04 August 2014

A queda de um mito

Vamos assistindo, sem surpresas aos episódios da saga do BES, no ultimo, com a divulgação de que três anos de verificações “minuciosas” e inúmeros “testes de stress” do Banco Central Europeu e também da troika não foram suficientes para permitir antecipar a situação em que o grupo se encontrava. Tal incapacidade de análise e avaliação dá muito que pensar.

O mais grave são as contaminações a que os buracos do grupo da família Espírito Santo expõem a economia portuguesa.
A Segurança Social perdeu 27 milhões de euros com os investimentos que o Instituto de Gestão Financeira realizou em fundos do BES. Depois venham falar-nos em sustentabilidade da Segurança Social, quando cortarem mais apoios sociais.
O Montepio Geral ficou exposto em mais de 200 milhões de euros pela crise do BES.
A Rioforte, empresa ligada aos investimentos do grupo BES, já pediu medidas de protecção por dificuldades de liquidez, contra os credores.
Na Portugal Telecom (PT), onde há uma importante intervenção do BES, verificaram-se problemas com a empresa OI, associada no Brasil, com prejuízos para a PT.
Soube-se também que com a saída de Ricardo Salgado o BES contratou o Deutsche Bank como consultor financeiro para desenhar uma nova estratégia para o banco.
Apesar de todas as manobrase de um certo ar de jogo de casino o governo PSD/CDS e o governador do Banco de Portugal continuam a assegurar a solidez do BES.
O todo-poderoso banqueiro Ricardo Salgado, que atravessou com a sua influência vários governos e que habitualmente dava aos portugueses os seus conselhos pela televisão, foi finalmente indiciado, de entre outros, do crime de lavagem de dinheiro e de fuga aos impostos, ligados aos processos Monte Branco. Por mais declarações de completa inocência que faça, a verdade é que só saiu da cadeia porque tem três milhões de euros para pagar a respectiva fiança.
Há muitas décadas que existe a maior promiscuidade entre o BES e os diferentes governos da república, numa autêntica dança das cadeiras entre administradores e governantes, ex-governantes e deputados dos partidos do “arco do poder”.
Continua a não ser líquido que não venha a ser o erário público a pagar os desvarios da administração da família Espirito Santo.

Enquanto a saga BES ocupa a atenção nacional, a dívida pública portuguesa continua a crescer de forma assustadora, ultrapassando os 4.190 milhões de euros e alcançando os 133% do Produto Interno Bruto (PIB), tudo isto a despeito da austeridade brutal a que estamos sujeitos, alegadamente para pagar a dívida, que ao invés de diminuir continua despudoradamente a crescer.

As promessas do governo sobre o não voltar a aumentar impostos estão novamente ameaçadas. Sob o pretexto de que iria baixar o IRS às famílias com filhos, prepara-se para aumentar o mesmo imposto, aumento esse que irá recair sobre 70% dos agregados familiares que, ou não têm filhos ou já os não têm a seu encargo. Esta é a novidade, o governo faz promessas para serem pagas pelos portugueses.
Sem qualquer preocupação com teorias conspirativas, é estranho que, com a divida a crescer e com os problemas económicos arrastados pelo caso BES, as agências de notação financeira, como a Moody’s, que tanto ajudaram a enterrar a economia do país, estejam agora a aliviar a pressão sobre a situação portuguesa. Terá alguma coisa a ver com o horizonte eleitoral de 2015?

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Concretizou-se a vergonhosa adesão, sem votação, mas por consenso, da Guiné Equatorial à Comunidade de países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP). Este país é considerado um dos mais corruptos do mundo, com pouco mais de meio milhão de habitantes tem o PIB mais alto de toda a África sub-sariana, onde 85% da sua população vive na miséria. É dirigido há mais de trinta e cinco anos por uma ditadura militar comandada por Teodoro Obiang, ditador que não tem o mínimo respeito pelos direitos humanos. Na Guiné Equatorial há um muito escasso número de pessoas a falar português. Estas duas condições para aderir à CPLP não foram cumpridas, a pena de morte continua em vigor e sabe-se que há condenados em perigo. A Amnistia Internacional tem denunciado os atropelos deste regime.
Pelos vistos o petróleo tem a capacidade de lavar tudo, mesmo algumas consciências, parece haver membros da CPLP que não querem ficar sozinhos como incumpridores dos direitos humanos e das regras da democracia.

A Europa e o Mundo têm uma má consciência histórica em relação á forma cúmplice como enfrentaram o anti-semitismo, na 2ª guerra mundial e ao longo do tempo. No entanto não podemos continuar a aceitar que as vitimas se transformem agora em algozes do povo palestiniano.
Faz todo o sentido denunciar e repudiar a situação que se vive na faixa de Gaza sob o ataque cobarde e criminoso de um dos mais poderosos exércitos do mundo. Dois milhões de palestinianos vivem amontoados numa estreita zona de terreno, são massacrados para justificar o poder de um país que parece continuar impune a todas as regras internacionais. A situação dos palestinianos é maior vergonha de todos os democratas que pelo seu silêncio têm contemporizado com as atitudes terroristas do estado de Israel.


28.07.2014
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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