27 February 2015

CONSTATAÇÕES

Que mais não fosse, por ter dado azo à abertura da discussão sobre a realidade europeia, a coragem demonstrada pelo povo grego ao eleger o Syriza, é merecedora do apreço e reconhecimento dos restantes povos da Europa.

Pelo facto de o Syriza ter afirmado que não iria continuar a aceitar as políticas de austeridade impostas, sem negar o pagamento das dívidas do seu país, mas fazendo depender da capacidade de crescimento económico do país, chegamos à conclusão de que muita coisa tem estado sufocada na União Europeia.

Do governo da Alemanha conhecemos a presunção imperial de impor uma liderança baseada na pujança da sua economia, mas não devemos esquecer que essa pujança económica teve por base a solidariedade de países europeus , após o descalabro da II guerra mundial, ao perdoarem a dívida e ao financiarem a economia alemã. Um desses países era Grécia.

A Irlanda e os países do sul da Europa, Portugal, a Espanha, a Grécia, a Itália e  Chipre, insultados e humilhados, foram submetidos a políticas de austeridade violentas com a finalidade principal de salvar a banca posta em risco pela crise financeira e para pagar as compras efectuadas precisamente à indústria Alemã.

Falava-se da  superioridade dos mercados sobre a política, propagandeava-se que  não havia alternativa. Infelizmente todos sabemos a que isto nos levou.

A falta de respeito pela política e pela democracia evidenciada pelos partidários do neoliberalismo manifesta-se claramente ao pretenderem passar por cima das decisões democráticas dos povos da Europa, como agora se verificou com a Grécia, na  atitude do senhor ministro das finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, que teve a ousadia de dizer, “sinto muito pelos Gregos, elegeram um governo que se porta de forma irresponsável”, uma afirmação destas sobre as escolhas de qualquer povo, é inadmissível.

Na última semana foi o próprio presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, quem afirmou que a troika pecou contra a dignidade dos países sujeitos a resgate ou ajustamento. Imediatamente Passos Coelho se apressou a desmentir Juncker, dizendo que Portugal nunca foi insultado.

O governo português, com a pusilanimidade que lhe é conhecida tem vindo a colocar-se sistematicamente ao lado do governo alemão, face ao caso grego, como se Portugal não estivesse em circunstâncias bastante próximas da Grécia em todos os quadros económicos e como se,  no caso de haver uma saída da Grécia do euro, o próximo país não fosse Portugal. Aos banqueiros e entidades financeiras o facto de se portarem como “bons alunos” subservientes não interessa nada. Esta atitude de ser mais papista do que o papa leva a que a ministra das finanças, mereça do jornal alemão, Die Welt, a informação de que terá pedido ao ministro alemão Wolfgang Schauble para que fosse rigoroso com a Grécia.

Contrariamente aos desígnios neoliberais os ministros gregos mantiveram-se firmes, mas flexíveis e conseguiram negociar condições fundamentais a fim de melhorar a vida dos seus cidadãos criando igualmente condições para combater a corrupção a fraude fiscal e a fuga aos impostos, ao mesmo tempo que combate a crise humanitária em que o país mergulhou.

As diversas manifestações de apoio ao Syriza  que se vão verificando por toda a Europa e pelo Mundo, dizem bem das aspirações dos povos à dignidade e à escolha democráticas.

 ###

Apesar das dificuldades impostas aos portugueses pelas políticas de austeridade e da aparente apatia social, continua a haver uma capacidade de resistência que nos últimos tempos se tem materializado por movimentações de trabalhadores na defesa dos seus direitos.

Para além das greves dos transportes contra as privatizações anunciadas, ocorreu uma greve exemplar na UNICER pela reintegração de um trabalhador despedido, também dos trabalhadores do grupo SONAE contra a deterioração das suas condições de vida e mais recentemente a dos trabalhadores da EFACEC exigindo da administração para além da melhoria de salários,  que não ocorre há vários anos, uma melhor distribuição da massa salarial  para que, a tantos trabalhadores com pouco mais do que o salário mínimo, não correspondam salários de mais de cem mil euros dos administradores, como acontece agora.

São igualmente importantes as lutas do pessoal de saúde denunciando as precárias condições que os cortes governamentais provocam na assistência nos hospitais e centros de saúde, com as medidas

Mantem-se de pé a luta dos trabalhadores da segurança social despedidos, na previsão da entrega de serviços às IPSS.

As lutas contra a destruição dos serviços públicos têm mobilizado um número cada vez maior de cidadãos pela preservação de serviços de proximidade.
São lutas pela dignidade e justiça social.

Pode constatar-se por esta firmeza por parte dos trabalhadores que o país não está derrotado, nem de joelhos perante os interesses da finança e dos seus representantes.

24.02.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

No comments:

Visitas

Contador de visitas