21 July 2015

ASSIM, NÃO!

Mais de 60% dos gregos votaram no referendo convocado pelo governo, desses, 62% votaram NÃO, mesmo assim a comunicação social portuguesa, que se deslocou a Atenas, nomeadamente a televisão pública, optou por fazer reportagem a partir de um bairro ultra chique da capital, Kifissia, onde descobriu que o voto no SIM tinha ganho. Por aqui se pode aquilatar da isenção da informação e de como esta procura condicionar a opinião dos portugueses. Como se para mostrar a realidade de Portugal bastasse passear na Quinta da Marinha e conversar com algumas tias da linha de Cascais.

As declarações contra a Grécia e contra o Syriza pronunciadas por várias personalidades como Vital Moreira, João César das Neves, o “bon vivant” Manuel Serrão, e tantos outros, para não falar do governo e dos seus apoiantes, só podem provocar a repulsa dos democratas pelos juízos de valor levianos e até maldosos, isto vindo de cidadãos de um país que tem estado sujeito e vai continuar a estar aos ataques do capital financeiro, apesar dos elogios e pancadinhas nas costas, pela actuação do governo no seu vergonhoso papel de bom aluno, ao estilo de lambe botas da sra. Merkel & Cª.

A chantagem das instituições europeias continua sobre o povo grego, com a única finalidade de os fazer vergar e obrigar a aceitar as condições leoninas que lhes querem impor.

O problema maior que opõe o directório europeu à Grécia tem a ver com o ódio à alternativa. Durante anos foi inculcada aos europeus a ideia de que não havia saída para além da austeridade. Quando um povo e o seu governo ousaram tentar mostrar a sua diferença, a resposta de Merkel, Schauble e outros é humilha-los, como exemplo, para que não se repita.

A central que comanda a informação neoliberal pôs a correr a existência de uma dicotomia entre os virtuosos e trabalhadores dos países do norte em oposição aos preguiçosos e irresponsáveis do sul. A proposta de solução é composta de intervenções disciplinadoras dos primeiros sobre os segundos. Esta visão purificadora de tipo mais ou menos religioso, tem em vista a aceitação da austeridade como cura inevitável e inquestionável.

É contra uma tal inevitabilidade que é necessário juntar forças e lutar. Nada prova que esta seja a verdade e como os factos desmentem as informações sabemos que, ao contrário do que tem sido afirmado, os trabalhadores portugueses e até os gregos trabalham muito mais horas do que os trabalhadores alemães. A diferença de produtividade é uma questão de organização do trabalho que não pode ser assacada aos assalariados.

A ameaça de expulsão da Grécia do espaço euro e até da União Europeia, figura que não existe nos diferentes tratados aprovados, na maioria das vezes à revelia dos povos europeus, mereceu o apoio de alguns governos como os da zona do Báltico, da Holanda, e pasme-se do único governo do sul da Europa, que está permanentemente sob o comando do governo alemão, neste caso o de Passos Coelho/Portas.

A situação a que se chegou agora não decorreu de um acordo, mas de uma imposição inadmissível que procura apenas provocar a submissão dos gregos e, se possível, a entrega do poder na Grécia aos partidos que a conduziram ao estado de profunda depressão em que se encontrava quando o SYRIZA ganhou as eleições. Não se tratou de uma capitulação, mas de uma solução em extremo, para evitar o mal maior de uma catástrofe humanitária.

A finalidade das instituições financeiras foi mesmo de humilhar os gregos, o seu governo eleito e de dar um aviso a todos os outros países para terem juizinho

O que parece decorrer de toda a chantagem exercida sobre a Grécia é uma afirmação de quem manda e que isso de democracia não faz sentido, porque quem manda no fim das coisas são os bancos e os mercados, sem alma e sem rosto, em suma, o capital financeiro. Esta situação não pode deixar indiferentes aqueles que, durante tantos anos lutaram duramente pela instituição democrática e pela preponderância da política sobre a economia.

Com procedimentos assim, a União Europeia está a rasgar os compromissos assumidos pelos seus fundadores, que se propunham uma Europa de paz, prosperidade, democracia e solidariedade entre os povos. Assim, não faz sentido um espaço europeu comandado pelo ministro Schauble e pela chanceler Merkel com apoios subservientes do PPE e do PSE. Estão a cavar a sua própria sepultura, isto se as lições da História servirem para alguma coisa.

###

O governo PSD/CDS continua com a falsa narrativa de que o país está melhor, que a economia cresce, o desemprego baixa, as exportações aumentam e a divida está estabilizada. Os dados que são apresentados por entidades credíveis mostram o contrário. Apesar da terrível austeridade, a dívida pública continua a subir e a níveis nunca antes atingidos, o desemprego é escondido por manobras como cursos de formação para tudo e nada ou de colocações em estágios, para além da constante saída de jovens para o estrangeiro.

Os relatórios do Tribunal de Contas começam a levantar o véu sobre os estranhos negócios das privatizações que tanto têm prejudicado o erário público e o património.

As desculpas habitualmente utilizadas com os erros das governações anteriores já começam a não convencer ninguém. De qualquer modo é necessário recordar que o PSD avalisou os PEC 1, 2 e 3 e participou entusiasticamente no pedido de intervenção da troika, chegando a afirmar que o programa da troika era o seu programa. Agora falam em que conseguiram libertar Portugal dos sacrifícios a que a austeridade nos obrigou. O governo e os seus apoiantes estão em estado permanente de negação e revelam memória curta.

Convém não esquecer que a situação portuguesa está longe de estar ao abrigo das mesmas dificuldades que afligem os gregos. É necessária uma atitude de alerta para com todas as manobras, que, à última da hora, os partidos da maioria pretendem impor.

15.07.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

No comments:

Visitas

Contador de visitas