05 May 2015

UM 25 DE ABRIL DE VERDADE

As saudações ao 25 de Abril, ou são coerentemente acompanhadas por acções quotidianas com vista à prossecução dos ideais democráticos que o nortearam ou não passam de boas intenções circunstanciais e simbólicas, mas vazias de conteúdo.

Diz-se que o 25 de Abril não tem donos, mas uma coisa é ter uma prática politica e social de acordo com as razões que levaram ao seu desencadeamento, outra coisa é negar quotidianamente a luta contra as injustiças, contra a falta de liberdade e pela democracia, submetendo o povo português às ordens e aos interesses do grande capital financeiro. A criação de desemprego, a precariedade e a destruição do Estado Social não são compatíveis com o entoar de loas ao “espírito de Abril” e a exibição pública do seu símbolo na lapela. Soa a falso e a oportunismo puro.

O 41º. Aniversário do 25 de Abril deve ser visto à luz da realidade da vida dos portugueses e da necessidade de manter viva a capacidade de resistência, que em tantas e difíceis circunstancias tem sido demonstrada, como condição para que a esperança se mantenha e o 25 de Abril seja mesmo de verdade.

É por isso que saúdo Abril e Maio, por tudo o que significam de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
A corrupção está longe de poder ser assacada ao 25 de Abril, porque já existia muito antes, mas nos últimos tempos alcançou dimensões inaceitáveis. Como constitui um crime contra a democracia deve merecer um combate sem quartel por parte dos democratas.

Embora os comentadores do costume e os apoiantes do governo procurem popularizar a ideia de que não há nada a fazer e que a situação é inevitável, todos sabemos que não é bem assim.

O maior problema que a crise financeira de 2009 arrastou foi o empobrecimento geral da população, provocado pelo desemprego e pela precarização. Esta situação agravou-se em Portugal pela existência de uma grande exposição por parte dos bancos à economia de casino e a negócios escuros que fragilizaram ainda mais a já periclitante economia do nosso país.

A finança internacional neoliberal viu na chamada crise do “prime-time”, a possibilidade de reverter a seu favor o valor do trabalho. Assim, essas entidades apostaram, em Portugal, tudo num grupo de “jovens turcos”, a ala neoliberal do PSD que a apoiava, Pedro Passos Coelho, Relvas, Moedas, Gaspar, etc. Estes senhores não tiveram problemas em prometer mundos e fundos para ganharem as eleições, depois delas fizeram exactamente o contrário do prometido.

A estratégia neoliberal passa pela destruição do Estado Social para submeter os trabalhadores a um regime de quase escravidão, de trabalho sem direitos, sem apoios sociais, sujeitos à prepotência do patronato e à caridadezinha do governo.

Esta é a realidade da situação em que vivemos hoje: 640 mil crianças e jovens em risco de pobreza; 82 mil trabalhadores com formação superior com salários abaixo de 600 euros; o maior crescimento na Europa em termos de empobrecimento; uma enorme desigualdade social, alargando-se o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. A transferência do valor do trabalho para o capital está a ser real e cuidadosamente programada.

Por isso a precariedade social e laboral requer respostas claras e sem tibiezas.

Nem todos baixaram os braços. Muitos foram os trabalhadores que se ergueram em luta contra a prepotência e por condições de trabalho dignas, por solidariedade com camaradas despedidos e para reivindicarem a não privatização de muitas empresas públicas. Aconteceu com os trabalhadores da UNICER, da EFACEC, do Metro, dos STCP, do pessoal de saúde, dos professores e de tantos outros.
É este o caminho a seguir, recusar a inevitabilidade e lutar pelos nossos interesses colectivos e por condições de vida mais dignas.

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Temos assistido à colocação em locais chave da administração pública de funcionários sem outra recomendação que não seja o facto de estarem ligadas aos partidos da maioria no poder. Até João Bilhim, o responsável pela CRESAP, a comissão criada pelo governo para seleccionar pessoal para administração pública se queixa de ser ultrapassado nas escolhas e de que há perfis feitos à medida para candidatos.

Sem querer fazer futurologia parece que o governo prepara o terreno para, perdendo as próximas eleições, manter pessoas da sua confiança em lugares chave. Há ainda a considerar que os contratados, caso não lhes seja reconhecida competência por um futuro governo, para serem substituídos vão custar muito caro ao erário público.

Um destes casos, agora conhecido, foi a nomeação para a administração da APDL, que dirige o porto de Leixões, do Dr. António Santos, cuja experiência nesse campo parece residir no facto de ter sido presidente da Câmara Municipal de Penafiel, pelo PSD.

Convém recordar que o actual governo acusava veementemente o anterior de abusar das mesmas práticas que agora não hesita em utilizar. Esta foi uma bandeira de luta que levou o PSD/CDS à vitória eleitoral. Estamos a assistir a uma farsa, com cheiro a tragédia.

29.04.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda


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