29 July 2013

Continuidades


Depois da semana alucinante em que as demissões de Victor Gaspar e de Paulo Portas acrescentaram crise à crise , seguiu-se a semana do chamado acordo de salvação nacional.
Esta espécie de máquina de ressuscitação do governo moribundo, inventada pelo Presidente da República, não deu em nada, nem tal podia acontecer.
A tentativa de atrelar o PS à carroça desgovernada do executivo parece ter falhado. Não porque a direcção do PS não tenha concedido de forma solicita um balão de oxigénio ao governo, mas porque as exigências da maioria eram de tal modo inaceitáveis que os militantes do PS pressionaram a sua direcção para que esta pusesse fim à sua presença nas conversações.
Ao afirmar que os partidos de esquerda não eram alternativa, António José Seguro, justificou a sua escolha pela direita, só travada pela pressão das bases do seu próprio partido.


Como sabemos o governo PSD/CDS apresentou à troika uma série de medidas a executar de imediato,  que vão desde os cortes de 4.700 milhões de euros na  despesa  públicas, passando pelos cortes nas pensões e salários, até aos despedimentos de muitos milhares de trabalhadores da função pública. Pretendia agora assegurar o apoio do PS a essas medidas, sem sequer as ter discutido previamente. É à aceitação, sem mais,  destas medidas  a que o PSD chama de realismo.
É evidente que tais medidas acrescentam austeridade à Austeridade e irão agravar ainda mais as condições de vida dos portugueses.
Pela atitude de sobranceria de Passos Coelho nas declarações públicas feitas em plena reunião do conselho nacional do seu partido, estranhamente aberto à comunicação social, como se se tratasse de um comício, já dava a entender o fracasso das conversas a três. Contrariando e afrontando o Presidente da República declarava que iria manter-se até ao fim da legislatura e que Paulo Portas assumiria o papel de vice primeiro-ministro.
Por sua vez Paulo Portas após a sua triste figura do sai não sai do governo, numa intervenção na Assembleia da República apresentou-se como um grande defensor da estabilidade governativa e considerou excelente a solução da remodelação apresentada. Excelente, claro, para ele que consegue de uma penada uma promoção no governo e um aumento de poder.
É estranho que a este senhor não sejam apontados todos os casos da sua vida política de que tem sabido sair  de fininho desde a questão dos sobreiros, passando pela universidade privada, a cópia dos documentos do ministério e a mais do que suspeita compra dos submarinos. Todos estes casos mostram uma grande “habilidade”, que muito pouco deve à ética.
Muitas são as vozes que dizem que Portas bem pode continuar a afirmar que não acredita nas negociações com megafone, mas ninguém nega que sempre se safa muito bem no conluio  do segredo dos gabinetes. Essa é a verdade.
O Presidente da República que sempre afirmou defender acima de tudo a estabilidade governativa ainda não de apercebeu que a presente situação é o menos estável possível.
Apesar disso reitera a sua confiança na actual maioria, como solução de estabilidade até ao fim da legislatura, mais uma vez escolhe a solução que protege os partidos do governo, levando o seu patrocínio ao ponto de   avançar com a apresentação por parte do governo de uma moção de confiança ao Parlamento.


As medidas que o Presidente da República quer ver consignadas na moção de confiança, visando o crescimento da economia e a criação de emprego não são compagináveis com as afirmações governamentais sobre a continuação do caminho que sempre afirmaram ser o único, o mais correcto. Atendendo á obstinação, que raia a teimosia, da necessidade de austeridade a todo o custo, por isso  é difícil acreditar na reconversão, naquilo a que o PSD chama de novo ciclo.
A obediência aos ditames da grande finança e o apego ao poder dos dirigentes da direita, a chamada maioria governamental, é tal, que acham dramática a possibilidade de realizar eleições, como se este não fosse um procedimento normal em democracia. É claro que esta posição merece os maiores  aplausos dos representantes da finança e das eurocratas.
Passos Coelho continua a afirmar, a exemplo da sua mentora Merkel, que há quem pretenda que o norte da Europa continue a pagar as nossas dívidas. Confunde o facto de se querer renegociar o pagamento da dívida legítima em novos moldes, com novos prazos e com juros menos usurários, com a negação do pagamento das dívidas. Pagar sim, mas sem comprometer o futuro do país. Enfim, é o seu papel de sátrapa das finanças alemãs.
Veremos que remodelações vão ser apresentadas e quem assegura os ministérios, sem qualquer esperança em alterações úteis, pois as políticas serão as mesmas.
Resta à esquerda continuar a lutar sem transigências e com firmeza contra as medidas que aí vêm e que irão por certo acarretar maiores constrangimentos.
Nas próximas eleições autárquicas o eleitorado terá oportunidade de mostrar o seu desagrado, penalizando os partidos do governo, por mais que tentem localmente defender uma falsa  independência face ao poder central.

24.07.2013

José Joaquim Ferreira dos Santos

Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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