06 February 2015

AS PESSOAS PRIMEIRO

A expressiva vitória da esquerda na Grécia mostra que  em democracia nada é impossível e que não há situações irrevogáveis, quando as pessoas e os seus interesses são colocados em primeiro lugar, face aos interesses financeiros.

Após tantos anos de rotativismo e de alianças entre partidos dominados por clãs familiares, que deixaram os gregos a braços com uma situação social dificílima, provocada por políticas violentíssimas de austeridade, foi com uma posição clara e firme que a esquerda grega, integrada no partido Syriza conseguiu unir os gregos na busca de uma alternativa.

Enfrentando uma crise humanitária grave, com um desemprego altíssimo, uma situação social aflitiva, uma economia destruída pelas medidas impostas pela troika conduziram os gregos à escolha de uma alternativa que rompia com a situação pantanosa em que tem vivido a politica grega.

A esperança rompeu com o cinzentismo e explodiu contra todos os que não hesitaram em ameaçar e chantagear o eleitorado grego com o caos, se ousassem desobedecer aos ditames da troika, de Bruxelas e de Berlim. O povo grego deu uma bela lição de democracia.

O Syriza pode ter de percorrer um caminho de enormes dificuldades, mas é claramente a vitória da democracia e da dignidade contra a submissão e a resignação.

O factor principal que uniu os gregos nestas eleições foi a contestação das políticas de austeridade que levaram os gregos à mais extrema pobreza e o entendimento que a divida, em contínuo crescimento  nas circunstâncias actuais, é impagável e requer uma negociação urgente.

O povo grego não pode ser prejudicado pelos negócios dos governos anteriores que efectuaram compras tão inúteis como os seis submarinos à Alemanha, que continua a mostrar-se intransigente, mas que esquece, que em 1957 esta mesma Grécia participou ao lado de um grupo de países, que perdoaram à Alemanha 62% da sua divida. As ameaças de Ângela Merkel e do seu governo são uma forma de mostrar aos outros países europeus quem realmente manda na Europa.

Uma das propostas do Syriza para tentar ultrapassar a crise dos países do sul da Europa é um entendimento entre esses mesmos países para consertar estratégias no sentido de pressionar as entidades financeiras, o BCE, o FMI e os países do norte da Europa, a fim de compreenderem as questões dos povos do sul e as suas dificuldades.

A declaração de Passos Coelho sobre as eleições gregas foi no mínimo patética e mal-educada. Declarou que a política do partido vencedor era um conto de crianças. Esqueceu-se de se informar melhor e que esse conto de crianças tinha acabado de ser sufragado por mais de 36% dos eleitores gregos.

O governo português em vez de continuar a querer parecer um bom aluno do neoliberalismo, sob o pretexto de cumprir com as responsabilidades assumidas, em nome dos interesses dos cidadãos seus eleitores, deveria participar ao lado dos países sob domínio da troika na tentativa de superar a crise de emprego e da divida.

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Por cá, Leal da Costa, secretário de estado da saúde, assinou um despacho em que fica prevista a possibilidade de o SNS recorrer às urgências instaladas em hospitais privados, em ocasiões de maior afluência de doentes.

Assim começa a entender-se melhor os cortes em pessoal de saúde e nos serviços, que tem provocado um autêntico caos nos últimos tempos nas urgências dos hospitais públicos e que já levaram à morte de vários doentes à espera de atendimento. Trata-se de beneficiar as entidades detentoras de hospitais privados e acelerar a destruição do SNS.

Esta situação tem sido denunciada por médicos e enfermeiros que afirmam que há falta de pessoal, o que tem provocado a exaustão dos trabalhadores da saúde, pela sobrecarga de trabalho a que são sujeitos, enquanto milhares de médicos e enfermeiros são obrigados a escolher a emigração por falta de colocação e de condições de vida.

A estratégia do governo de paulatinamente destruir o Serviço Nacional de Saúde está à vista em todo o seu esplendor.

A frieza manifestada pela declaração de que os 700 mortos verificados no início do período da crise gripal não é preocupante, diz bem da forma displicente e insensível como o ministério encara os cidadãos, como um qualquer número estatístico.

Outra insensibilidade tem a ver com a recomendação de 10 minutos para cada consulta de doentes com gripe. O que, além de interferir no acto médico, é absolutamente imoral.

Já basta de políticas de austeridade que cada vez mais são consideradas inúteis e incapazes de resolver quaisquer problemas. É bem certo que apenas beneficiam aqueles que buscam a maior transferência do rendimento do trabalho para o bolso do capital financeiro.

Só políticas que coloquem as pessoas e os seus interesses em primeiro lugar, racionalizando e rentabilizando recursos, devem merecer o apoio dos trabalhadores em Portugal e na Europa.
Tal como na Grécia, sabemos que o dinheiro não é elástico, mas é tudo uma questão de escolhas e prioridades.


28.01.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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