03 July 2015

DIGNIDADE E COERÊNCIA

Constitui uma diferença abismal a atitude de um partido que se rege coerentemente por normas democráticas e aqueles que  invocam levianamente a democracia, apenas quando isso lhes pode trazer benefícios.

Estou a referir-me à situação política grega e à tomada de posição do governo do Syriza e do seu primeiro-ministro, Aléxis Tsipras, que, por não estarem mandatados pelo povo grego para aceitar as medidas chantagistas impostas pelos representantes da alta finança internacional, a troika, tiveram a atitude honesta de perguntar ao povo grego qual a sua opinião, por meio de um referendo.

Tudo isto é muito diferente do que os nossos governantes fizeram em Portugal. Os portugueses nunca discutiram seriamente as questões europeias, nem  foram consultados e não se entende porquê, pois seria o primeiro momento de debate sobre a Europa, bem como sobre as sucessivas assinaturas pelos nossos  governantes dos tratados internacionais, alguns bem gravosos, ou mesmo para darmos opinião sobre o que pretendemos  para o futuro comum.

É mais uma razão para que aqueles que se reconhecem na democracia apoiem a coragem do povo grego e do seu governo neste grave momento em que têm que suportar uma situação que não criaram, mas que herdaram dos partidos de direita e do PASOK, permitindo que ao mesmo tempo que os mais pobres viam os seus salários e pensões serem cortados em cerca de 27%, aos mais ricos eram criadas isenções de pagamento de impostos, o que criou condições que raiam a catástrofe humanitária.

A intransigência por parte das entidades financeiras, que comandam na sombra a troika, resume-se à necessidade de mostrar quem manda na UE e ainda que fora das políticas de austeridade não são admissíveis alternativas. Demonstram assim o maior desprezo pela democracia e pela vontade expressa pelo povo, humilhando o povo grego e a sua soberania. Num sério aviso aos povos da Europa. A única preocupação é a captura pelo grande capital financeiro do valor produzido pelos trabalhadores.

Por cá Cavaco Silva e o governo PSD/CDS, não hesitam em afirmar que a atitude do governo grego é “uma inaceitável chantagem sobre a Europa”, no que são acompanhados de toda uma corte de fazedores de opinião, que encharcam a comunicação social com os seus comentários encomendados. O que continuam a não dizer é que se a Grécia for obrigada a sair do euro, o próximo alvo é Portugal, dadas as suas enormes fragilidades.

É evidente que para esses seguidores do neoliberalismo a atitude vertical de quem ponha os interesses do povo acima dos apetites dos financeiros tem de ser combatida, vilipendiada e se possível rapidamente afastada, para não contaminar a paz podre instalada.

Foi a tudo isto que assistimos nos últimos dias em Bruxelas e em Berlim com a intransigência da troika, que assume claramente a vontade de afastar o governo democraticamente eleito do Syriza. O governo grego apresentou outras alternativas políticas, quer reformular as questões financeiras impostas, para que o país tenha folga para poder investir e obter crescimento económico.

Esta atitude da troika deve merecer o mais vivo repúdio por parte de todos os democratas, pois constitui um violento ataque aos princípios da democracia e da autodeterminação dos povos. A luta que os gregos estão a travar com o grande capital financeiro é uma luta de todos os povos pela sua dignidade e pela sua soberania.

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Por cá, o governo Passos/Portas desenvolve manobras apressadas e sorrateiras com vista a colocar em lugares chave apoiantes seus, certamente com receio de perder as próximas eleições legislativas. Para isso recorre a todos os meios, mesmo os menos legais. Segundo a imprensa, o governo reabriu a embaixada junto da UNESCO para colocar o chefe de gabinete de Passos Coelho, Gilberto Jerónimo. Mas não se fica por aí, reabre o posto de cônsul-geral em Nova Iorque, para o qual é indicada Manuela Bairos e  reata o posto diplomático junto da Santa Sé.

De recordar que estes postos foram extintos há anos, pelo mesmo governo, sob o pretexto de poupar fundos.

Soube-se do escândalo envolvendo o secretário de estado da cultura, Barreto Xavier e a nomeação do director geral das artes, que não acolheu os candidatos apresentados pela CRESAP, como é de lei. Parece que tudo se pode esperar deste governo.

Também a senhora ministra da Justiça voltou a fazer das suas. Desta vez mandou espiolhar os programas dos outros partidos, utilizando funcionários do seu ministério. Vindo a público este acto, como é costume, em vez de assumir as responsabilidades, atira as culpas para outro funcionário, neste caso, a sua chefe de gabinete.

Em Matosinhos após a aprovação pela Assembleia Municipal do contrato de municipalização do ensino, os sindicatos apresentaram, uma providência cautelar, visando paralisar o processo, até esclarecimento da legalidade do acto, com base no facto de cinco em doze dos agrupamentos escolares terem votado contra  e de uma percentagem esmagadora dos professores das escolas do concelho se terem manifestado em referendo contra a municipalização. 

Ainda muita água vai correr debaixo das pontes. 

30.06.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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