27 February 2015

CONSTATAÇÕES

Que mais não fosse, por ter dado azo à abertura da discussão sobre a realidade europeia, a coragem demonstrada pelo povo grego ao eleger o Syriza, é merecedora do apreço e reconhecimento dos restantes povos da Europa.

Pelo facto de o Syriza ter afirmado que não iria continuar a aceitar as políticas de austeridade impostas, sem negar o pagamento das dívidas do seu país, mas fazendo depender da capacidade de crescimento económico do país, chegamos à conclusão de que muita coisa tem estado sufocada na União Europeia.

Do governo da Alemanha conhecemos a presunção imperial de impor uma liderança baseada na pujança da sua economia, mas não devemos esquecer que essa pujança económica teve por base a solidariedade de países europeus , após o descalabro da II guerra mundial, ao perdoarem a dívida e ao financiarem a economia alemã. Um desses países era Grécia.

A Irlanda e os países do sul da Europa, Portugal, a Espanha, a Grécia, a Itália e  Chipre, insultados e humilhados, foram submetidos a políticas de austeridade violentas com a finalidade principal de salvar a banca posta em risco pela crise financeira e para pagar as compras efectuadas precisamente à indústria Alemã.

Falava-se da  superioridade dos mercados sobre a política, propagandeava-se que  não havia alternativa. Infelizmente todos sabemos a que isto nos levou.

A falta de respeito pela política e pela democracia evidenciada pelos partidários do neoliberalismo manifesta-se claramente ao pretenderem passar por cima das decisões democráticas dos povos da Europa, como agora se verificou com a Grécia, na  atitude do senhor ministro das finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, que teve a ousadia de dizer, “sinto muito pelos Gregos, elegeram um governo que se porta de forma irresponsável”, uma afirmação destas sobre as escolhas de qualquer povo, é inadmissível.

Na última semana foi o próprio presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, quem afirmou que a troika pecou contra a dignidade dos países sujeitos a resgate ou ajustamento. Imediatamente Passos Coelho se apressou a desmentir Juncker, dizendo que Portugal nunca foi insultado.

O governo português, com a pusilanimidade que lhe é conhecida tem vindo a colocar-se sistematicamente ao lado do governo alemão, face ao caso grego, como se Portugal não estivesse em circunstâncias bastante próximas da Grécia em todos os quadros económicos e como se,  no caso de haver uma saída da Grécia do euro, o próximo país não fosse Portugal. Aos banqueiros e entidades financeiras o facto de se portarem como “bons alunos” subservientes não interessa nada. Esta atitude de ser mais papista do que o papa leva a que a ministra das finanças, mereça do jornal alemão, Die Welt, a informação de que terá pedido ao ministro alemão Wolfgang Schauble para que fosse rigoroso com a Grécia.

Contrariamente aos desígnios neoliberais os ministros gregos mantiveram-se firmes, mas flexíveis e conseguiram negociar condições fundamentais a fim de melhorar a vida dos seus cidadãos criando igualmente condições para combater a corrupção a fraude fiscal e a fuga aos impostos, ao mesmo tempo que combate a crise humanitária em que o país mergulhou.

As diversas manifestações de apoio ao Syriza  que se vão verificando por toda a Europa e pelo Mundo, dizem bem das aspirações dos povos à dignidade e à escolha democráticas.

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Apesar das dificuldades impostas aos portugueses pelas políticas de austeridade e da aparente apatia social, continua a haver uma capacidade de resistência que nos últimos tempos se tem materializado por movimentações de trabalhadores na defesa dos seus direitos.

Para além das greves dos transportes contra as privatizações anunciadas, ocorreu uma greve exemplar na UNICER pela reintegração de um trabalhador despedido, também dos trabalhadores do grupo SONAE contra a deterioração das suas condições de vida e mais recentemente a dos trabalhadores da EFACEC exigindo da administração para além da melhoria de salários,  que não ocorre há vários anos, uma melhor distribuição da massa salarial  para que, a tantos trabalhadores com pouco mais do que o salário mínimo, não correspondam salários de mais de cem mil euros dos administradores, como acontece agora.

São igualmente importantes as lutas do pessoal de saúde denunciando as precárias condições que os cortes governamentais provocam na assistência nos hospitais e centros de saúde, com as medidas

Mantem-se de pé a luta dos trabalhadores da segurança social despedidos, na previsão da entrega de serviços às IPSS.

