16 October 2015

UMA LEITURA POLÍTICA

É, no mínimo, estranha a concepção de democracia apresentada pela direita na sua versão mais alargada, a propósito dos resultados do passado dia 4 de Outubro nas eleições legislativas.

Enquanto a direita e os seus papagaios na comunicação social afirmam que um governo da esquerda não traria a estabilidade governativa exigida pela União Europeia, utilizando os argumentos menos capazes como, que 90% dos eleitores votaram contra a participação do Bloco de Esquerda e 92% contra a participação da CDU, esquecem-se de referir que 62% dos portugueses votaram contra a continuação da austeridade e em contraste, apenas 38% dos eleitores votaram PSD/CDS. A esquerda tem afirmado estar disposta a impedir que um governo de direita, minoritariamente apoiado na Assembleia da República, possa ser indigitado, o que só poderá acontecer se for viabilizado pelos votos do PS.

As teorias de Passos/Portas sobre uma proximidade de posições entre a coligação e o PS, também defendidas por algumas personalidades do PS, como Carlos Silva da UGT, Sérgio Sousa Pinto, Vítor Ramalho e outros, não colhem o apoio de muitos outros elementos nem das bases socialistas, que votaram claramente contra a austeridade e por uma alternativa de vida para os portugueses.

O Presidente da Republica continua a sua tentativa de fazer vingar um governo PSD/CDS/PS, que permita perpetuar a política de austeridade, de destruição do estado social e submissão aos ditames do neoliberalismo. Chegou ao ponto de passar, mais uma vez, por cima do texto da Constituição Portuguesa e de chamar o líder do PSD, encarregando-o de falar com o PS, mesmo antes de ouvir os restantes representantes dos partidos.

Por sua vez a falta de respeito pela democracia demonstrada pelas entidades europeias é clara no facto de terem exigido a apresentação de um projecto de orçamento para 2016, antes do dia 15 de Outubro, quando ainda não há governo e quando sabiam que as eleições legislativas se realizariam em 4 de Outubro.

Os comentadores de serviço destilam ódio e falta de bom senso, sem terem em conta os factos e a realidade, mas dando asas à sua imaginação, por vezes doentia. Tentar assustar o eleitorado com ameaças da volta do PREC é recorrente e só demonstra pouca inteligência. A situação que se vive não é compaginável com 1975. Vivemos hoje numa democracia já com alguma experiencia e os portugueses não se deixam enganar por papões. Não há votos de primeira e de segunda. Os votos pertencem ao povo e o povo, quer queiram quer não, já votou.

Por parte do Bloco de Esquerda, a posição foi claramente afirmada durante a campanha eleitoral. Se fossem asseguradas três condições básicas de consenso na proposta política do PS, de defesa do emprego, dos salários e das pensões, o BE viabilizaria um governo que afastasse a direita minoritária do poder.

As condições apresentadas têm a ver com a melhoria das condições reais de vida dos portugueses, recuperação dos rendimentos, a não alteração nas pensões e recusa em permitir a continuação de mexidas nas leis do trabalho. Para além destas, há toda uma série de outras questões a trabalhar, mas a principal preocupação é mesmo a recuperação dos rendimentos do trabalho. Um Orçamento de Estado que respeite a Constituição da Republica é outra questão que é cara ao BE, em contraponto à inconstitucionalidade dos orçamentos e leis, dos últimos anos.

É esta realidade que a direita e alguns dirigentes do PS não querem entender. Em democracia todas as soluções para o bem dos cidadãos são passiveis de negociação, sem prejuízo de se manterem os princípios fundamentais que cada partido defende.

Estes pressupostos foram enunciados ao eleitorado com toda a clareza e foi com base neles que o eleitorado deu ao BE a força suficiente para os negociar. No entanto, não fomos o partido mais votado e por isso somos obrigados a estabelecer um diálogo que permita viabilizar um governo que leve à prática as propostas que fazemos.

Mais de 40 anos depois do 25 de Abril e da democracia, ainda é um anátema para alguns, o ser de esquerda e propor soluções inovadoras que abranjam o todo social e não as mesmas soluções que só agradam sempre aos mesmos.

Esperemos que este período traga aos portugueses a concretização da esperança com que votaram no passado dia 4 de Outubro e permita uma vivência democrática com menos escolhos, como os que se verificaram com as centenas de votos dos nossos emigrantes que, devido a grandes contratempos e confusões, não chegaram nos prazos legais para serem escrutinados e foram para o lixo. O que é inadmissível!

13.10.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

No comments:

Visitas

Contador de visitas