01 November 2013

O que é isso de "Classe Política" ?



Do pensamento único, que nos têm vindo a impor, fazem parte uma série de conceitos, sistematicamente apregoados pela máquina de comunicação social de forma acrítica, que muito tem contribuído para confundir os cidadãos com a criação de factos consumados.

Um desses conceitos, que não é recente, mas que é usado correntemente, é o de classe política.

As sociedades modernas dividem-se em classes sociais de acordo com o seu posicionamento em face à produção da riqueza ou à sua mera apropriação. As falácias à volta de classes médias, alta ou baixa, com a sua multiplicidade de estratificações, destinam-se a esconder na realidade, a existência da tensão entre as duas classes, dos produtores e dos capitalistas, sendo que estes beneficiam muito mais da riqueza produzida que aqueles.

É claro que ao longo dos tempos a própria constituição dessas duas classes complexas tem sofrido várias dinâmicas provocando mutações e, até, mobilidades diversas.

A política, na sua origem grega, correspondia a gestão da polis (cidade-estado), e era vista como a organização da gestão da coisa pública (res publica romana), logo, uma estrutura cuja função era a salvaguarda do bem comum, o Estado.

Em democracia “os políticos” não são mais do que alguns dos cidadãos eleitos pela maioria dos cidadãos da polis, com o fim de prestar um serviço à sociedade, embora temporário, e por isso não podem constituir uma classe, nem a função/serviço, que juram por sua honra prestar à sociedade, pode transformar-se numa profissão.

Trata-se, assim, de governar com o propósito do bem público, da justiça e da preservação do património. Esse serviço é uma situação transitória, dependendo da vontade do eleitorado.

No regime democrático, do ponto de vista formal, políticos somos todos nós os que se interessam pelos assuntos de todos, tendo em conta o bem da comunidade.

As palavras têm peso e ao abastardar os conceitos é todo um conjunto de mensagens escondidas que vão passando, neste caso, o afastamento do conjunto de cidadãos daqueles a quem deram o encargo de governar, temporariamente e nos limites da lei.

A política, como eu a defendo, e segundo os princípios republicanos, é uma causa nobre, altruísta e generosa.

Esta constatação põe em causa e torna incorrecto o uso dos termos classe política, carreira política e outros, que procuram contribuir para instalar uma casta politico/burocrática, que se afasta dos cidadãos e que a partir da sua instalação passa a lutar principalmente pela manutenção do seu poder, por todos os meios, contra tudo e contra todos, sem princípios nem valores.

Uma democracia participada e activa tem a obrigação de impedir a instalação na sociedade desse tipo de castas, elegendo cidadãos segundo programas, regras claras e precisas, fiscalizando a sua execução e a sua prática.

Assim, os políticos que exerçam a sua função a tempo inteiro deverão ser remunerados por tal serviço, também não deverão ser prejudicados pelo seu exercício ou auferir regalias quando concluído o respectivo mandato, que sejam diferentes dos restantes cidadãos.

Esta minha visão da organização política da sociedade nada tem a ver com a fobia instalada na opinião pública contra os partidos políticos, e mesmo incentivada tanto no nosso país como por toda a Europa, maldosamente, ou de forma impensada e ingénua.

A apresentação de grupos de cidadãos fora dos partidos a eleições, vem levantar novos problemas. Os exemplos, quer em Portugal, quer por toda a Europa, não são de modo a dar muita confiança. Questões como a responsabilização política após o cumprimento de mandatos, deverão ser tidas em conta e não são facilmente aplicáveis a grupos informais.

Os partidos políticos são um instrumento da democracia e a sua existência é indispensável para uma convivência saudável, mas terão que se organizar de forma a impedir que no seu seio cresçam ninhos de oportunismo e a demonstrar, que estão dispostos a retomar a confiança dos cidadãos, hoje muito posta em causa.

Do mesmo modo a existência de organizações de jovens nos partidos é hoje encarada como escola para “futuros políticos”, e não como forma de estes tratarem das questões específicas da juventude, dentro da organização partidária. O aparelhismo e o oportunismo acabam por viciar muitas das opções dessas jotas.


Por outro lado, os partidos políticos enquanto emanação da sociedade democrática, organizam a defesa dos interesses dos seus aderentes e devem fazê-lo com projectos claros, com a maior firmeza e convicção, mas com abertura a novas ideias, sem cristalizações, sem espírito de seita, trazendo os cidadãos à participação no debate e nas tomadas de decisão.

Muitos dos ideais de esquerda que as lutas populares pelos direitos cívicos, políticos e sociais ao longo dos séculos dezanove e vinte nos legaram mantêm a actualidade, embora necessitem de ser vistos à luz da nova realidade, não devendo, por isso mesmo , ser renegados ou abandonados.

É esta dialéctica que os partidos de esquerda, as organizações dos trabalhadores e as novas formas de organização devem encarar de frente se quiserem estar preparados para os combates que as modernas estruturas do capital financeiro provocam. Só assim será possível lutar com espírito crítico contra a gigantesca máquina de propaganda do pensamento único ao serviço do capital financeiro.
30.10.2013
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

No comments:

Visitas

Contador de visitas