04 August 2015

MEMÓRIA CURTA

O irrevogável, vice-primeiro-ministro, Paulo Portas anda a apregoar os benefícios da governação. As suas declarações sobre a responsabilidade de quem chamou a troika não condizem com as manifestações de regozijo com que anunciou em 2011, que o programa da troika seria também o seu programa de governo.

Este senhor que é dirigente dum partido que se arvorava em defensor dos reformados e pensionistas, dos lavradores e dos contribuintes, tem memória curta e esquece-se de referir os cortes efectuados nas pensões, os prejuízos causados à agricultura e os violentos aumentos de impostos. E já agora também não se recorda do importante contributo que deu para o endividamento público com a compra de submarinos e carros de combate.

Nos últimos dias o Tribunal de Contas, denunciou mais uma vez num relatório que situações menos claras ocorreram nas contas apresentadas pelo governo, referentes a 2014. São despesas escondidas, são impostos cobrados que não constam dos balanços, precisamente o contrário da imagem tão reclamada de seriedade e rigor que o governo PSD/CDS procura mostrar de si mesmo. Bem prega frei Tomás, “olha para o que eu digo, não olhes para o que faço”. Será esta nebulosa a verdade de que fala Passos Coelho?

No âmbito das despesas, os custos da aventura do BPN só no ano de 2014 subiram 485 milhões de euros, alcançando já 2.691 milhões que os contribuintes vão ter de pagar. Isto para não falar do caso BES e das vendas de património ao desbarato.

Apesar de todos os sacrifícios exigidos aos portugueses em nome da sustentabilidade das contas públicas, a realidade é que a dívida vai crescendo ao ritmo de 1,5 milhões por hora e já vai em mais de  129% do PIB.

É por estas e por outras que o governo continua a desenvolver fórmulas de engenharia financeira nas contas que apresenta e que por isso as mesmas carecem de confiança.

Surgiu na comunicação social uma informação do Organismo Europeu de Luta Antifraude que diz ter encontrado na empresa TECNOFORMA, que Passos Coelho administrou, fortes indícios de apropriação de fundos comunitários de forma ilegítima, com adulteração de documentos. Estes factos configuram responsabilidades financeiras e criminais e deles resultou uma participação ao Ministério Público para procedimento judicial. Atendendo à memória selectiva demonstrada pelo primeiro-ministro, provavelmente, tal como nas dívidas à Segurança Social e noutras ocasiões, não vai recordar-se de nada.

Por sua vez o Presidente da Republica, Cavaco Silva, mostrou-se muito preocupado com o facto de serem os trabalhadores da Europa, alguns com baixos rendimentos, a terem de pagar para que os gregos não cumpram com as suas obrigações. Não me recordo de ver o Presidente da República preocupado com o facto dos trabalhadores portugueses, muitos dos quais auferem dos mais baixos rendimentos da Europa, terem de pagar os graves prejuízos causados pelas falências dos bancos BPN, BPP e BES, onde se encontravam muitos dos seus correligionários.

Esta narrativa está em consonância com o que afirmam os representantes da banca alemã e francesa que se esquecem que a maior parte, 80%, dos fundos atribuídos à Grécia e a outros países em dificuldade se destinam a pagar os juros dos empréstimos e que só a Alemanha já arrecadou com lucros referentes à crise mais dinheiro do que o que vale o terceiro resgate da economia grega.

Outra mentira posta a correr é de que os portugueses são preguiçosos, tal como os outros povos do sul, trabalham pouco e têm muitos feriados. Ora a carga horária dos trabalhadores em Portugal é das mais elevadas da Europa, os períodos de férias são dos mais curtos, se a produtividade é menor, questione-se quem detém a gestão das empresas e é por isso responsável pelos planos de trabalho.

A falácia sobre a baixa do desemprego que tem sido denunciada é agora reconhecida pela limpeza de ficheiro efectuada pelo IEPF, que durante 2014 teve uma média de 56,3 mil desempregados cortados das listas e que só no mês de Junho cortou 60 mil pessoas. É assim que martelando os números o governo fabrica as taxas com que depois tão despudoradamente se vangloria.

As eleições Legislativas 2015 foram marcadas para o próximo dia 4 de Outubro. O Presidente da Republica aproveitou a sua alocução televisiva para fazer uma dramatização da necessidade de maiorias absolutas e de coligações, numa tentativa de condicionar a vontade dos cidadãos eleitores e as resoluções dos partidos políticos. Cavaco Silva tem ultrapassado todos os limites democráticos no suporte ao governo, chegando a fazer declarações de claro e despudorado apoio às políticas desenvolvidas pelo governo, como acabou de fazer acerca da municipalização dos serviços públicos.

29.07.2015

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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