23 February 2012

OUSAR A ESPERANÇA


Esta semana foi fértil em acontecimentos pouco felizes, nomeadamente para os portugueses que neste momento atravessam mais dificuldades.

Contra todas as promessas eleitorais o governo aumentou o IRS , retrospectivamente a Janeiro, para os trabalhadores por conta de outrem que auferem salários fabulosos de cerca de 600 euros mensais.

Soube-se que as despesas com as parcerias público privadas aumentaram cerca de 18% em 2011, o que contraria as afirmações de cortes do governo.

Foi tornado público que o ministro Relvas encomendou 100 luxuosos livros do Programa do Governo que custam ao erário público 120 euros cada um, o que não está nada em consonância com os “sacrifícios” pedidos aos portugueses.

O deputado do CDS, João Almeida, teve o desplante de dizer aos trabalhadores da Função Pública que discordam da possibilidade de serem transferidos ao abrigo da mobilidade para onde calhar, que se não aceitarem podem ir embora. Tanta arrogância é democraticamente inaceitável, mas inscreve-se nas recentes tomadas de posição governamentais.

Durante a semana foi levantada a questão do decréscimo de natalidade no nosso país. As condições para que tal aconteça são exclusivamente assacáveis à sociedade que não tem criado condições económicas e sociais para que tal não aconteça e não às mulheres como se pretende fazer crer. O que não é admissível é a sentença sexista e bolorenta de que é mais útil para o país as mulheres ficarem casa. Tal afirmação mostra , por parte de alguma hierarquia religiosa uma visão conservadora dos papeis do homem e da mulher, na família, esquece o presente contexto e constitui uma grande falta de respeito pelas mulheres e pelos seus direitos enquanto cidadãs de pleno direito.

Num estudo recentemente apresentado é afirmado que os mais jovens manifestam menos sensibilidade aos problemas sociais colectivos, como desemprego, solidariedade inter-geracional e outros.

Não podem ser os jovens os responsáveis por esta situação. A sociedade, de que todos fazemos parte e portanto de que somos co-responsáveis, desenvolveu até ao extremo os conceitos de competição, de cada um por si, de prazer imediato, de egoísmo, de empreendedorismo individualista, de crescimento a qualquer custo, ocupando todo o espaço que deveria ser utilizado para a defesa de outros valores mais humanos e até mais solidários.

O capitalismo na sua vertente mais radical, o neo-liberalismo, tem vindo a destruir todo o edifício criado no pós-guerra e a que se chamou de estado social . Esta sanha individualista, da direita mais conservadora e reaccionária, tem origem nas teorias que ganharam terreno nos Estados Unidos com Ronald Reagan, no Reino Unido com Margaret Thatcher e até com Cavaco Silva, continuam a forçar a sua implementação na Europa, aproveitando-se , agora, das dificuldades criadas pela economia de casino que provocaram.

A resposta só pode ser dada com mais solidariedade com todas as vitimas da crise e com a busca de soluções cidadãs, que tenham a ver com os direitos sociais dos cidadãos e não com a “sopa dos pobres”, caritativamente preconizada pelo governo como única saída para a crise, a par da “exportação” para o estrangeiro dos jovens mais preparados e que tão caros ficam ao erário público .

20.02.2012

José Joaquim Ferreira dos Santos

Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

No comments:

Visitas

Contador de visitas