28 September 2015

A NÃO ESQUECER

A campanha eleitoral para as Legislativas 2015 prossegue, com a comunicação social a agir como se esta eleição fosse para primeiro-ministro e não para eleger 230 deputados. Ao acompanharem apenas os líderes dos partidos, nomeadamente do chamado arco da governação, estão a desvalorizar as restantes candidaturas e candidatos, o que não é mobilizador para o conjunto dos cidadãos.

Os debates entre os representantes do PS e do PSD/CDS desgastam-se em questões, como  a quem cabe a responsabilidade pela chegada da troika, quem trouxe mais prejuízos ao povo português ou quanto mais vai ser o corte nas prestações da Segurança Social. Sendo alguns destes temas importantes, os projectos de cada um para a governação futura deveriam ser mais debatidos e assim armar os eleitores de possibilidades de escolha consciente, apesar do governo se recusar a apresentar por escrito o seu programa e a quantificar as suas contas.

Um dos pontos que tem merecido mais discussão entre os lideres do PS e do PSD, tem sido afinal quem é responsável pela vinda da troika e pela assinatura do memorando de assistência financeira,  que provocou a violenta austeridade a que ainda estamos sujeitos. Ninguém quer assumir essa responsabilidade, embora os portugueses se lembrem bem como as coisas se passaram. Depois da pressão exercida pelos banqueiros para que fosse pedida a ajuda financeira, com vista a salvarem-se das aventuras em que se tinham metido, o PSD/CDS embandeiraram em arco. Ainda recordamos as manifestações de alegria dos seus apoiantes nos jornais e   nas televisões, dando conselhos de tudo e a todos, considerando a chegada da troika o melhor para o país que agora iria ser endireitado.

Ninguém esqueceu que quem participou nas chamadas negociações com a troika foi Eduardo Catroga, em nome do PSD, limitando-se a aceitar todas as imposições feitas. Pelos vistos até Passos Coelho já se esqueceu do que então afirmou, que o programa da troika era o seu programa e de que o seu governo iria   para além do mesmo.

A inventariação das boas e más actuações no passado mandato não podem ser escondidas, devem ser avaliadas para definir o que pode ser o futuro. Ora, perder todo o tempo a falar nisso não parece a melhor forma de mobilizar os cidadãos. Por outro lado, as promessas eleitorais  não passam disso mesmo e bem sabemos como o actual governo ganhou as eleições com promessas, que nunca pensou   cumprir e que não cumpriu.

Eis alguns exemplos. É anunciado como um feito notável o facto de a Segurança Social ter neste momento um saldo positivo nas contas. O que o governo não refere é a informação da OCDE de que o nosso país foi o que mais cortou nas prestações sociais neste período de tempo. Com tantos desempregados sem qualquer subsídio, com os cortes nas pensões, nos complementos de reforma, nos abonos de família, que causaram um enorme sofrimento , não admira que o saldo das contas seja positivo, embora pelas piores razões, pela  desprotecção dos mais pobres e fracos.

Continuamos a assistir à recorrente mentira da baixa da taxa de desemprego e da criação de emprego. Qualquer pessoa sabe que as filas nos centros de emprego se mantêm e que quanto à criação de emprego basta perguntar nessas mesmas filas quantos são os que conseguem colocação. A máquina de propaganda do governo é eficiente em apregoar números pouco reais e situações ainda menos verdadeiras. Essa criação de emprego não passa, infelizmente, de estágios temporários pagos e de contratos de emprego-inserção, que não são emprego nem inserção, mas a nova forma de trabalho forçado, um abuso para os desempregados sem pagamento de um salário, mas de uma pequena remuneração que não pode ser considerada pagamento, antes esmola.

As afirmações de Passos Coelho de que pretende criar condições para que a economia portuguesa seja, a curto prazo, uma das dez mais competitivas só podem ser olhadas como mais uma declaração sem sentido. A que competitividade se está a referir? Há do Paquistão, do Bangladesh, da Índia ou da China, onde não há quaisquer direitos sociais, e de baixíssimos salários onde os trabalhadores são híper-explorados, nomeadamente pelas multinacionais. Decididamente não é esse tipo de economia que pode interessar aos portugueses, com a criação de uma sociedade cada vez mais injusta e sem direitos para todos. A tudo isso dizemos não, e por isso também não podemos esquecer.

Assim, nesta campanha têm sido os partidos, a quem costumam chamar de protesto, quem mais propostas concretas têm apresentado, o que contraria essa designação, que a comunicação social lhes pretende colar.

Enfim, muitas verdades torcidas e até falsidades que agora aparecem na campanha eleitoral, para enganar os eleitores e fazer esquecer as incapacidades deste governo. Exemplos não faltam, a incapacidade para negociar as quotas de captura de peixe e a incapacidade para negociar os subsídios à produção leiteira. É de lembrar que pela mesma situação os produtores de leite portugueses vão receber 1.000 euros por exploração, enquanto os do estado espanhol por cada exploração recebem 1.670 euros.


É destes factos irrefutáveis que os portugueses se devem lembrar no próximo dia 4 de Outubro.


22.09.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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