06 June 2016

SEIS MESES

Aquilo a que a direita chama, depreciativamente, de geringonça tem vindo a dar um exemplo de consistência, no entendimento e nas propostas políticas, sem evitar nem esquecer as diferenças e sem exigir em troca benefícios e prebendas. Tenta que as escolhas sejam decisões políticas e não vergar a servis às finanças e à Europa.

Esta é uma das principais razões do mal-estar manifestado por toda a direita portuguesa e europeia, que sempre afirmou a impossibilidade de as diferentes forças de esquerda se entenderem, e é nisso que fervorosamente apostam.

O governo tem apenas 6 meses, nem tudo tem sido fácil, há práticas enraizadas que custam a ser ultrapassadas, mas os sinais dados até agora, têm respeitado o que foi negociado e só assim é possível continuar.

Com a preocupação de inverter o ciclo de austeridade pura e dura, verifica-se alguma reposição de rendimentos, que foram saqueados nos últimos anos aos trabalhadores e pensionistas, o mesmo acontecendo nas prestações sociais. Há uma mais equitativa distribuição dos impostos; há outras práticas políticas a serem ensaiadas e sente-se uma maior sensibilidade social nas medidas tomadas. A tarifa social da energia beneficia mais de um milhão de cidadãos, entre aqueles com maior debilidade financeira; a baixa das taxas moderadoras da saúde beneficia todos os utentes, nomeadamente os mais idosos. As famílias a quem são penhorados bens, por dívidas ao fisco já não são obrigadas a ficar sem as suas habitações, evitando assim o acumular de problemas a quem já tem tantos para resolver, para além de evitar a indignidade do despejo, Mas, tudo isto, nada diz aos apoiantes da direita, insensíveis e absolutamente incapazes de colocar os problemas do povo pobre à frente das suas mesquinhas questões e dos seus interesses egoístas. Infelizmente, existem também algumas pessoas que se consideram de esquerda, que se mostram incapazes de entender o que se passa e alinham nas narrativas da direita.

Tudo o que se fez não chega para melhorar a situação económica do país, há ainda uma montanha de urgências a acudir, como criar emprego, controlar o sistema bancário para impedir a continuação do descalabro e renegociar a divida pública.

Os dirigentes dos partidos que durante quatro anos tudo fizeram para empobrecer o país, para destruir o Estado Social e para levar à prática as ordens da alta finança mundial, têm a desfaçatez de afirmar enormidades como as que temos ouvido a Passos Coelho e à dirigente do CDS, Assunção Cristas, que sem alternativa, procuram lavar as mãos da forma como governaram.

Quando são apresentadas estas propostas ou outras, recorrentemente ouvimos a pergunta sobre onde se vai buscar dinheiro para tudo isto. A resposta estará na taxação daqueles que nunca pagaram os seus impostos, no fim do pagamento de rendas como as que ainda existem às empresas energéticas, às auto-estradas, enfim às diferentes parcerias público-privadas que vivem à custa dos fundos públicos e o mais importante, renegociando o serviço da dívida, para poder desviar os milhões que se estão a pagar à alta finança, para o relançamento da economia.

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A arrogância e sobranceria da direita é o que a levou a questionar o actual governo sobre a questão da greve dos estivadores do porto de Lisboa. Há três anos e meio que lutavam por melhores condições de vida e por um contrato colectivo de trabalho. Durante todo esse tempo o governo, PSD/CDS, nada fez para conseguir intermediar um acordo, antes afirmava que era um conflito entre privados e que não devia interferir.

Ora, a firmeza dos trabalhadores e o diálogo entre todos os intervenientes levou à assinatura de um acordo em que em vez de despedimentos colectivos conseguiram a admissão de trabalhadores precários e em vez de trabalho à hora, um contrato colectivo.

Mostrou que, com luta, empenhamento e diálogo é possível ultrapassar as dificuldades. As questões sociais não devem ser encaradas à luz de preconceitos ideológicos, mas com bom senso. Com a valorização da contratação colectiva e do trabalho, ganhamos todos.

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A questão dos subsídios estatais aos colégios privados, os contratos de associação redundantes, ainda mantém espaço nas televisões e jornais e continua a promover manifestações de amarelo, agora também apoiadas pela igreja católica que possui colégios que são sustentados pelos subsídios estatais. Depois da apresentação da lista pelo Ministério da Educação, dos colégios que podem inscrever turmas em início de ciclo de ensino, os proprietários de colégios tentam, por todos os meios, manipular a opinião pública, desde a utilização de jornalistas na TV vestidos de amarelo até à apresentação de equívocos documentos provenientes de órgãos do estado, dando-lhes as interpretações que lhes interessa, passando pela utilização incorrecta de declarações de entidades públicas. Aguardamos para ver qual a cor das camisolas que os apresentadores das notícias vão vestir no dia da manifestação em defesa da escola pública.

É importante que não nos deixemos enrolar por estes industriais do ensino que estão preocupados com a sua renda e não com qualquer liberdade de escolha dos alunos. É com a melhoria da Escola Pública que cabe ao Estado responsabilizar-se.


1.06.2016
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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