17 February 2014

Opacidade política e interesses obscuros

São constantes os anúncios governamentais, através do aparelho de propaganda, dando nota da tendência de queda das taxas de desemprego.

Continuam, no entanto, a ser deliberadamente esquecidas as reais razões dessa queda que passam pelos cursos de formação sem saída de emprego, à emigração em massa, nomeadamente de jovens qualificados academicamente, à desistência de procura de trabalho de tantos desempregados de longa duração, que deixaram de ter acesso ao subsídio de desemprego e passaram a ser considerados inactivos, até à passagem à reforma de outros tantos trabalhadores. Em 2013 mais de oitenta mil pessoas perderam os apoios sociais e sabe-se que há oitenta e um mil licenciados no desemprego, há mais de um ano.

Portanto, contrariamente aquilo que é afirmado, a queda das taxas de desemprego não correspondem a criação de empregos e os que são criados, para além da ilusão do auto-emprego, passam por horários de 2 a 10 horas semanais. Sabe-se também, que são destruídos empregos fixos para criar empregos precários, a tempo parcial e pagos a preço muito inferior dos anteriores.

O governo, com a conivência do Presidente da Republica e das instâncias europeia, procura assim iludir a população com finalidades eleitoralistas.

A três meses da saída da troika, o governo ainda não disse qual a modalidade post-troika que vai ser adoptada, se a saída à Irlandesa, sem mais jugo da troika ou com um programa cautelar, que equivale à continuação do controlo por parte dos credores. O que se passa é que o presidente do euro grupo, Jeroen Dijsselbloem, ainda não decidiu, nem deu as suas ordens.

Com o agravamento da epidemia gripal e devido a tratamentos urgentes em diversas patologias verificam-se autênticos escândalos no campo dos cuidados de saúde, motivados pelos cortes absurdos que têm sido efectuados nos orçamentos dos hospitais e pela falta de pessoal médico e de enfermagem e a falta de medicamentos específicos. O governo continua assim a preferir enterrar fundos no buraco sem fundo do BPN.

Não é isso que nos dizem, mas é essa a verdadeira finalidade dos actos do governo PSD/CDS, comandado pelos interesses neoliberais, transferir o mais possível do rendimento do trabalho para os gananciosos bolsos do capital financeiro, que procura a todo o custo recuperar rapidamente os lucros que perdeu com as aventuras da economia de casino que promoveu.

Paulo Portas já arranjou mais um pretexto para financiar o ensino privado mesmo em locais onde o Estado já faculta aos cidadãos ofertas no ensino público. É o pretexto de que há escolas que não asseguram um ensino de sucesso, seja lá isso o que for. Esta é a desculpa mais do que esfarrapada para entregar dinheiro público a grupos económicos que se dedicam à criação de escolas privadas.


Este mesmo senhor foi de visita ao estado espanhol como dirigente da direita ibérica apoiar o Partido Popular, quiçá para os aconselhar numa matéria em que é mestre, a melhor forma como iludir e esconder escândalos financeiros, em que o governo do estado espanhol está enterrado. Com afirmações como os“socialistas gastam e a direita depois tem de compor as coisas”, Paulo Portas esqueceu o seu contributo nos gastos supérfluos, por exemplo, no ruinoso negócio da compra dos submarinos, cujos contornos nunca foram bem explicados.

As políticas que os neoliberais têm imposto estão a levar a uma subida da extrema-direita europeia e dos partidos nacionalistas, que é muito preocupante.

Depois dos acontecimentos na Hungria, onde o governo impõe leis dificilmente compagináveis com a democracia, assistimos à vitória, na Suiça, de um referendo inspirado e apadrinhado pela direita xenófoba que se propõe impedir a entrada de estrangeiros no país. Também aqui o pensamento único se faz sentir e vemos imigrantes portugueses a apoiarem este referendo, por ignorância ou por egoísmo. Esquecem que estas medidas acabarão por chegar até eles. Convém recordar que, essencialmente, foi o trabalho dos imigrantes que enriqueceu a Suiça

Por cá o diagnóstico das causas profundas para as assimetrias nacionais entre o interior do país e o litoral está feito. Falta implementar de forma pensada e eficaz a regionalização, há tanto tempo prevista na Constituição da Republica. Ao invés disto vão sendo criados paliativos que não a substituem, mas que vão empatando a sua implementação. Agora é a criação de um Concelho Consultivo Territorial (CCT), alegadamente para fomentar a coesão. Não se vislumbra a utilidade de tal estrutura. Esta nova invenção foi apresentada por Marques Mendes, não se percebendo, mesmo, a que título.

Nos últimos dias eclodiu o caso dos 85 quadros de Joan Miró, que fazem parte do espólio do BPN, que não entraram no ruinoso negócio da venda daquele banco ao B IC, mas foram desde logo destinados a serem vendidos em leilão pela Galeria Christies de Londres. Trata-se de mais um grande negócio engendrado pela Parvalorem, empresa totalmente de propriedade do estado, mas de gestão privada. Os meandros que rodeiam este caso são, no mínimo, estranhos.

A colecção Miró chegou ao BPN vinda de depósitos em “offshore”, provenientes de eventuais negócios pouco claros. O governo diz que a colecção não é propriedade do estado, mas da Parvalorem, no entanto viaja para Londres por mala diplomática para evitar o controlo quer em Portugal, quer na Grã-Bretanha. Ao tomar conhecimento do imbróglio jurídico a galeria retirou a colecção do leilão.

Um património artístico desta qualidade e valor não pode ser alienado de qualquer maneira e por atacado. Deve ser valorizado primeiro e mesmo do ponto de vista da venda, o aparecimento no mercado de arte de tantas obras ao mesmo tempo irá provocar uma baixa no valor das mesmas. Também não são aceitáveis, as formas de chantagem já ensaiadas sobre o pagamento de milhões de indemnização à galeria de Londres.

Além do mais o governo, como é costume, procura atirar para o governo anterior as culpas desta complicação, mentindo, conforme confirmam os documentos entretanto divulgados.

Com este governo há sempre mais alguma coisa para pagarmos. Já Basta!


12.02.2014
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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