03 August 2015

MANIPULAÇÕES

Os acontecimentos dos últimos dias envolvendo a Grécia e o chamado espaço euro vieram clarificar uma situação, que tem vindo a ser denunciada cada vez mais frequentemente, de que não há democracia nas instituições europeias. A única instância directamente eleita é o Parlamento Europeu e a sua influência real na vida da União é pouco perceptível.

Os interesses defendidos pelo directório do espaço euro estão longe de coincidir com os dos povos da Europa, mas são tão-somente a via neoliberal do capitalismo financeiro internacional. O empobrecimento é o caminho para a submissão e para o esbulho perpetrado pelas entidades do capital financeiro.

As chamadas dívidas soberanas dos diferentes países europeus, nomeadamente daqueles que estão em mais dificuldades, como a Grécia, Portugal, Espanha, Itália ou Irlanda, não passam de meros instrumentos de uma chantagem destinada a submeter os respectivos povos às pretensões do capitalismo financeiro e da transferência para os seus bolsos da riqueza produzida pelo trabalho.

As dívidas de quase todos os países são consideradas por muitas entidades insuspeitas e responsáveis como impossíveis de pagar, porque o pagamento dos respectivos juros é superior ao aumento da produção de riqueza de cada um.

No caso da Grécia, as condições a que os gregos foram submetidos para aceder ao terceiro resgate são verdadeiramente inaceitáveis. A exigência de aumento geral de impostos e de cortes nas pensões de reforma, bem como a constituição do famoso fundo de 50 mil milhões de euros a depositar num banco alemão, sedeado no Luxemburgo, não se destinam a resolver nenhum dos problemas gregos, mas a puni-los por terem ousado opor-se à austeridade.

Este famigerado fundo destina-se a impedir o governo grego de gerir o futuro e a estar dependente da vontade de instituições não eleitas e sem qualquer representatividade democrática.

A criação deste fundo, gerido a partir de Atenas, já teve a paternidade do primeiro-ministro da Holanda, mas Pedro Passos Coelho  não hesitou em afirmar ter sido uma ideia sua.
A ideia defendida pelo ministro das finanças alemão, Schauble, de expulsar ainda que provisoriamente a Grécia do euro, não passa de mais uma tentativa de humilhação e de uma mesquinha vingança.

Os governos que mais reticentes se mostraram à possibilidade de um apoio financeiro ao povo grego fazem-no em grande parte por razões ideológicas.

O bondoso empréstimo que o Banco Central Europeu concede destina-se em grande parte a pagar ao próprio BCE e ao FMI, pois pouco ficará para financiar a economia grega.

Cresce o número de pessoas que afirmam que na Europa se está a substituir a democracia de cada um dos países por uma ditadura do capital financeiro, calando a voz da sua soberania. São também cada vez mais os cidadãos europeus que dizem ser incompatível a vivência em democracia com a permanência num espaço económico como aquele que está a funcionar neste momento na Europa, sob o comando dos interesses do capital financeiro, representados pela banca alemã.

Imposta a humilhação ao povo grego vão agora admitindo a necessidade de reestruturação da sua dívida, embora ao melhor jeito do polícia bom/polícia mau, a chanceler Merkel e o ministro Schauble continuem a afirmar, um que quer ajudar a Grécia e o outro que a quer fora do espaço europeu.

A razão para a concessão do empréstimo à Grécia está à vista. Os fundos agora emprestados foram directamente para pagar ao FMI e ao BCE. Como se vê o crescimento económico não é uma prioridade nesta Europa burocrata, muito longe do que pensam a maioria dos seus cidadãos.

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O governo PSD/CDS lançou a sua campanha eleitoral, ainda sem programa, baseada em mentiras e em manipulações sobre a situação económica do nosso país.

Pedro Passos Coelho tem o desplante de afirmar que o governo criou 175 mil novos empregos, esquecendo o número dos que destruiu e de que tipo de empregos está a falar, dos estágios pagos pelo estado, dos contractos de emprego-inserção em que os desempregados são obrigados a trabalhar em troca do subsídio e de uma pequena contribuição  ou da participação em cursos de formação para nada, todos eles considerados empregos na narrativa governamental. Os pouquíssimos postos de trabalho criados auferem o salário mínimo ou pouco mais.

O que o primeiro-ministro não explica, é que se todas as medidas de austeridade foram impostas em nome do pagamento da divida, por que razão a divida continua a crescer. Assim sendo, para que servem os sacrifícios inauditos a que sujeitaram o povo?

Portugal é actualmente o país da Europa onde a desigualdade social mais se faz sentir. O que a austeridade fez, foi radicalizar ainda mais a desigualdade.

A alternativa que o país necessita tem de orientar a economia para o crescimento de emprego, porque só assim a economia cresce e poderá obter receitas que permitam equacionar a possibilidade do pagamento da parte da divida que se considerar aceitável. Essa é que deveria ser a prioridade das prioridades da Europa.

22.07.2015

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda 

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