13 April 2015

CIDADANIA E ESPERANÇA

Os erros cometidos pelos governantes, escondidos por declarações tão enfáticas quanto mentirosas, começam  a vir à luz do dia e a ser desmascaradas.

No início foi o grotesco episódio das confusões em torno do inefável Miguel Relvas e do seu grupo de apoiantes.

Mais tarde sucedeu a demissão “irrevogável” de Paulo Portas, que conseguiu com esse truque a promoção a vice primeiro-ministro, sem mais explicações.

Mas houve muito mais, lembremos: depois dos escândalos dos submarinos e das compensações não pagas a Portugal, curiosamente arquivados sem consequências, seguiram-se os casos dos vistos Gold, que levaram à demissão do ex-ministro da administração interna, Miguel Macedo. Do ministério da justiça vieram as trapalhadas das alterações do parque judicial e do sistema informático, seguido da manipulação do número de reincidentes abusadores pedófilos para justificar uma lista quase publica dos mesmos, o que coloca a ministra da justiça numa posição periclitante.

Os esquecimentos do primeiro-ministro do pagamento à segurança social das suas contribuições no passado, alegando desconhecimento, quando o mesmo se mostrou implacável param com os incumpridores, muitos por razões da grave crise que vivemos.

A lista dos intocáveis VIP do fisco, cuja existência foi várias vezes negada pelo secretário de estado Paulo Núncio, por acaso integrante da mesma, veio aumentar as nódoas deste governo.

Os cortes na saúde que se reflectiram nas carências de pessoal médico, de enfermagem e até de medicamentos nos hospitais, não abonam a favor da apregoada capacidade de gestão do ministro da saúde.
O anúncio de cofres cheios pela ministra das finanças, fundos que afirmou serem para entregar aos credores, mostrou bem a insensibilidade social do governo PSD/CDS.

Tudo isto acompanhado por contínuas manipulações de números, do crescimento económico às taxas de desemprego, que toda a gente sabe serem falsas, leva a uma desconfiança cada vez maior na política e nos políticos.

As promiscuidades entre os políticos e empresas privadas, tantas vezes com interesses contrários aos do estado, têm merecido propostas para acabar com tais dislates, que foram sistematicamente recusadas pela maioria.

Num país com uma democracia de cidadãos mais exigentes este governo já teria caído há muito tempo.

Mas até esta desconfiança é promovida pelos “fazedores de opinião” para afastar as pessoas da participação democrática que aumenta a consciência colectiva nas resoluções.

A narrativa da inevitabilidade, posta a correr por aqueles a quem interessa a confusão, destina-se a impedir o surgimento e apoio de alternativas com viabilidade.

O discurso recorrentemente pessimista  de que os políticos são todos iguais, não passa de mais uma faceta dessa narrativa, com fim de desmobilizar as pessoas.

Tem sido assim possível levar à prática a destruição do Estado Social, da Escola Pública, do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social, preparando a privatização do que for rentável.

A destruição do Estado Social é um dos pressupostos para subjugar as massas trabalhadoras e é o que se tem verificado no nosso país, onde o governo Passos Coelho/Paulo Portas está em perfeita sintonia com as teorias neoliberais.

Convém pensar um pouco, sem nos deixarmos levar pelas narrativas dos comentadores, nem pelas conversas de café.

Como se pode dizer, em consciência, que todos os políticos são iguais, quando há quarenta anos que somos governados em alternância ou com coligações pelos mesmos três partidos, sem que tenham sido sequer experimentadas outras propostas e alternativas?

A crise, motivada pela economia de casino que as grandes instituições financeiras promoveram, trouxe ao de cima a aplicação por essas mesmas entidades das teorias neoliberais gizadas na Grã-Bretanha por Margareth Thatcher e nos Estados Unidos por Ronald Reagan, buscando apropriar-se do valor do trabalho pela desvalorização contínua do mesmo.

O neoliberalismo não recua perante nada, as instituições democráticas dos países são ultrapassadas, as resoluções assumidas pelos governos legitimamente constituídos, são completamente desrespeitadas, os interesses dos povos são alienados a favor dos interesses dos banqueiros.

O exemplo que veio da Grécia mostra que é possível alterar este estado de coisas, bastando para isso que os cidadãos debatam entre si os problemas e encontrem formas de os ultrapassar. A experiencia do Syriza, apesar das enormes dificuldades que tem enfrentado, é prova que nada é imutável e que vale a pena lutar por aquilo que queremos e em que de facto acreditamos.

Alguns dizem que o melhor é não votar, mas esta posição é indefensável e só beneficia o poder estabelecido. A abstenção , o voto nulo ou o voto em branco são iguais ao baixar os braços, é o deixar aos outros a possibilidade de decidirem por nós.

Daqui a seis meses haverá eleições legislativas e o nosso dever como cidadãos é não esquecer os acontecimentos do passado próximo e os sacrifícios impostos ao povo português, sem qualquer sentido.

A pior coisa que nos pode acontecer é deixar morrer a esperança.

8.04.2015

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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