25 July 2014

O essencial e o acessório

Nos últimos dias o Bloco de Esquerda tem estado em destaque nas páginas dos jornais e nos noticiários das televisões a propósito da saída de alguns aderentes do partido.

É interessante verificar que muitos dos órgãos de comunicação social que agora tanto comentaram este facto, são precisamente os mesmos que sistematicamente omitem os comunicados e as iniciativas do Bloco e até esquecem a cobertura jornalística das campanhas eleitorais.

Embora lamentando a saída de camaradas com quem trabalhei durante vários anos, é meu entendimento que um partido político não é uma entidade de carácter religioso a que se adere para a vida e onde quem sai passa a ser considerado como traidor ou apóstata. Para mim, um partido é um organismo dinâmico que congrega pessoas com afinidades políticas. Quando estas deixam de existir é natural que quem já não se sente ligado ao projecto o abandone, não pondo de parte a possibilidade de nos virmos a encontrar noutras lutas. De qualquer modo há aderentes que saem e outros que entram de novo.

Em democracia dramatizar estas situações, não é nada saudável e muito menos racional.
Por isso penso que o empolamento jornalístico motivado pela saída de alguns aderentes do Bloco, nos últimos dias, por mais qualificados que eles sejam, ou se deve a alguma falta de notícias interessantes ou se trata de vinganças mesquinhas por parte dos grupos económicos que detêm e controlam esses jornais e que “utilizam” os analistas do costume para lançar a confusão entre os cidadãos.

É preciso ter em conta, que desde o seu aparecimento, ao Bloco de Esquerda foi “decretada” a sua morte prematura, no entanto continuamos em actividade e, pelos vistos, incomodando os grupos responsáveis pela situação a que chegou o nosso país. Daí a sanha persecutória sem tamanho contra o Bloco a que se assiste há uns tempos a esta parte.

Reconheço a necessidade de muita reflexão e  debate dentro do partido e de aprofundamento da democracia, mas não só decorrente da situação criada, antes, como necessidade permanente de um grupo de pessoas com acção politica que não tem verdades absolutas nem reconhece mentores ideológicos.

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Era já do conhecimento público que Portugal é um país onde a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres é muito profunda, mas agora é o próprio Banco Central Europeu (BCE) que vem dizer que 1/4 da riqueza do país está na posse de apenas 1% da população.
É claro que este tipo de dados não é publicado pelo Instituto Nacional de Estatística desta forma tão crua e directa. Com uma tão grande discrepância entre os rendimentos dos cidadãos o que admira é que ainda haja quem apoie as políticas do governo.

Como se as más notícias não bastassem, Portugal é neste momento o país da Europa com a taxa de natalidade mais baixa, ao ponto de o número de nascimentos ser inferior ao dos óbitos. 

Com a pompa e circunstância do costume foram apresentadas como propostas, umas quantas medidas governamentais, alegadamente destinadas a promover o aumento da natalidade. No seu conjunto pecam por falta de consistência, não passam de promessas vãs, como alias tem sido hábito do governo Passos Coelho/Paulo Portas. A propósito das propostas para o IRS, o governo propõe-se diminuir as deduções a uns contribuintes como contrapartida á redução de taxas a outros. Mais uma trapalhada.

Obrigados a emigrar, sem empregos ou com empregos precários e com salários de miséria, sem apoios sociais decentes como é possível esperar que os jovens casais pensem em ter filhos. É conhecida a situação de empresas que obrigam jovens mulheres, candidatas a empregos a comprometerem-se a não engravidar durante o período de vigência do contrato de trabalho. Para combater a baixa natalidade é necessária uma sensibilidade social que este governo já provou que não tem.

 Na mesma lógica de restrições está a informação de que o ensino em Portugal perdeu mais de 100 mil alunos nos anos lectivos de 2011 e 2014. É um recuo de décadas que custará muito caro ao futuro do nosso país. Com esta grave situação, aliada ao facto de milhares de jovens licenciados terem sido obrigados a emigrar em busca de trabalho, temos um avolumar de  problemas entre mãos a curto prazo.

As ameaças de destruição de tudo o que é serviço público, viraram-se para a concretização de uma pretensão, já antes anunciada, a concessão/privatização dos STCP e do Metro do Porto. Como o estado pretende poupar nas indemnizações compensatórias, devidas pelo serviço público prestado, pode concluir-se que se seguem despedimentos, uma menor qualidade nos serviços, cortes nas carreiras e o consequente prejuízo para os utentes. O ciclo repete-se recorrentemente.

Os trabalhadores dos STCP e do Metro repudiaram a concessão/privatização, não só pelos prejuízos que acarreta para as suas carreiras, mas pelos enormes riscos para a continuação do serviço aos utentes como o conhecemos. Cabe-nos solidarizarmo-nos com eles, contra mais esta medida neo-liberal de entrega à iniciativa privada de serviços públicos.
A obsessão pelo lucro leva a que tudo, mesmo tudo seja mercantilizável. Tal filosofia política  está a mudar de forma assustadora a sociedade. Para onde vamos?

 23.07.2014
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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