21 September 2015

A EUROPA E OS REFUGIADOS

Os refugiados que têm procurado a Europa, fugindo da guerra e das perseguições nos seus países, não podem ser encarados em termos de aumento da indústria da pobreza, mas acolhidos de forma humanitária, planificada, na defesa dos direitos humanos e não de meras medidas caritativas ou propagandísticas.

A catástrofe humanitária que representa a fuga de centenas de milhares de refugiados de países do Médio Oriente e da Africa subsariana, enfrentando terríveis perigos e até a morte, merece uma reflexão profunda e não se compadece com umas quantas declarações avulsas, sem ir à raiz da questão.

Em primeiro lugar compreender a situação e assacar responsabilidades pelas mesmas, do  que se vive na Síria, na Líbia, no Iraque, no Iémen ou no Sudão.

Quem foi e é responsável por armar os grupos de radicais islâmicos que se intitulam Estado Islâmicos, ISIS, Al Qaeda ou outros. Nas intervenções militares da NATO e dos aliados ocidentais, em nome de combater regimes ditatoriais que de facto existiam, mas que anteriormente tinham fortes ligações com países europeus, criaram-se grupos armados que hoje são dificilmente controláveis, como já tinha sido observado na intervenção no Afeganistão.

Quem é que financia efectivamente esses grupos, que enriqueceram com a indústria da morte? Para além de continuar a haver compras de petróleo proveniente de campos petrolíferos existentes em territórios sob o controlo dos grupos armados, são conhecidas as ligações dos grupos que espalham o terror e a morte aos regimes milionários ditatoriais da Arábia Saudita e outros intermediários do médio oriente, continuando assim a ser o petróleo a alimentar a situação de terror e morte que aí se vive.

Não é claro se o acesso destes grupos ao armamento sofisticado que utilizam lhes chega por via dos traficantes de armas ou se são fornecidos por países que até já chegaram a considera-los, vejam só, como lutadores pela liberdade, assim nomeados por Reagan e Bush e alguns dirigentes europeus.

Há ainda outras formas de financiamento, igualmente estranhas, como seja o mercado clandestino de relíquias provenientes da destruição de locais históricos, da cidade de Palmira por exemplo, e que agora estão a ser encontradas em comerciantes de arte em Londres, sem qualquer explicação e a que todos fecham os olhos. Para além disso há também os mercados de drogas duras.

Por tudo isto impõe-se assegurar aos refugiados um apoio que lhes permita refazer as suas vidas com alguma segurança, até que possam regressar aos seus países de origem, se assim o desejarem. A Europa não pode esquecer a sua memória, pois os próprios europeus já tiveram de recorrer ao estatuto de refugiados em situações de crise.

A Europa não pode fechar os olhos ao que está a acontecer aos refugiados numa das vias para a Europa central, através da Hungria, onde o regime ultra direitista de Viktor Orban lhes está a impor um tratamento absolutamente indigno e desumano, com 175 quilómetros de barreiras de arame farpado, sem distribuição regular de alimentos e com atitudes impróprias por parte de forças policiais e até de jornalistas de televisão. Também noutros países europeus, Polónia, Eslováquia, Republica Checa estão a ocorrer factos pouco abonatórios dos apregoados princípios e valores solidários europeus, pois recusam receber refugiados, esquecendo que já estiveram em situação semelhante a necessitarem de refúgio e foram acolhidos.

É confrangedora a lentidão burocrática com que a Europa enfrenta estas questões, sem olhar à realidade das pessoas e sem respeitar as suas necessidades. A única coisa que preocupa os eurocratas é o seu discurso. Esta atitude cava cada vez mais a desilusão com que a EU é encarada pelos cidadãos.

Em Portugal, apesar da vergonha de termos visto o governo a regatear o número de refugiados a acolher, a mobilização civil levou-o a emendar a mão e já aceita acolher um número  maior.

Estas pessoas buscam um local de paz e sem perseguições que permita seguir a sua vida, como, recorde-se, já aconteceu a tantos portugueses. Nesse sentido as atitudes de inqualificável egoísmo e xenofobia que levam a que uns poucos portugueses assinem petições para impedir a vinda de refugiados, com argumentos falsos, mesmo causando alarme social sem sentido não passam de uma manifestação de ignorância e obscurantismo.

O apoio aos refugiados de guerra não se compadece com o fecho de fronteiras ou com a limitação do acorde de Schengen, convém não esquecer que estas pessoas estão ao abrigo da Convenção de Genebra que impõe esse apoio.

Felizmente por toda a Europa milhares de pessoa, mesmo contra a opinião dos respectivos governos, se têm manifestado favoravelmente ao direito de asilo a refugiados, numa atitude de solidariedade humana, sem olhar à religião nem à etnia ou à cor da pele, mas ao problema de direitos humanos que esta questão impõe. É preciso acreditar na Humanidade contra a selvajaria.


15.09.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

No comments:

Visitas

Contador de visitas