As lutas contra a destruição dos serviços públicos têm mobilizado um número cada vez maior de cidadãos pela preservação de serviços de proximidade.
São lutas pela dignidade e justiça social.

Pode constatar-se por esta firmeza por parte dos trabalhadores que o país não está derrotado, nem de joelhos perante os interesses da finança e dos seus representantes.

24.02.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

19 February 2015

ARROGÂNCIA E MENTIRAS

Mais um gigantesco escândalo bancário envolvendo a filial suíça do banco inglês HSBC. Trata-se de muitas centenas de milhões de euros de depósitos escondidos em offshore, uma forma de fuga aos impostos envolvendo alguns nomes de cidadãos com passaporte português.

As informações tornadas públicas acerca deste caso relatam que pelo menos 611 pessoas ou firmas portuguesas ou com ligações a Portugal, são detentoras de contas no valor de mais de 800 milhões de euros.

Alguns dos alegados utentes de contas no HSBC, tendo sido contactados após a divulgação de listagens, têm afirmado nada ter a ver com essas contas.

Estas negações podem configurar duas situações, cada qual a mais estranha. Ou se trata de fundos provenientes de transacções ilícitas, não susceptíveis de ser facilmente concentidas por essas pessoas, ou estes nomes não passam de testas de ferro que escondem outros depositantes.

De qualquer modo trata-se de avultadas quantias e de possíveis grandes fugas aos impostos no nosso país. É verdade, que qualquer pessoa pode ter depósitos em bancos estrangeiros, o que não pode é esquecer-se de pagar os respectivos impostos.

Desde 2010, data da divulgação da chamada lista Lagarde, onde constam os nomes dos depositantes no HSBC, já vários países conseguiram recuperar alguns impostos, mas os governos de Portugal não trataram de identificar os depositantes e de reaver os impostos em falta.

Embora tarde, espera-se que este caso, seja devidamente investigado e que os implicados sejam chamados a assumir as suas responsabilidades.

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A propósito da corajosa posição assumida pelo povo grego ao eleger para o governo um partido que claramente recusa a continuação da austeridade e  a submissão do seu povo aos interesses do capital financeiro, os governantes portugueses continuam com a sua narrativa de que Portugal não é a Grécia e de que  vão continuar ao lado dos que têm auferido ganhos fabulosos com os empréstimos,   e contra o seu próprio povo, como bons discípulos do neoliberalismo.

As preconceituosas e pouco rigorosas declarações de Pedro Passos Coelho, de Paulo Portas e de Cavaco Silva, são a prova de que os interesses defendidos por estes senhores nada têm a ver com as preocupações dos portugueses. Ao dizer que a Grécia não pode fazer o que quiser, estes senhores que até agora defenderam como inevitável a austeridade que os financeiros lhes ordenam, não querem perder a face ao vislumbrar de políticas alternativas. Os discursos que ouvimos sobre “os gregos” não têm diferenças notáveis com os discursos que partidos de direita europeia como “os novos finlandeses”, a direita alemã, os separatistas italianos ou a Frente Nacional francesa têm sobre os portugueses, espanhóis e gregos, como sendo preguiçosos e incumpridores. 

A coragem dos gregos em por em causa as políticas de austeridade que comprovadamente não têm surtido efeito e apenas contribuíram para aumentar o empobrecimento dos povos, tem a enorme vantagem de lembrar que há outros caminhos a procurar.

A arrogância dos governos de Portugal e do estado Espanhol tem mais a ver com o receio em relação ao seu próprio futuro do que com qualquer posição política pensada e consistente. A aproximação de eleições nos dois países leva a declarações que não passam de mera propaganda interna sobre melhorias e crescimentos que ninguém vê.

A última invenção é o anúncio do pagamento de parte do empréstimo do FMI nos próximos dois anos e meio. Convém não esquecer que no próximo Outono haverá eleições legislativas e que o governo PSD/CDS não pode contar como assegurada a sua vitória, pelo que poderá estar a atirar para cima de outro governo esta responsabilidade. Enfim, habilidades de engenharia financeira, que mais não é que uma gota no oceano da divida em crescimento.

