25 March 2014

Promiscuidade

Já muito se tem dito e escrito sobre a existência de promiscuidades várias entre políticos e finanças, sendo tais relações  cada vez mais às claras.

No nosso país são vários os ex-governantes instalados nos conselhos de administração de bancos, grandes empresas e até nas instituições financeiras internacionais como o FMI, a Goldman Sachs e outras após o abandono do poder. Por sua vez também há entre os actuais governantes quem tenha vindo directamente dessa mesma área. Os exemplos são muitos e comuns aos partidos do bloco central, cito  o caso de   Mira Amaral que ficou à frente do BIC, que resultou da venda ao desbarato do BPN e de Dias Loureiro ligado ao BPN,  que se deslocou  tempo a para Cabo Verde  ou Oliveira e Costa, o único acusado deste caso.


Do actual governo fazem parte diversos elementos que vieram de organizações financeiras internacionais, o mais conhecido é Carlos Moedas,   e para lá caminharam ex-governantes como Victor Gaspar ou José Luís Arnault, após cumprirem a tarefa de que foram incumbidos em Portugal.

Se isto não é promiscuidade entre política e finanças, de que se trata então?

Compreendem-se assim melhor as preocupações manifestadas por estes senhores em relação ao pagamento da divida e aos credores e a pouca ou nenhuma importância que atribuíam aos sacrifícios dos portugueses. Tratava-se de assegurar o seu próprio futuro, para além da prossecução dos fins da ideologia neo-liberal que professam.
Enquanto se fazem ouvir as ameaças de que haverá mais austeridade para depois das eleições de Maio, foi informado na comunicação social   que as maiores fortunas do país aumentaram cerca de 17%. Trabalham e sofrem muitos para que um escasso punhado   continue a enriquecer de forma obscena.

Um desses afortunados milionários, Belmiro de Azevedo, teve o desplante de afirmar que os salários só poderão subir quando os trabalhadores portugueses tiverem níveis de produtividade igual aos dos alemães e  holandeses. Como é que com tão deficientes níveis de produtividade, os trabalhadores de Belmiro de Azevedo lhe proporcionaram um crescimento de 138% da sua fortuna? Não seria mais honesto afirmar que apesar dos trabalhadores portugueses trabalharem muito e muitas horas, o que falha é o sistema produtivo  por incapacidade dos gestores?
Também se soube esta semana corroborando aquilo que tenho vindo a escrever sobre a responsabilidade da morosidade da justiça na sua falta de credibilidade,   que os processos contra o ex-banqueiro do BCP, Jardim Gonçalves, que deveria incorrer em multas no valor de um milhão de euros, não só prescreveram como aquele senhor já pode regressar à banca. É a justiça portuguesa em todo o  seu esplendor.

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Por toda a Europa se verifica um envelhecimento da população, provocado pelo aumento significativo da esperança média de vida, e também pela diminuição da natalidade. O número de partos por mulher deixou de ser suficiente para garantir a renovação de gerações. No nosso país tal situação já se sente há muito, embora se tenha agravado com a crise, tornando-se altamente preocupante. Há mais óbitos do que nascimentos. Não havendo substituição geracional a sociedade torna-se não sustentável. Vivemos uma profunda crise demográfica, provocada pelas altas taxas de desemprego, pela precariedade e pela degradação das relações laborais.

Sem políticas de criação de empregos e de fixação dos jovens não demorará muito tempo para que o país se torne insustentável.O governo tem vindo a falar em apoios à natalidade, mas segundo o Instituto da Segurança Social (ISS), perderam o abono de família durante o mês de Janeiro de 2014, nada menos do que 50.000 crianças. Ao mesmo tempo as crianças com necessidades educativas especiais vão perdendo os apoios que tinham. É este o apoio à natalidade que o governo está  a proporcionar aos portugueses.
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As condições climáticas gravosas deste Inverno, a par da destruição provocada ao longo da costa portuguesa mostraram uma realidade bem grave em Portugal e sobretudo para a vida dos pescadores. Com a impossibilidade de saírem para o mar durante várias semanas o seu rendimento já de si bem diminuto, foi nulo. Há um fundo de apoio às pescas, mas a sua activação é demasiado burocrática para ser minimamente eficiente.

Outro problema que os pescadores têm que enfrentar tem a ver com as péssimas condições dos portos de pesca, com barras assoreadas ou até inexistentes como no caso de Angeiras.O reordenamento  da orla costeira, pensado e estudado de forma cientifico-técnica, tarda a ser feito por mais promessas que façam e por mais dinheiro que se gaste em remendos.

As pescas, bem como a agricultura e uma parte da indústria foram sendo destruídas no consulado de Cavaco Silva, então primeiro-ministro, quando optou por subsidiar para não produzir, em nome da modernização. Hoje, volta-se a ter que olhar com mais atenção para a produção e é absolutamente necessário que se criem melhores condições para quem se quiser dedicar às pescas e à agricultura, como meio de fugir ao desemprego e à emigração e ao mesmo tempo resgatar a economia do vórtice em que a meteram os “técnicos” neoliberais, a mando da alta finança.

12.03.2014
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda 

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