30 December 2014

A questão TAP

A TAP é uma empresa imprescindível para a ligação entre Portugal e as comunidades de emigrantes em todo o mundo, entre o continente e as regiões dos Açores e da Madeira, sendo utilizada por muitos milhares de turistas que visitam o nosso país, em viagens de lazer ou de negócios. Só com uma empresa de bandeira é possível manter algumas ligações que do ponto de vista meramente comercial não são tão rentáveis. Não estou a defender posições de saudosismo bacoco ou neo-colonial.

Não quer dizer que não se deva procurar rentabilizar os activos existentes e diminuir custos, evitando afectar a qualidade do serviço prestada.

Ora a finalidade das empresas privadas é a de gerar lucros sem a preocupação prioritária de serviço público nem de qualquer tipo de serviço social.

Assim algumas das necessidades apontadas não serão assumidas por uma qualquer empresa privada que compre a TAP. As carreiras menos rentáveis serão imediatamente descartadas e os respectivos utentes forçados a usar ligações indirectas com custos elevados em termos financeiros e de perda de tempo.

Esta realidade não pode ser desmentida pelo governo nem pelos comentadores que têm saído à liça para defender o negócio de privatização da TAP com uma urgência que não é fácil de compreender.
A manipulação que tem sido feita pelos governantes na opinião pública e nomeadamente entre os emigrantes baseia-se em falsas premissas. Se a TAP é tão importante para os cidadãos emigrados e para os cidadãos das regiões autónomas, qual é a urgência na sua venda?

Por isso a greve dos trabalhadores da TAP contra a privatização da empresa não só tem em vista assegurar a manutenção dos seus postos de trabalho como a própria sobrevivência da TAP enquanto empresa pública.

As reais questões de capitalização da empresa deverão ser resolvidas de acordo com as possibilidades, tendo em conta que há erros profundos em mais de 14 anos de gestão de Fernando Pinto, sem qualquer explicação para o ruinoso negócio da manutenção no Brasil ou a remuneração de gestores muito acima da média da empresa. Ao invés de tentar resolver estes problemas pensando no interesse do país e dos portugueses, em diálogo com os directamente interessados, o governo só pensa em alienar a empresa, correspondendo aos desígnios do capital financeiro e aos seus interesses.

Os cidadãos portugueses devem pensar no que está para além do papaguear dos governantes e de alguns comentadores, ainda mais parciais nas suas apreciações, e solidarizar-se com aqueles que procuram impedir a entrega ao desbarato de mais esta empresa aos interesses do grande capital financeiro.

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Entretanto continuam os capítulos dos escândalos mais recentes, a detenção de um ex-primeiro-ministro realizada com características mediáticas inusitadas, a par de ex-governantes misturados com os “vistos Gold”, nas empresas de imobiliária a que estão ligados, mas também o que se vai sabendo no inquérito parlamentar sobre o caso BES. É o caso, agora arquivado, das luvas dos submarinos e novamente as ligações ao BES e ao então ministro da defesa, é um nunca mais acabar de ligações que só não causam mais estranheza porque nos fomos habituando ao desenrolar de escândalos.

Durante este ano foram escondidos os aumentos de impostos sobre o rendimento do trabalho e sobre as pensões de reforma pela distribuição do chamado 13º. mês em duodécimos, ao longo dos 12 ordenados pagos aos trabalhadores e pensionistas. Só agora no fim do ano muitos se aperceberam de que foram mais uma vez espoliados de um salário anual.

Ainda somos obrigados a escutar o senhor primeiro-ministro, com a maior cara de pau, a afirmar que desta vez quem se lixou não foi o mexilhão. Desta vez tem toda a razão, quem se lixou foi o povo português que não se vê livre dos malefícios causados por políticas completamente alheias aos seus interesses.

Mantém-se a disputa do governo com cerca de 700 trabalhadores da Segurança Social que sob a desculpa de serem enviados para a requalificação, estão em risco de desemprego, sem que nos expliquem cabalmente a razão por que continuam a fazer falta nos seus locais de trabalho. O que nos dizem é de tal modo atabalhoado que nos leva mesmo a pensar que ali há gato. Esse gato chama-se privatização de serviços e está no interesse do governo em passar para as IPSS as funções da Segurança Social.

Resta-me desejar a todos os portugueses melhor sorte para 2015. Resta-nos sonhar com um novo ano, onde façamos ouvir a nossa voz para conseguir alterar algumas das violências que fizeram cair sobre nós. Nós os que menos contribuímos para a situação em que vivemos.

Que a fraternidade do Natal se faça ouvir ao longo do próximo ano. Boas Festas!

23.12.2014
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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