Infelizmente a realidade dos factos não confirma as fanfarronadas governamentais. O défice da balança comercial aumentou 925 milhões, porque as exportações não aumentaram tanto como as importações. O FMI veio dizer que a taxa real do desemprego em Portugal é de 20,5%.   Também se sabe gora que é a intransigente Alemanha quem mais contribui para o desequilíbrio das contas públicas e do défice do nosso país.

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Os partidos do governo conseguiram mais um truque para assegurar a colocação de alguns dos seus boys divididos entre PSD e CDS, nas direcções intermédias da segurança social a coberto de entregar esses recrutamentos à CRESAP (Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública).

Estas colocações destinam-se a ocupar lugares que irão para além do final do consulado deste governo. Como a destruição da segurança social é uma das metas das políticas neoliberais, não é despiciendo pensar que estas colocações servem para armadilhar o terreno para qualquer governo, seja ele qual for.

No mesmo sentido está o Decreto-lei 30/2015 que legisla sobre “Transferência de competências do Estado para autarquias locais e entidades intermunicipais”, que prevê transferências para as autarquias de competências no âmbito do ensino e da saúde, ao arrepio dos respectivos profissionais, das organizações representativas, de muitos dos autarcas e da própria Associação Nacional de Municípios. Tudo isto no maior secretismo, nas costas dos cidadãos e agora apresentado como facto consumado. À partida mantenho a minha discordância a uma tomada de posição tão apressada, em fim de mandato e sem bases minimamente debatidas com os mais directamente interessados, professores, autarcas e encarregados de educação.  Estamos fartos de coisas feitas em cima do joelho sem maturação suficiente e de costas para as pessoas. Dada a importância deste tema na vida dos cidadãos e no futuro do país voltarei novamente a este tema com mais informação.

17.02.2015

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

13 February 2015

SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL, PRECISA-SE

Esta semana esteve em foco o facto de haver doentes infectados com hepatite C em risco de morte por falta de administração de um medicamento de alta eficiência, cujo fornecimento entretanto estava a ser objecto de negociação entre o Ministério da Saúde e o laboratório Gilead, americano, que se propunha cobrar mais de 42 mil euros pelo  tratamento com o medicamento Sofosfovir, com a duração entre 12 a 24 semanas que nos afirmam com uma taxa de sucesso de mais de 90% dos casos.

A situação agudizou-se com o falecimento de uma paciente que não chegou a ser tratada com o novo fármaco. O Ministro da Saúde foi confrontado por um doente presente na comissão da Assembleia da Republica, aos gritos de “não me deixe morrer”.  O país levou um soco no estômago, com o arrastamento displicente das negociações.

Estranhamente ou não, no dia seguinte foi dada a informação de que a situação tinha sido desbloqueada e o laboratório acedia a fornecer o medicamento por apenas 24 mil euros a dose, a serem pagos apenas no caso de sucesso.

A vida humana não é uma mercadoria, não tem preço e nunca pode estar em causa o seu valor. Todas as despesas são válidas em casos como estes. O que está em causa é o valor verdadeiramente extorsionário que a indústria farmacêutica se arroga o direito de exigir por um medicamento, seja ele qual for. Por mais alegações que se aduzam no sentido de explicar este preço, o custo da investigação ou outro, nada parece justificar o preço exorbitante a não ser a gula excessiva pelo lucro.

Por parte da União Europeia ainda foi esboçada uma tentativa de negociar em conjunto este fornecimento, o que seria vantajoso para todos, mas, como é costume nesta Europa pouco solidária, ficou cada país a tratar da sua vidinha e a assobiar para o lado.

O Estado Português não pode e não deve pactuar com este tipo de mercantilismo chantagista exercido por algumas empresas do ramo farmacêutico sem escrúpulos, A exemplo do que já tem acontecido noutras ocasiões, impõe-se que se quebre a patente do medicamento, isto é, que se ultrapasse a TRIPS (acordo internacional de protecção da patentes, que dura 20 anos) como o fizeram a India e o Brasil, no caso de outros medicamentos para a SIDA, sem que daí resultasse qualquer problema. Esse é o caminho a seguir, em nome da humanidade, a fim de permitir a todos os doentes infectados com hepatite C uma esperança de cura, com este medicamento.

A mercantilização absoluta e completa da saúde é uma das metas dos neoliberais. Lutar contra esta aberração, é uma forma de lutar pelos direitos humanos e pela nossa vida.

