudança, da necessidade de caminharmos "utopicamente" em direção à linha do horizonte: o comunismo.

Contrariando a conceção da alternativa revolucionária ao sistema capitalista preconizada por Marx, o conceito de luta de classes e a centralidade da mesma como metodologia de transformação social, uma "nova" esquerda política, convertida em consciência crítica do sistema, envereda pela militância assente naquilo que é apelidada de causas culturais alegadamente fraturantes, desistindo da causa social revolucionária, a luta de classes, acabando por exigir, simplesmente, um capitalismo melhor. Os exemplos vindos da Grécia, capitulação pura e simples, e, as recentes declarações de Iglésias de que Marx e Engels eram social democratas, aludindo a um possível capitalismo benemérito como única alternativa social, serão exemplos duma esquerda conformada e distante de Marx. Não pretendendo ser tão contundente como alguns marxistas que questionam: "com esta esquerda quem precisa da direita?", admito que estes contribuem para o descrédito da alternativa de mudança. Assistimos na Europa a uma guerra neocapitalista contra os povos, sem respeito pelas soluções no interior das instituições políticas de cada país (chamadas democracias formais), para a qual devemos encontrar resposta através da revolta dos povos. Os desordeiros estão no poder e poderão ser imitados por aqueles que acabam por não poder ou querer colocá-los em causa, cabendo à esquerda, impulsionando a luta de classes e a revolta dos povos, apresentar a solução de que o impossível não existe. Acreditamos que quer em termos científicos e tecnológicos o impossível não existe, lamentavelmente recusamos essa perspetiva em termos sociais, quando, estranhamente, essa impossibilidade para ser possível, depende exclusivamente do povo e da sua tomada de consciência revolucionária. A transformação histórica tem sido feita de classe contra classe.

Contra a era dos credores, que uma certa esquerda aceita enverando por pressupostos de aceitação de dívidas ou de institucionalização efémera e redutora do seu crescimento, está na hora de reconhecermos a era dos povos ou da revolução como fundamento de transformação. Só assim reconheceremos Marx como nosso contemporâneo e o comunismo como a real fundamentação da democracia que há-de vir.     

Pedro F. Martins Pereira 
Dirigente da Concelhia do Bloco de Esquerda de Matosinhos

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