23 May 2014

Há alternativas democráticas


Tem-se ouvido por aí comentadores que afirmam, que uma parte substancial das intervenções na campanha eleitoral para as Europeias 2014, se debruçam preferencialmente sobre questões da política nacional, ao invés de abordarem planos mais globais da política europeia.

É caso para nos interrogarmos se não foram as políticas europeias, que ao interferirem nos assuntos nacionais, com a sua insensibilidade social, avolumaram a crise na sua complexidade ao não serem capazes de tomar medidas oportunas para resolver os problemas dos países, nomeadamente do sul da Europa. Por outro lado, ao aplicarem uma receita de modelo único, indiscriminadamente, contribuíram para a morte do doente em vez da sua cura.

Parece-me necessário analisar atentamente o que correu mal para propor medidas alternativas eficazes e exequíveis para resolver os problemas sociais complexos que se instalaram nos países a que os eurocratas de forma depreciativa e arrogante chamaram de PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha).

Nos primeiros tempos da União Europeia foram-nos prometidas políticas solidárias que permitiriam uma harmonização entre os estados e uma aproximação entre as condições de vida de todos os europeus, equilibrando os rendimentos dos trabalhadores.

Os chamados tratados europeus, como Maastricht e Lisboa, sempre elaborados nas costas dos europeus, nem sempre submetidos à sua aprovação ou então sujeitos a manobras de chantagem como se verificou com os referendos em França e na Holanda, acabaram por substituir todas essas boas intenções por princípios neoliberais, que apenas visam os interesses do grande capital financeiro, dos grandes bancos e dos países ricos do norte e centro da Europa.

Sem alimentar grandes sonhos e esperanças sobre o que a União Europeia sempre representou, creio poder afirmar que a partir de determinada altura, a UE apenas se destinou a restringir as tomadas de posição democráticas e a substituir o voto dos europeus por decisões burocráticas e autoritárias.

É também por isso, que o voto dos europeus nas eleições do próximo dia 25 de Maio se destina a defender o direito ao voto e à democracia, o direito a escolher alternativas para além daquilo que nos pretendem impor como via única. No fundo, o direito a termos uma palavra a dizer sobre o nosso futuro.

Por cá e para quem ainda tinha algumas dúvidas, o governo e o presidente da Republica deixaram cair a máscara dos últimos tempos acerca de aumentos de impostos, que ambos proclamaram que não voltariam a acontecer.

Foi-nos até contada uma fábula sobre a situação económica e financeira do país que estava a melhorar, sendo as tendências para um crescimento acima da média europeia.

Entretanto, as notícias vindas a lume na última semana contrariam claramente esta falácia. A economia arrefeceu neste primeiro trimestre e as famosas exportações, constando principalmente de refinados de petróleo, começaram a baixar. As desculpas avançadas para este facto indesmentível são patéticas. Uma delas tem a ver com a paragem por uns dias da Auto-Europa, o maior exportador de automóveis do país, essa informação foi prontamente desmentida pela própria empresa.

No famoso “último dia da troika”, Carlos Moedas apresentou o documento “Caminho para o crescimento” em português e em Inglês, isto é como dizem por cá, para inglês ver. Os seus amigos da troika logo vieram de forma implacável ameaçar com um novo plano de ajustamento, caso não se cumpra a austeridade.

Todas as manobras de propaganda empreendidas pelo governo, com o apoio das entidades europeias interessadas em manter em Portugal o governo como o fiel aluno que tem sido, se destinam a enganar mais uma vez os portugueses e a tentar alterar a previsão de derrota eleitoral nas eleições para o Parlamento Europeu.

Longe vão os tempos em que ao primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, fugindo-lhe a boca para a verdade afirmava “ que se lixem as eleições”. Mas era mesmo isso que queria dizer, pois ele está em plena sintonia com os seus mentores eurocratas sobre a substituição da democracia e dos processos eleitorais por decisões decretadas e sem a possibilidade de apresentação de alternativas democráticas.

Basta ler as notícias que surgem de Bruxelas para aquilatar do que pensam os nossos amigos e credores. Se não forem cumpridas as prescrições da troika esta voltará à carga e as consequências serão ainda mais gravosas. Se isto não cheira a chantagem, a que cheira?

É por isso que se fala na necessidade de desobedecer à troika e encarar a necessidade de falar aos burocratas de Bruxelas sem medos e sem temores. DE PÉ! ao contrário da posição submissa que o governo sempre teve.

Em democracia há sempre alternativas. Muitas têm sido apontadas com vista a superar a crise e a promover uma melhoria das condições de vida dos cidadãos.

É necessário substituir as políticas de austeridade por políticas solidárias. São necessários planos sustentáveis para o crescimento económico que confluam num plano europeu de pleno emprego. São necessárias medidas europeias que controlem as actividades financeiras de modo a impedir a política de casino e a especulação.

Sem tais medidas não é só o Euro e a União Europeia que estão em perigo é a própria democracia europeia que fica à mercê destes eurocratas não eleitos, sem regras nem outras obediências para além dos seus próprios interesses.

Um voto, responsável e criteriosamente pensado, pode ajudar a construir uma barreira para impedir a continuação do espezinhar da vontade dos povos.

O resultado conseguido pelo partido de esquerda Syriza, parceiro do Bloco de Esquerda no Partido da Esquerda Europeia, na primeira volta das eleições locais e autárquicas na Grécia, no ultimo domingo, com uma votação superior à da coligação no governo da direita com o Pasok, , é a prova de que em democracia todas as alternativas são possíveis.

Todos ao voto, portanto.
21.05.2014 

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda  

No comments:

Visitas

Contador de visitas