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A representante das Nações Unidas, Gabriela Knaul, esteve no nosso país para avaliar a qualidade da nossa justiça. Constatou aquilo que muitas vezes tem sido afirmado, que a justiça em Portugal é demasiado lenta, não igualitária, muito cara e bastante confusa nas suas resoluções. As mudanças prometidas e tantas vezes anunciadas, quer em termos processuais, quer em meios, não se têm mostrado capazes.

Por outro lado, o colapso do sistema informático dos serviços judiciários nunca foi cabalmente explicado, ficando por acusações feitas aos funcionários pela ministra e daqueles à ministra, contudo o mau funcionamento informático continua a fazer-se sentir.

Alias a senhora ministra já nos habituou, na sua ânsia de falar permanentemente à comunicação social, às constantes gafes, como em relação ao exercício da advocacia pelos eleitos ao poder local, sujeitando-se a ser desautorizada pelo primeiro-ministro como ocorreu agora com as suas afirmações sobre a despenalização das drogas leves.

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Forçosamente tenho que voltar a escrever sobre a Grécia e o seu recém-eleito governo.
Contrariamente ao que estamos habituados, nomeadamente no nosso país, o governo do Syriza apresentou este fim-de-semana o seu Programa Imediato de ajuda humanitária de apoio aos que mais sofreram com a crise. As pessoas em primeiro lugar e só depois a resolução da dívida. O ataque à catástrofe social em que mergulharam tantos gregos e o combate à austeridade são as prioridades do governo da Grécia. Entretanto vão apresentando propostas aos países europeus que permitam abordar o pagamento, mas de acordo com o crescimento económico do país.

Estas propostas são consideradas sensatas por muitos e conceituados economistas e até o Presidente dos Estados Unidos considera que a austeridade imposta nos últimos anos na Europa não tem resultados válidos.

A maneira nada solidária e até sobranceira com que o governo português fala da situação grega só tem par com a sobranceria dos governantes alemães, que procuram fazer esquecer o facto de a Grécia ainda ser credora da Alemanha de muitos milhões de euros de compensação pelos custos da invasão/ocupação, durante a II Guerra Mundial. Além do mais, uma parte substancial do empréstimo da troyka à Grécia foi usado para limpar a face a bancos, na sua grande parte alemães. Sigamos o circuito dos empréstimos e veremos quem realmente lucra, os bancos alemães.

Por isso a situação Grega não diz respeito só aos gregos. Afecta toda a Europa.

Exijamos como os gregos o fim da austeridade que nada resolveu, nem resolve. É urgente outro caminho político. É urgente a solidariedade internacional.

11.02.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

09 February 2015

HÁ SEMPRE ALTERNATIVAS

São inúmeras as entidades europeias e internacionais, passando por Obama, que consideram que as dividas soberanas dos países submetidos à intervenção da troika não são pagáveis nas condições actuais de prazos e de juros, propondo uma renegociação da divida para permitir libertar fundos a investir na economia, como forma de criar condições para melhorar a vida dos cidadãos. Ao mesmo tempo que consideram as politicas de austeridade como incapazes de resolver quaisquer problemas. De facto, mais de três anos de austeridade agravaram o nosso empobrecimento social, aumentaram as falências, o desemprego, a emigração, o crescimento exponencial da dívida  e   instalou   o desanimo na sociedade e a falta de perspectiva de futuro.

O governo alemão, acompanhado pelos governos dos países que compõem o seu eixo de apoio,  a Holanda, Finlândia, entre outros, continuam a afirmar que as políticas de austeridade são um êxito. Infelizmente o governo português tem aqui o papel de aprendiz subserviente.

Mesmo governos como o da Irlanda consideram que o pagamento dos empréstimos usurários à troika, são um garrote impeditivo do desenvolvimento das economias e da resolução do problema de desemprego que nos assola a todos.

No nosso país, com um governo fanaticamente seguidor das políticas neoliberais, continua a narrativa da imprescindibilidade do cumprimento dos compromissos, custe o que custar, cego e surdo às mudanças e a outras vozes que já se ouvem.

Só em 2014 o nosso país pagou à troika mais de dois mil milhões de euros em juros e em comissões, que tanta falta nos fazem para o investimento.

Com a vitória do Syriza na Grécia uma das propostas deste partido foi a de reunir uma Conferência Europeia sobre a divida para discutir, do ponto de vista dos devedores, uma renegociação das dívidas soberanas.

