24 August 2012

PARA ALÉM DA PRÓPRIA VIDINHA




O economista e prémio Nobel da economia Joseph Stiglitz tem vindo a alertar que a austeridade imposta aos países com dificuldades financeiras agrava a crise europeia e tem defende que é necessária, para a ultrapassar,  uma reforma do quadro europeu e a reestruturação das dívidas nacionais..
Evidentemente que este não é o entendimento dos economistas ao serviço do grande capital financeiro, o verdadeiro promotor de toda a crise económica, mas também seu maior beneficiário  para quem, o que é necessário é destruir tudo o que cheire a estado social e que  o rendimento do trabalho seja  o mais baixo possível, em nome de uma competitividade que só tem paralelo nas relações de trabalho asiáticas.

No nosso país verifica-se uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,3% no segundo trimestre deste ano o que se reflecte no agravamento da situação da procura interna e na consequente retracção da economia.
As declarações de Pedro Passos Coelho na festa do Pontal sobre a possibilidade de Portugal vir a ultrapassar a fase mais difícil da crise já no próximo ano, não tem para isso, qualquer fundamento e estão eivadas de contradições que  preconizam mais medidas de austeridade, como as já meio anunciadas  dos cortes no 13º. Mês de 2013 para todos.
Enquanto isto o ministro Paulo Portas, com a sua habitual displicência e desfaçatez brinca com a questão dos submarinos, dizendo que esta ora emerge ora submerge a favor dos tempos. O que não explica é a razão, agora conhecida, de terem sido efectuados inúmeros depósitos nas contas do CDS, nessa mesma altura, em valor superior a um milhão de euros, mas cuidadosamente divididas em quantias que evitassem declarações sobre o seu valor.
Por sua vez, os cortes de apoios sociais são os mais elevados alguma vez vistos na democracia portuguesa. Mais de meio milhão de desempregados não têm qualquer apoio social há cerca de três trimestres. É verdade que neste universo coexistem vários tipos de desempregados, mas a grande maioria não consegue mesmo acesso a qualquer tipo de trabalho.
Todos os dias temos informações sobre os hospitais que mais poupam em medicamentos, os que realizam mais intervenções cirúrgicas e outras listagens de significado muito relativo, mas do que não temos informação é dos contratos realizados com a chamada iniciativa privada da saúde,  em simultâneo à  perda  de valências dos hospitais locais.
Temos dificuldade em esquecer as afirmações de Isabel Vaz, presidente da Espírito Santo Saúde que disse; “Melhor negócio do que a saúde só mesmo a industria de armamento”.  Só tendo em conta estas declarações se entende a abertura de tantos hospitais privados ao mesmo tempo que o governo procura cortar o mais possível nas despesas de saúde e fechar instalações, como está a ameaçar neste momento, afirmando que o SNS é incomportável do ponto de vista financeiro.
Se a nível nacional muita coisa  parece não bater certo,a situação política a nível internacional não é de modo a dar um mínimo de confiança numa convivência normal entre os diversos países.
O estado de Israel procura todos os pretextos para desencadear um ataque ao Irão, agindo ou não  como lebre para  os Estados Unidos; a Grã-bretanha tem uma atitude completamente inadmissível ao ameaçar assaltar a representação diplomática do Equador em Londres para capturar o fundador da Wikileaks o australiano Julian Assange; na África do Sul a  policia provoca um massacre na mina de platina de Marikana ao disparar rajadas de metralhadora contra os mineiros em greve, matando 34 e ferindo muitas dezenas; na Grécia as forças de extrema-direita têm atacado e assassinado emigrantes, perante o silêncio cúmplice  dos    governos europeus,  que como a Bélgica que acaba de expulsar 1224 emigrantes desempregados,  na sua maioria italianos, franceses e romenos.
A completa desregularização dos mercados e a ganância financeira que desencadearam a maior crise das ultimas décadas, acompanhada pelo aumento da violência levada a cabo por grupos a coberto de diferenças religiosas ou outras, aponta para a necessidade de um novo paradigma   pautado pela democracia política, mas também económica e social,   que permita alterar a actual situação e estabilizar as relações entre  os povos e as nações.
Esse é o desafio que se coloca hoje a todos aqueles que se preocupam com a vida e o futuro para além da sua própria “vidinha”.
Só nessa perspectiva se consegue manter a esperança e se entende a necessidade de lutar por uma sociedade mais justa e mais fraterna, com menos desigualdades e pleno respeito pelos direitos humanos.

  22.08.2012

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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