24 November 2014

É de mais !

Sucedem-se as maiores barracadas quase na ponta final do exercício de poder deste governo. Os escândalos ocorrem quase diariamente e o seu avolumar não contribui para melhorar a desconfiança geral que os cidadãos têm da política e dos seus eleitos, minando assim as bases da democracia.

Nesta semana demitiu-se o ministro Miguel Macedo no seguimento de mais um escândalo que atingiu elementos próximos do seu ministério, quadros de topo em funções do Estado. Teve a ver com a atribuição dos famigerados “vistos Gold”, que mais não são do que a venda da possibilidade de permanecerem no nosso país pessoas ricas que possam investir, até agora tal investimento não passou além da compra de habitações de luxo. Esta medida, recusada já noutros países, apesar de parecer muito interessante, mais não é do que uma forma de captar capital tornando-se uma abertura a lavagem de dinheiro, algum de origem muito duvidosa. Esta política constitui uma discriminação absolutamente intolerável na atribuição de vistos, elegendo ricos em detrimento dos pobres. A concessão de “vistos Gold” além de pouco ética abre as portas a todo o tipo de negociatas e vigarices.
A medida policial levou à detenção de alguns altos dirigentes de estruturas governamentais como os responsáveis pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e de um dos dirigentes do Serviço de Informação e Segurança, SIS, para além da secretária geral do ministério da justiça e do director do Instituto de Registos e Notariado, entre outros.

Um dos grandes propagandistas deste negócio dos vistos dourados tem sido o vice-primeiro ministro, Paulo Portas, mas como é costume, ausente no estrangeiro, passa sobre tudo isto como gato sobre brasas, nada lhe toca.

A promiscuidade entre a política e escritórios de advogados da moda leva a que o ministro agora demissionário se veja ligado a outros advogados cujos nomes são igualmente citados, como Luís Marques Mendes, conhecido comentador televisivo.

As oportunas limpezas de computadores e outras destruições de documentação, acompanhadas pelas habituais fugas de informação para a comunicação social não deverão servir de alibi para uma superficial averiguação dos factos, que leve à condenação e penalização dos culpados de corrupção, neste mais do que controverso e escuro negócio.

O que se sabe é que dos muitos milhões que entraram no país, apenas uma ínfima quantia se destinou a investimento, que não chegou a criar 10 postos de trabalho, e que todo o resto foi aplicado na compra de habitações de grande luxo, provocando uma enorme especulação imobiliária com a consequente subida dos preços das casas a níveis inalcançáveis para as pessoas comuns.

No caso BES, o buraco é tal que a procissão ainda vai no adro, com revelações cada vez mais contundentes para a família Espirito Santos, mas também para outros responsáveis. A este gigantesco escândalo junta-se o dos chamados “vistos Gold”. É de mais! Os bancos e a economia são coisas demasiado importantes, pois mexem com a nossa vida e a do país, para ficarem nas mãos de banqueiros e especuladores.

O inquérito parlamentar que começou na segunda-feira não se destina a fazer acusações ou a propor penas, mas a inquirir da responsabilidade política dos intervenientes. Temo que as confusões que se pretendem instalar entre o papel da comissão de inquérito parlamentar e um tribunal sejam feitas de propósito para desvalorizar a função desta instituição política.

###

Por sua vez continua a narrativa de que todos os políticos são iguais e que apenas tratam da sua vidinha e dos seus interesses próprios. A generalização deste tipo de discurso só pode interessar a quem quer manter estas situações sem qualquer alteração.

Como em tudo as generalizações são levianas e partem de juízos falsos, de tanto repetidas passam a ser tidas como verdadeiras. Há na política portuguesa pessoas e grupos que desenvolvem a sua actividade em função do bem público, por vezes com contrariedades pessoais e sujeitando-se aos ataques permanentes e maldosos dos meios ligados a interesses que nada têm a ver com a defesa do povo.

Tem isto a ver com a realização no próximo fim-de-semana da IX Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, partido que, por razões que a razão desconhece, tem vindo a ser acossado na comunicação social, ao ponto de o darem como prestes a desaparecer. Ora a realidade é bastante diferente. A próxima Convenção mobilizou muitos milhares de aderentes, por todo e país e regiões autónomas que elaboraram, debateram e defenderam 5 moções políticas, de análise do momento em que vivemos com propostas alternativas de futuro, elegeram 618 delegados a quem cabe a aprovação da orientação política para o partido nos próximos dois anos, bem como escolher a nova direcção do Bloco de Esquerda. A dinâmica demonstrada não condiz com um partido que dizem em declínio sem propostas nem criatividade. Como em qualquer grupo humano, há dinâmicas próprias e há divergências na estratégia a seguir, normais de uma organização/movimento que sempre considerou a diversidade de opiniões como a sua maior riqueza.

O Bloco de Esquerda vai continuar irreverente, sem medo e sempre disposto a assumir a defesa de causas, principalmente dos que não têm voz, mesmo as menos compreendidas pela sua radicalidade. Os nossos adversários podem contar com a nossa firmeza de convicções, mas igualmente com uma forma leal e frontal de encarar a luta.

            19.11.2014

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

No comments:

Visitas

Contador de visitas