Todos hoje sabemos que os fundos emprestados pela troika foram principalmente para entregar aos bancos, a fim de resolver os problemas derivados da economia de casino a que se dedicaram. As medidas de empobrecimento da população levadas a cabo pelo governo são parte de uma estratégia visando transferir os rendimentos do trabalho para os bolsos das entidades financeiras.

Convém não esquecer que muitos dos elementos responsáveis do PSD, do CDS e até do PS foram dos mais entusiásticos defensores da vinda da troika e até o exprimiram publicamente.

A iniciativa do Banco Central Europeu de injectar nos bancos comerciais milhares de milhões de euros não garante que esses fundos cheguem à economia, pois estamos habituados a que a banca prefira a especulação financeira ao investimento nos circuitas económicos.

Por isso é necessário criar instrumentos de controlo público da banca e simultaneamente uma luta contra as políticas de austeridade, que desvincule Portugal do Tratado Orçamental, apressadamente assinado pelo governo e que não é mais do que a continuação do controlo sobre o défice e sobre os orçamentos anuais. As mentiras propaladas pelo governo e seus apoiantes, acerca de uma melhoria da situação no nosso país, são desmentidas pelas constantes informações do aumento da taxa de pobreza, como se pode constatar pelos últimos dados apresentados  pelo INE.

Bem sabemos que o governo baseia as suas teorias nos ditames do FMI. Um seu funcionário, Subir Lall, ainda há dias fazia exigências, tais como, adiamento da reposição dos cortes, continuação do abatimento nas pensões de reforma, facilitação dos despedimentos, diminuição do salário mínimo, ao mesmo tempo que assegurava que o processo de ajustamento ainda vai durar vários anos.
Haja moralidade!

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Quando se fala que este governo pretende tudo privatizar não se trata de meras conjecturas ou de propaganda. Soube-se agora que o Ministério da Segurança Social se prepara para entregar a empresas privadas a gestão dos inscritos nos centros de emprego. Esta medida não é mais do que a privatização do desemprego e os desempregados abrangidos correm o  risco de se transformarem nos novos escravos sem direitos e ao serviço dos interesses privados.

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Tem-se falado na passagem para as autarquias do ensino público e também da saúde, das responsabilidades do Estado e direitos consagrados na Constituição.

Alguns autarcas, em que se inclui Matosinhos, mostraram-se abertos à chamada municipalização do ensino e nesse sentido  têm-se realizado negociações no segredo dos gabinetes sem que nada tenha sido tornado público, como se o ensino fosse uma qualquer mercadoria que nada tivesse a ver com a população.

O problema é que nada parece vir de bom com essa transferência de responsabilidades, nem a maior parte dos municípios tem condições para assegurar uma responsável gestão, sequer dos edifícios escolares.

Mas o mais grave são as informações avulsas que vão surgindo, como a de que serão entregues às câmaras municipais responsabilidades na gestão de 25% de fixação do curriculum e até da contratação de professores!

Não se trata da municipalização do ensino como alguns querem fazer crer, mas da destruição da escola pública para todos e a sua substituição por escolas para ricos, pagas por todos com as melhores condições e uma espécie de escola para pobres, gerida pelas câmaras com alguns professores e até técnicos que se podem ocupar dos alunos. Este não é um exemplo único, já tem sido tentado com o pior dos resultados, em vários países da Europa.

Convém não esquecer que o Estado nem sequer está a cumprir com as suas obrigações no pagamento aos professores colocados nas Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC), que são contratados a empresas privadas e que estão a queixar-se de não receber salários desde Setembro.
Professores, pais e encarregados de educação estão apreensivos com estas medidas pouco claras e temem as negociatas em segredo pois delas depende o futuro dos nossos jovens e consequentemente o futuro do nosso país.

3.02.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

06 February 2015

AS PESSOAS PRIMEIRO

A expressiva vitória da esquerda na Grécia mostra que  em democracia nada é impossível e que não há situações irrevogáveis, quando as pessoas e os seus interesses são colocados em primeiro lugar, face aos interesses financeiros.

Após tantos anos de rotativismo e de alianças entre partidos dominados por clãs familiares, que deixaram os gregos a braços com uma situação social dificílima, provocada por políticas violentíssimas de austeridade, foi com uma posição clara e firme que a esquerda grega, integrada no partido Syriza conseguiu unir os gregos na busca de uma alternativa.

