14 July 2016

DIFERENTES OLHARES

Logo após o Brexit, o ministro alemão das finanças apressou-se a desviar o foco e disse, em conferência de imprensa, que Portugal iria necessitar de um novo resgate financeiro, o que acabou por desdizer 44 minutos depois. Foi secundado pelo presidente do Fundo de Resgate da Zona Euro, Klaus Regling, que se mostrou muito preocupado com Portugal porque não tinha baixado suficientemente o défice.

Estas afirmações de Wolfgang Schäuble e de Regling são a mais clara confirmação das tentativas de interferência na política interna portuguesa, em pleno deflagrar do Brexit e das consequências complexas que, para já, só se podem prever.

Durante quatro anos os governantes portugueses foram de tal modo subservientes face aos eurocratas e às suas directivas, que Schäuble se convenceu que podia continuar a dar as suas ordens e a tecer comentários sobre o protectorado, mesmo mentindo ou espingardeando para o ar.

O mesmo, tem o desplante de convidar os jovens desempregados dos países do sul para irem fazer estágios de formação, com baixos salários, nas empresas alemãs, que sofrem de falta de pessoal. Essa foi sempre a razão principal para as medidas de empobrecimento e de destruição de empregos, a criação de um exército de mão-de-obra de reserva, de salários de miséria, obediente e não reivindicativo.

Também sabemos que as declarações dos dirigentes alemães se destinam a desviar as atenções do referendo britânico e para consumo interno do seu país, a fim de fazer esquecer o facto de o Deutsche Bank na América não ter passado nos testes de stress.

Temos o direito de questionar por que razão poderão ser aplicadas sanções a Portugal, quando a França irá apresentar um défice de 4,1% e já foi absolvida, e a Alemanha, não por razões orçamentais, mas por desequilíbrio das contas externas, também não tem previstas sanções.

Embora a Comissão Europeia tenha optado por não apresentar propostas de sanções, empurrou para o ECOFIN essa possibilidade, mantendo sobre Portugal essa autentica espada de Dâmocles.

O facto de Portugal ter tido necessidade de recorrer a empréstimos para colmatar os erros dolosos da banca, não nos obriga a ter de aturar o mau-feitio e o desplante destes e doutros personagens.

O que é mais estranho é a envergonhada atitude assumida pelo PSD e pelo CDS que, sem terem a coragem de se opor às aleivosias dos dirigentes europeus, aproveitaram para denegrir a situação financeira do país e até dizer que a aplicação de sanções se deve às medidas de reversão da austeridade  tomadas pelo governo PS, ao mesmo tempo que escrevem cartas aos seus amigos eurocratas para que os seus eleitores apreciem a sua preocupação.

As mentiras que Passos Coelho e Assunção Cristas concertaram para tentar iludir o facto de que estas ameaças de sanções recaem sobre o exercício do ano de 2015, em que foram eles os responsáveis, não têm qualquer cabimento.

É ridículo o que afirmam porque qualquer medida extraordinária que fosse agora tomada não poderia alterar o défice das contas de 2015, já encerrado e as de 2016 ainda estão em execução.

Para estes senhores, o patriotismo e a defesa intransigente da soberania parece ficar-se pelo uso de bandeirinhas nacionais na lapela dos casacos, ou por declarações tão ocas quanto enfáticas, como as que foram proferidas nestas ultimas semanas.

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As próximas eleições autárquicas terão lugar no Outono de 2017, mas as movimentações a que assistimos nada têm a ver com a elaboração de proposta política, mas apenas com a promoção de possíveis “cabeças de lista”.

As vaidades e vinganças pessoais, as tentativas de eternização no poder, bem como a utilização de fórmulas de baixa política não contribuem para aproximar os cidadãos da coisa pública. Os votos não são pertença de nenhuma força política, apenas pertencem aos eleitores. A sociedade é dinâmica e os partidos não são um fim em si mesmos, cristalizados no tempo, mas um instrumento para essa mudança. O Bloco de Esquerda não pretende ocupar o lugar de ninguém, como por vezes se ouve dizer, os eleitores decidem pelas acções de cada candidatura.

Em Matosinhos necessitamos procurar um conjunto equilibrado e coerente de propostas que constituam um verdadeiro programa autárquico, que mudem e melhorem, de facto, as condições de vida dos matosinhenses. Os responsáveis por protagonizar tais mudanças surgirão então como consequência de tal programa político e não o contrário.

Um concelho como o nosso tem necessidade de desenvolver políticas realistas, consistentes e exequíveis, que abarquem todos os sectores, de forma coerente. Por isso é necessário estudar as questões e propor soluções aos cidadãos.

No sentido de aproximar a participação popular essas serão as preocupações do Bloco de Esquerda e esta será a conduta que vamos seguir.

12.07.2016
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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