02 April 2013

LUTAR COMPENSA



Sobre as manifestações de 2 de Março, o ministro Victor Gaspar afirma que não lhe interessam particularmente as questões da popularidade, o que lhe interessa verdadeiramente são as opiniões dos seus parceiros europeus e do FMI.
Pedro Passos Coelho afirma, com a maior arrogância, que não governa em função de manifestações.
Estas afirmações estão em consonância com os dislates de João Salgueiro, Fernando Ulrich, Soares dos Santos e outros, que não se coíbem em tratar os portugueses com a maior sobranceria que chega a raiar a boçalidade.


Estão também de acordo com o que tenho escrito sobre quais são, na realidade, as funções deste governo e do grupo dos seus apoiantes e qual o papel que desempenham no empobrecimento do nosso país.
Começa a se claro que não se trata de governar para os portugueses, mas de impor as ideias e as medidas arquitectadas nas instâncias da alta finança internacional.
Por seu lado o primeiro-ministro Passos Coelho manifestou-se contra as propostas de aumentar o salários mínimo nacional, que é de 485 euros mensais, com a explicação de má fé que o correcto seria seguir o exemplo da Irlanda que baixou o valor do salário mínimo. O que se esqueceu de informar foi que o salário mínimo da Irlanda é de 1.460 euros mensais. Da mesma maneira se manifestou o consultor António Borges, espécie de eminência parda por detrás de todas as maldades de que este governo se lembra.


Contrariamente ao que se vem ouvindo dizer, estas medidas e opiniões nada têm a ver com ignorância, incompetência ou incapacidade de comunicação por parte do governo. São mesmo manifestações de fanatismo ideológico.
Tal fanatismo passa, com determinação, pelo empobrecimento dos povos do sul da Europa, mas não deixará de chegar aos do centro e até ao norte. A finalidade destas medidas perversas, para além da destruição do estado social que caracterizou a vida na Europa desde meados do século XX, é também a criação de um exército de mão de obra de reserva, disposto a trabalhar a custos baixíssimos e sem direitos.
Trata-se a asiatização da economia, visando competir com países onde os direitos do trabalho são inexistentes, mas onde, por isso mesmo, acumulação capitalista está em alta.  
Tudo isto acontece perante a passividade de um Presidente da Republica que considera o silêncio como a sua melhor contribuição para a manutenção daquilo que afirma ser o mais importante para o país, a estabilidade política e a aparência externa. Por isso tem  sido e será a muleta deste governo, aliás da mesma cor e ideologia.

Vai dando uns recados mais ou menos enviesados, como “eu avisei” através do Facebook ou em prefácios de uma obra, espécie de anais dos seus feitos, mas nada de conclusivo ou de determinante.
O que este senhor procura fazer esquecer é o seu papel durante o longo consulado de primeiro-ministro em que deu um contributo muito importante para a destruição do tecido produtivo nacional, sob o pretexto da necessidade da modernidade. Foi assim que substituímos a produção por compras na Europa, que pagávamos com os dinheiros que de lá nos enviavam e com que se construiu grande parte da divida que agora estamos a pagar. 


Não foram os portugueses, nem os espanhóis, nem os gregos ou italianos que viveram acima das suas possibilidades, foram os bancos e as entidades financeiras que privilegiaram as negociatas mais ou menos escuras e afundaram as economias de cada país. Em Portugal foi determinante o papel de BCP, BPP, BPN  e outros, separadamente e em conjunto,  nas criações de offshores e enriquecimentos súbitos e ilícitos que tardam em ser julgados.

Este ano haverá eleições autárquicas, num cenário de um ataque, por parte do governo, à democracia local e ao poder autárquico nunca visto no Portugal Democrático.
Para além da destruição de freguesias, temos vindo a assistir á aprovação de legislação visando controlar a autonomia do poder autárquico, quer asfixiando-o do ponto de vista financeiro, quer impondo controladores não eleitos, mas bem pagos, em órgãos intermédios, como forma de centralizar as decisões.
Todas estas medidas anunciadas e algumas já em prática procuram impedir a concretização de uma disposição constitucional que ainda não está implementada, a regionalização, mas uma regionalização democrática, com órgãos eleitos e sob escrutínio dos cidadãos. Essa sim seria uma forma de dar corpo e até escala a um desenvolvimento harmonioso e sustentado, mas essas não parecem ser as preocupações deste governo, como não foram dos que o precederam.
A lei que previa a não acumulação de mandatos de presidentes de câmara e de Juntas de freguesia tem sofrido as mais incríveis e ridículas interpretações. São inúmeros os autarcas que, após cumprirem os três mandatos numa câmara vão saltitar e procurar candidatar-se noutra. Espera-se que, em última instância os tribunais o impeçam.
As campanhas autárquicas que se avizinham não devem impedir a continuação do combate pela demissão deste governo e não devem fazer esquecer que os apoiantes do governo nas autarquias se vão candidatar e que são co-responsáveis pela situação em que vivemos.


 13.03.2013

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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