21 July 2016

CONHECER PARA RESISTIR

O Goldman Sachs é um dos maiores bancos de investimento do mundo. É provavelmente a mais tentacular entidade financeira que domina os chamados mercados, com um historial verdadeiramente assustador. Eis alguns desses episódios.

Este banco, criado no século XIX, teve iniciativas especulativas ligadas à quebra da bolsa americana em 1929, que deu origem à crise a que se chamou a grande depressão, arrastando milhões de pessoas para a miséria e para a fome. Esteve, igualmente, por detrás da manipulação e maquilhagem das contas da Grécia que, mentindo e contrariando todos os parâmetros exigidos, permitiu a entrada daquele país na União Europeia, com as consequências que se conhecem.

Dado o seu papel na política de casino que espalhou por todo o sistema bancário, juntamente com o Lehman Brothers, os produtos tóxicos provenientes da crise da construção nos Estados Unidos, teve de ser salvo por dinheiros públicos americanos, por um secretário do Tesouro que, por acaso, tinha vindo da Goldman Sachs. É reconhecido pelo Senado dos Estados Unidos como sendo responsável pelas acções dolosas que levaram à crise do sub-prime, que esteve na origem da crise financeira de 2007 e das dividas soberanas de toda a Europa.

A sua actuação é conhecida em termos de manipulação em muitos países, inclusivamente em Portugal, onde possui grande parte dos CTT e se sabe ter tido intervenção no caso Espirito Santo.

Desde sempre tem vindo a recrutar os seus directores entre os dirigentes políticos de todo o mundo, assegurando assim ligações que lhe são uteis para a sua actividade. São os casos de Mário Draghi, Romano Prodi, Papademos e José Luis Arnault, ou espalhando os seus funcionários pelos países do mundo, como Carlos Moedas e António Borges em Portugal.

Foi o seu presidente que se arrogou afirmar fazer o trabalho de Deus, ao exercer o seu poder sobre todo um universo financeiro, capaz de constranger e manipular os poderes políticos.

É este autêntico polvo que vai agora contar com Durão Barroso como director não executivo e como observador do caso Brexit, após a sua saída do cargo exercido na União Europeia.

Este senhor, que fugiu da função de primeiro-ministro de Portugal e que ainda tem contas a prestar sobre a sua participação no conluio que levou à invasão do Iraque, vai continuar o trabalho que desenvolveu na União Europeia, em prol dos interesses das grandes entidades financeiras. Para isso conta também com as inúmeras ligações com diferentes entidades que foi tecendo ao longo do tempo e com o seu conhecimento dos países da UE. É a moderna versão dos trinta dinheiros de Judas. É uma questão séria de falta de ética. Não se trata de um português altamente colocado, como diz Marcelo Rebelo de Sousa, mas de um individuo cuja actuação política foi marcada pelo interesse pessoal, por uma enorme falta de escrúpulos e, a meu ver, nenhuma moral.

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Continua a saga das sanções a Portugal e a Espanha por incumprimento do défice. Até agora o Ecofim, Conselho dos Ministros das Finanças da Europa, seguiu o exemplo da Comissão Europeia e não tomou qualquer posição definitiva sobre o assunto. No entanto, é sabido que este Conselho foi pressionado pelo ministro alemão Schäuble, que mantem a sua intransigência contra os países do sul, o que por si só constituí uma chantagem inadmissível.

Esta obsessiva posição punitiva ocorre pela primeira vez após 16 anos de incumprimentos vários, de pelo menos 24 dos 28 países da União.

É interessante verificar que as ex-ministras Maria Luis Albuquerque e Assunção Cristas se apressaram em afirmar que a culpa das possíveis sanções era do actual governo pois não teria sabido defender as subservientes medidas de que elas mesmas foram responsáveis, e que sempre assumiram como boas, aliás permanentemente avalisadas pela Comissão Europeia.  

Dos buracos vindos a público, deixados pelo anterior governo, ressalta a descapitalização da Caixa Geral de Depósitos ou o desvio dos cinquenta milhões de euros, provenientes da taxa sobre as empresas de energia e que o governo nunca chegou a transferir para o sistema eléctrico, não se trata de atirar com as culpas para outros, mas que muita coisa foi escondida, lá isso foi.

Por sua vez as afirmações, mais ou menos incendiárias, de Passos Coelho só mostram um ex-primeiro-ministro muito preocupado com o sector financeiro e pouco com os portugueses, muito mais interessado em se manter como o bom aluno de Merkel-Schäuble do que como dirigente político em Portugal, servindo de porta-voz das entidades europeias.

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Nos últimos tempos foram noticiados inúmeros atentados em cidades do Médio Oriente, a que se soma o do dia 14 de Julho, dia nacional da França, um monstruoso atentado em Nice de que resultaram muitas dezenas de mortos e feridos. Esta situação deveria ser prioritária na atenção da União Europeia no seu conjunto, em vez de colocar à frente de tudo os interesses financeiros, absolutamente mesquinhos face ao larvar deste fenómeno.
É preciso agir de forma inteligente e articulada nas fontes de financiamento e de fornecimento de armas e não com a vozearia que se levanta nos momentos dramáticos, transformando, muitas vezes momentos de sofrimento em espectáculo. É urgentíssimo agir de outra forma perante a sensação de impotência e da instalação do medo, que é precisamente a pretenção dos actos terroristas.

Os acontecimentos na Turquia não deixam de ter alguma ligação às questões do terrorismo, mas essa é uma coisa a que iremos mais para a frente, quando a poeira assentar.

A democracia não pode deixar-se intimidar por ameaças, por chantagens ou por actos de terrorismo, venham eles de onde vierem.

20.07.2016
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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