21 May 2012

A DEMOCRACIA VALE A PENA



                                
         
A atitude do governo PSD/CDS face aos “mercados” e à troika não tem sido apenas a de bom aluno, mas de aluno chico-esperto, que se põe em bicos de pés para ser bem  visto pelos professores, embora não passe de um cábula.
Demonstra-o mais uma vez   com a apressada assinatura do Pacto Orçamental , o qual  afinal tem sido   vários países menos bem aceite  e que acabou por ver adiada a sua entrada em vigor pela própria Merkel. O governo foi mais papista do que o papa.
Os europeus começam a considerar que, embora seja importante um acerto das contas publicas,  o mesmo não pode ser conseguido à custa do empobrecimento geral da população e de uma recessão extremamente gravosa para a economia e para o emprego.
Infelizmente e na ânsia de agradar aos seus mentores, o governo português dá muito pouca importância às condições de vida dos seus cidadãos.
As trapalhadas com as previsões da taxa de desemprego, uns valores enviados para a Europa e outros diferentes entregues na Assembleia da Republica e em inglês, só significam o profundo desrespeito do governo pelas instituições democráticas eleitas.
O primeiro ministro afirmou, há dias, que o desemprego deve ser olhado pelos portugueses como uma oportunidade para mudar de vida. Trata-se de uma afirmação ridícula e tanto mais insultuosa quando se sabe que é  cada vez maior o numero de portugueses a braços com esse  flagelo e sem perspectivas. Não é só insensibilidade social é mesmo insensatez vinda de quem usa unicamente os cortes como estratégia , corta  os subsídios de desemprego, corta os  rendimentos sociais de inserção e até diminui o período de desemprego subsidiado.



Posteriormente tentando minimizar o impacto das afirmações  despropositadas e sobranceiras o primeiro ministro  veio meter os pés pelas mãos e tentar desdizer-se.  Será que esta gente ainda não de apercebeu que o que dizem fica registado em imagem e som ?
Ao mesmo tempo o ministro Gaspar, em inglês  como tanto gosta de fazer,  lá vai dizendo que o trauma provocado pela perda de emprego é de difícil recuperação, para quem tem a infelicidade de nele cair.
Estas diferenças de opinião entre o primeiro-ministro e do seu ministro das finanças não deixam de ser interessantes. Fazem lembrar as práticas do  polícia bom e do  policia mau, utilizadas para confundir os “prisioneiros”. 
Nos últimos dias veio ao de cima um escândalo que tem andado meio escondido desde o inicio deste mandato governamental.  Trata-se da questão das secretas e da promiscuidade existente entre  uma empresa ligada à comunicação, a Ongoing,  e os serviços secretos nacionais, pagos pelo dinheiro dos contribuintes, mas ao serviço não se sabe muito bem de quem.
À mistura com sociedades secretas como a maçonaria, a opus-dei e outros quejandos começamos a saber que outros poderes,  para além dos emanados do eleitorado,  se debatem na sombra. Em  nome de  que a “ informação é poder” foram propostas informações e relatórios mais ou menos sigilosos a diversas individualidades como futuros ministros e secretários de estado, para além de empresas privadas, em troca de pedidos de “colocação” em lugares cimeiros das policias secretas.  Pelos vistos estas propostas e relatórios   foram   “esquecidos”  pelos  presumíveis receptores.
Para um governo que fez da  “transparência exemplar” a sua bandeira de luta, durante a campanha eleitoral,   a morosidade no tratamento deste e doutros casos, que acabam por prescrever  como alguns  crimes de colarinho branco, não são muito abonatórios.
Por toda a Europa se ouvem preocupações com a qualidade de democracia em que vivemos. As manifestações a que se tem vindo a assistir são disso grande  exemplo. Mas os erros da  democracia só se combatem com mais e melhor democracia e  com cidadãos activos e exigentes não com a intervenção “providencial” de qualquer salvador da pátria, individual ou colectivo.
Não é restringindo as estruturas democraticamente eleitas como temos visto em governos “arranjados” pelos “mercados” em nomeações da sua confiança , como agora se propõem fazer na Grécia, não é deste modo  que se defende a democracia.
Aliás é a mesma escola que prepara as alterações às leis eleitorais autárquicas, extinguindo freguesias e concelhos, com vista a, sob um manto mais ou menos democrático ir minando a representatividade eleitoral,  em nome de uma maior eficiência e até de mais governabilidade.
É a própria democracia que corre risco.

         14.05.2012
José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda


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