23 September 2014

Reentrada difícil

O governo afirma-se preocupado com a crise demográfica e com a consequente quebra da natalidade do país e diz estar a preparar um relatório sobre este assunto, propondo-se criar pequenos incentivos do ponto de vista fiscal ou apoios por via assistencial privada.

 A realidade é que, até Agosto, houve menos 957 nascimentos em comparação com o mesmo período do ano anterior e esta situação tem sido recorrente nos últimos anos.

Convém dizer que não é muito honesto falar em “remoção dos obstáculos à natalidade”, como faz o governo, tendo passado os últimos três anos a destruir tantos postos de trabalho, criando tantos constrangimentos ao desenvolvimento, obrigando à emigração de centenas de milhares de jovens da geração melhor qualificada de sempre.

Por outro lado, é também responsável pelas medidas que provocam a desertificação do interior do país, como o fecho de escolas, de centros de saúde, de tribunais, de repartições de finanças, de postos dos correios, de forma cega, sem sensibilidade por estas problemáticas, o que não contribui seguramente para fixar populações, nomeadamente dos mais jovens e a constituição de famílias.

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Os últimos dias não foram propriamente brilhantes para aquilatar das capacidades organizativas do governo. Entre outros casos, há pelo menos três ministérios a braços com graves problemas.

O ministério de Nuno Crato, com trapalhadas várias, apesar de ter prometido uma abertura do ano escolar a tempo e sem problemas, enfrenta atropelos nos concursos para colocação de professores, a não colocação dos prometidos psicólogos e a revolta das comunidades locais pelo encerramento de escolas.

O ministério da justiça, que tão apressada e atabalhoadamente se propôs implementar um novo mapa judiciário, tendo sido avisado que a plataforma tecnológica, chamada CITIUS, não aguentava as transferências de processos, dadas as profundas alterações a realizar, além de não escutar os avisos, ainda tem andado a não dizer a verdade aos operadores judiciais, nem aos portugueses, pois sabe que o CITIUS ainda vai demorar algum tempo a acertar. Entretanto, há milhares de processos inacessíveis, tramitações judiciais paradas ou atrasadas. Enfim, uma situação que seria evitada não fosse a pressa da senhora ministra.

As peripécias em torno do BES continuam. A inusitada saída dos administradores do “banco bom”, Victor Bento, Osório e Rato, dois meses apenas após a sua nomeação, embora tendo alegado que não saem em litígio com ninguém, mas por modificação da situação, tal motivo não é susceptível de convencer ninguém.

Entretanto, o governador de Banco de Portugal foi lesto na designação de um novo administrador para o “novo banco”, Eduardo Stock da Cunha, que esteve no Santander-Totta, nos Estados Unidos e no Lloyds Bank. Vai caber à sua equipa despachar o “novo banco”, a ver vamos o que sairá dali.

A referida “modificação da situação” tem a ver com a urgência manifestada pelo governo em vender, antes do fim do ano, o banco onde foram injectados milhares de milhões de euros. Esta urgência tem todo o ar de arranjinho e de se conhecer a existência de interessados na sua compra. Tal urgência de privatizações insere-se na estratégia do governo em conseguir fundos que lhe permitam, a poucos meses de umas eleições legislativas, conceder algumas ilusórias benesses que o levem a manter-se no poder.

A mesma estratégia foi usada na alienação dos últimos 31,5% do capital dos CTT, que ainda eram detidos pelo Estado, no valor de 343 milhões de euros. Veremos quais as consequências de mais esta entrega ao sector privado de um serviço público. As experiencias de outros países europeus que alienaram os serviços de correio não foram brilhantes como foi o caso da Grã-Bretanha ou da Holanda.

Por sua vez, o ministro da economia anunciou os resultados, em alta da economia portuguesa. Esqueceu-se foi de dizer que a subida do investimento é resultou dos “vistos Gold”, que permitiram a entrada de 800 milhões, nomeadamente de cidadãos chineses e outros, que pretendem livre circulação na Europa, mais do que adquirir moradias em Portugal. É uma forma de lavagem de dinheiro e de fuga aos impostos nos seus países de origem. Mas o desatino deste governo às ordens do grande capital financeiro é tal, que a ministra já fala em antecipar o pagamento ao FMI de parte da dívida. É caso para questionar, mais uma vez, das prioridades governamentais.

Mas ao contrário destes anúncios de que tudo vai bem, o relatório da OCDE afirma que em Portugal 16,6% dos jovens entre os 15 e os 29 anos, nem estudam nem trabalham, o que é uma situação presente e futura, muito preocupante.

Essa preocupação não existe para os “boys” ligados ao governo e aos partidos que o integram, como é o caso de Helder Rosalino, que foi secretário de estado de Victor Gaspar e que agora foi recrutado como gestor para o Banco de Portugal.


Não há duvida com gente como esta Portugal não sairá da apagada e vil tristeza em que o meteram.

17.09.2014
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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