12 February 2014

Convergências


Se há organização financeira que, desde 1929, tenha incentivado, navegado sobre as crises e se tenha aproveitado das mesmas, ao ponto do seu dirigente máximo, Lloyd Blankfein, ter declarado ser um banqueiro a fazer o “papel de deus” na economia, esse é o banco americano, Goldman Sachs.

Os malefícios que esta poderosa organização financeira tem acarretado às diversas economias onde interferiu são enormes. Em Portugal muito recentemente entrou no capital dos CTT, a preço de saldo. Na Dinamarca o governo vendeu-lhe 19% da empresa de energia estatal a DONG, o que provocou o pedido de demissão de 6 ministros da ala esquerda do Partido Socialista Popular, que não estão de acordo com tal negócio. O que quer dizer que nem todos se submetem ordeiramente ao poder do capital financeiro.

As suas ligações às economias dos diversos países advêm de procurar colocar sempre homens da sua confiança à frente de entidades como o Banco Mundial, Robert Zoellick, futuramente no Banco Central Europeu, Mário Draghi, e até no governo de Portugal, o secretário de estado adjunto Carlos Moedas e mais recentemente o ex-governante António Arnault, que foi um dos negociadores das privatizações do governo PSD/CDS.

São organizações financeiras dotadas deste tipo de poder que mandam a seu bel prazer nas economias e até nos governos, sem qualquer tipo de regulação e apoiadas numa igualmente poderosa máquina de propaganda capaz de intoxicar a opinião pública no sentido que mais lhes interessar.

É contra este polvo gigantesco que é necessário resistir e lutar, com a consciência de que embora seja imprescindível criar pontes de convergência entre diversas sensibilidades, não se pode permitir a entrada de “cavalos de Tróia” nas nossas linhas.

Vem isto a propósito da preocupação demonstrada ultimamente pelos fazedores de opinião ao serviço do pensamento único neo-liberal a propósito da incapacidade da esquerda política encontrar pontos de convergência, ao contrário da direita que é sempre capaz de se unir.

Convém ter em conta algumas considerações para nos podermos entender.

Ao longo dos tempos, a direita tem demonstrado que a sua única finalidade é assegurar as rédeas do poder, para retirar todas as benesses que puder e enquanto puder. Mesmo que as suas alianças sejam tão periclitantes como temos assistido em Portugal, com cada ministro a fazer as declarações que mais lhe agradam contradizendo-se entre si.

Da esquerda deve poder esperar-se ética política e não é facilmente aceitável juntar forças que lutam intransigentemente contra as políticas de austeridade, que empobrecem a maioria da população e que acabam por enriquecer umas escassas dezenas de multimilionários, com outras forças sempre dispostas a ceder às pressões dos interesses financeiros ou que aceitam os tratados orçamentais, que constituem o eternizar do jugo externo sobre os orçamentos nacionais, com vistos prévios sobre os mesmos orçamentos ou aceitando as intervenções militaristas da Nato. Não se trata de “pormenores” ou de birras, são questões de fundo que têm a ver com a vida das pessoas. E esta é que é a verdadeira razão para que nem sempre seja possível a concretização de frentes de esquerda, mesmo que esse seja o anseio dos cidadãos.

Um dos maiores problemas que o nosso país atravessa é a dificuldade de aparecimento de uma alternativa credível às políticas que estão a ser impostas. Mas a solução não passa pela criação de mais situações equívocas e de mais alianças espúrias.

Se em nome do pragmatismo houver cedência nos princípios, quem é que ganha?


Nas ultimas semanas tem sido motivo de abundante informação o desastre ocorrido na Praia do Meco com seis estudantes da Universidade Lusófona.

Independentemente do que tenha de facto acontecido naquela fatídica noite, o grupo era composto por jovens ligados às organizações da praxe académica daquela universidade. O que nos é dado a conhecer é que além de tal grupo ter características de seita fechada e mais ou menos secreta, as tais praxes se revestem de rituais pouco dignificantes e atentatórios dos direitos dos caloiros, como é fácil de perceber, basta vê-los mascarados nas ruas.

Neste momento são muitos os que se mostram preocupados com tais factos. Até o ministro promove reuniões com os reitores e associações para reafirmar o seu empenho.

O mais estranho disto tudo é que foi necessário morrerem mais seis jovens para acordarem para uma situação que tem sido várias vezes denunciada. É só estar atento ao álcool que corre em dias de queima.

Há anos que o Bloco de Esquerda vem chamando a atenção para estas práticas aberrantes, atentatórias da cidadania, tendo até apresentado propostas para lhes pôr cobro, que como se sabe foram recusadas. Voltaram agora a ser apresentadas na Assembleia da Republica visando responsabilizar as instituições pelas práticas violentas nas praxes. Haja agora coragem para alterar estas práticas, que longe de servirem para integrar os jovens estudantes se destinam a humilhá-los e a mostrar-lhes a necessidade de obedecer cegamente às hierarquias, mesmo que degradantes e falsas. Tudo isto em colisão com os valores de uma sociedade saudável e democrática.

4.02.2014

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerd
a

No comments:

Visitas

Contador de visitas