11 March 2016

MUDANÇAS ESPERADAS

Pedro Passos Coelho em campanha eleitoral para a direcção do PPS/PSD viajou pelo país, mantendo o tom das afirmações com que procurou enganar os portugueses durante quatro anos. A sua eleição, ao melhor estilo norte-coreano, vem mostrar que o PSD nem alternativa de direcção interna consegue gerar.

Apesar de estar provado por fontes insuspeitas, que os resultados do último ano não foram os que nos propagandearam, Passos vai dizendo que se ainda estivesse no governo estaria a “bombar” pelo crescimento do país. Afirma até que, afinal, o mau desempenho das contas do ano passado se deveu à desconfiança dos investidores no futuro do país. É preciso muita falta de vergonha para avaliar de forma tão ligeira o seu governo.

Um exemplo dos erros nas contas resulta do facto de o défice do Ministério da Saúde no ano passado ter sido de 259 milhões de euros, contrastando com o défice anunciado pelo anterior governo que era apenas de 30 milhões.

Mantém-se a saga em torno da permanência ou não do governador do Banco de Portugal, mesmo que o relatório por ele encomendado ao Boston Consulters Group, sobre o BES e que custou ao erário público 300 mil euros, não tenha até agora sido revelado. Pelo menos não se pode deixar de estranhar esta situação.

Nos últimos dias têm sido levantadas questões sobre a situação do BPI de Frederico Ulrich, A luta pela supremacia entre a financeira SantoroFinance, da milionária angolana Isabel dos Santos e o banco espanhol CaixaBank é patente. A exposição do BPI aos problemas financeiros angolanos não augura nada de promissor. Quando um banco aparece assim pressionado, os portugueses devem ficar alerta, pois as consequências em casos idênticos têm sido pesadas.

Ainda a propósito destas questões bancárias a ex-ministra das Finanças e actual deputada Maria Luís Albuquerque foi convidada para directora não executiva da Arrow Global, grupo britânico de gestão de créditos mal parados e que adquiriu dívidas do Millennium, do Montepio e do Banif, durante o mandato da ex-ministra. Sabe-se que esta empresa lucrou com o arrastamento da situação do Banif. Este facto, do ponto de vista da ética democrática é, no mínimo, reprovável. Veremos se não é ilegítimo também.

Infelizmente o chorrilho de escândalos bancários não pára. Ainda decorrente do escândalo BPN, o Banco EFISA, onde o estado meteu 90 milhões de euros e que foi depois vendido por 38 milhões à empresa PIVOT, com ligações a Miguel Relvas, pode vir a custar aos portugueses ainda mais 80 milhões. São de facto grandes negócios, estes em que pagamos para depois vender a preço de época de saldos.

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O longo consulado de Cavaco Silva tem agora o seu epílogo. Independentemente do facto de ter sido sufragado eleitoralmente, deve preocupar-nos o que nos fica da sua longa passagem pela política. Para além das inúmeras gafes e despropósitos, por exemplo, o discurso da tomada de posse do 2º. Mandato e as queixas sobre o seu próprio vencimento, entre outros, o facto de ter contribuído para o desmantelamento da frota pesqueira, às ordens da então C E, não pode ser esquecido com as suas actuais e alegadas preocupações com as indústrias do mar e muito menos com os seus propalados “desígnios do mar”. Outro facto é de ter dado aval aos negócios bancários, assegurando publicamente a firmeza de bancos como o BES, quando se veio a verificar que havia situações de falência técnica e que até a UE já tinha avisado do facto. Não podemos esquecer, igualmente, a recusa de pagamento de pensão à viúva de Salgueiro Maia, ao mesmo tempo que eram atribuídas pensões a ex-agentes da PIDE/DGS ou ainda, a teimosia em manter no Conselho de Estado personalidades sobre que recaíam fortes suspeitas de crimes económicos. Estas atitudes pareciam denunciar uma incapacidade absoluta de lidar com formas de pensar politicamente diferentes das suas. Convenhamos que em democracia, uma tal idiossincrasia não é a mais compaginável com um cargo como o de Presidente da República.

Cavaco Silva teve a preocupação de acabar os seus mandatos da forma como os exerceu, assim resolveu agraciar o ex-secretário de estado Sousa Lara por ter vetado o livro de José Saramago na sua apresentação ao Prémio Nobel. Esta medalha parece premiar o silêncio do senhor Lara por calar estes anos todos o nome do verdadeiro responsável pelo veto ao livro de José Saramago.

Considero que não soube estar à altura do momento de crise que atravessamos. Colou-se às políticas do governo e esqueceu a Constituição da República e a República não lhe perdoa isso.

Os portugueses merecem que o próximo ocupante do Palácio de Belém seja capaz de estabelecer firmes relações de trabalho com o governo que permitam uma conjugação de esforços em prol da melhoria das condições de vida do povo e que privilegie a defesa dos interesses nacionais face aos interesses do capital financeiro, não se submetendo à chantagem das entidades financeiras internacionais. São mudanças necessárias, esperadas e urgentes em nome do nosso futuro colectivo.

9.03.2016
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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