Enfrentando uma crise humanitária grave, com um desemprego altíssimo, uma situação social aflitiva, uma economia destruída pelas medidas impostas pela troika conduziram os gregos à escolha de uma alternativa que rompia com a situação pantanosa em que tem vivido a politica grega.

A esperança rompeu com o cinzentismo e explodiu contra todos os que não hesitaram em ameaçar e chantagear o eleitorado grego com o caos, se ousassem desobedecer aos ditames da troika, de Bruxelas e de Berlim. O povo grego deu uma bela lição de democracia.

O Syriza pode ter de percorrer um caminho de enormes dificuldades, mas é claramente a vitória da democracia e da dignidade contra a submissão e a resignação.

O factor principal que uniu os gregos nestas eleições foi a contestação das políticas de austeridade que levaram os gregos à mais extrema pobreza e o entendimento que a divida, em contínuo crescimento  nas circunstâncias actuais, é impagável e requer uma negociação urgente.

O povo grego não pode ser prejudicado pelos negócios dos governos anteriores que efectuaram compras tão inúteis como os seis submarinos à Alemanha, que continua a mostrar-se intransigente, mas que esquece, que em 1957 esta mesma Grécia participou ao lado de um grupo de países, que perdoaram à Alemanha 62% da sua divida. As ameaças de Ângela Merkel e do seu governo são uma forma de mostrar aos outros países europeus quem realmente manda na Europa.

Uma das propostas do Syriza para tentar ultrapassar a crise dos países do sul da Europa é um entendimento entre esses mesmos países para consertar estratégias no sentido de pressionar as entidades financeiras, o BCE, o FMI e os países do norte da Europa, a fim de compreenderem as questões dos povos do sul e as suas dificuldades.

A declaração de Passos Coelho sobre as eleições gregas foi no mínimo patética e mal-educada. Declarou que a política do partido vencedor era um conto de crianças. Esqueceu-se de se informar melhor e que esse conto de crianças tinha acabado de ser sufragado por mais de 36% dos eleitores gregos.

O governo português em vez de continuar a querer parecer um bom aluno do neoliberalismo, sob o pretexto de cumprir com as responsabilidades assumidas, em nome dos interesses dos cidadãos seus eleitores, deveria participar ao lado dos países sob domínio da troika na tentativa de superar a crise de emprego e da divida.

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Por cá, Leal da Costa, secretário de estado da saúde, assinou um despacho em que fica prevista a possibilidade de o SNS recorrer às urgências instaladas em hospitais privados, em ocasiões de maior afluência de doentes.

Assim começa a entender-se melhor os cortes em pessoal de saúde e nos serviços, que tem provocado um autêntico caos nos últimos tempos nas urgências dos hospitais públicos e que já levaram à morte de vários doentes à espera de atendimento. Trata-se de beneficiar as entidades detentoras de hospitais privados e acelerar a destruição do SNS.

Esta situação tem sido denunciada por médicos e enfermeiros que afirmam que há falta de pessoal, o que tem provocado a exaustão dos trabalhadores da saúde, pela sobrecarga de trabalho a que são sujeitos, enquanto milhares de médicos e enfermeiros são obrigados a escolher a emigração por falta de colocação e de condições de vida.

A estratégia do governo de paulatinamente destruir o Serviço Nacional de Saúde está à vista em todo o seu esplendor.

A frieza manifestada pela declaração de que os 700 mortos verificados no início do período da crise gripal não é preocupante, diz bem da forma displicente e insensível como o ministério encara os cidadãos, como um qualquer número estatístico.

Outra insensibilidade tem a ver com a recomendação de 10 minutos para cada consulta de doentes com gripe. O que, além de interferir no acto médico, é absolutamente imoral.

Já basta de políticas de austeridade que cada vez mais são consideradas inúteis e incapazes de resolver quaisquer problemas. É bem certo que apenas beneficiam aqueles que buscam a maior transferência do rendimento do trabalho para o bolso do capital financeiro.

Só políticas que coloquem as pessoas e os seus interesses em primeiro lugar, racionalizando e rentabilizando recursos, devem merecer o apoio dos trabalhadores em Portugal e na Europa.
Tal como na Grécia, sabemos que o dinheiro não é elástico, mas é tudo uma questão de escolhas e prioridades.


28.01.2015
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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