15 February 2012

MOBILIZAÇÃO CONTRA O ABUSO



O facto de não ter havido uma auditoria à divida externa portuguesa pública e privada tem consequências extremamente gravosas para a economia, para o desenvolvimento social e compromete o futuro do nosso país, enquanto nação independente e soberana.

Pelo caminho que vamos, corremos o risco de nunca sabermos qual o valor exacto da divida externa, quem foi que nos endividou e quem são os reais credores. Tal desconhecimento vai continuar a ser usado como álibi para todas as “manobras” que interessem ao governo e à alta finança de que dependem.

A dívida existente tem servido para justificar todas as “inevitabilidades” das medidas de empobrecimento dos trabalhadores, dos pensionistas, o aumento do desemprego, os cortes nas prestações sociais e o aumento de impostos.

É sintomático que os partidos do “centrão” (PS.PSD e CDS) coincidam neste interesse em escamotear a informação devida aos eleitores sobre a realidade da divida.

As falácias propaladas de que uma reestruturação da divida seria entendida como declaração do seu não pagamento, só podem convencer quem quer ser convencido. Todavia, com uma recessão crescente, com um consequente aumento do desemprego, não se vislumbra como será possível pagar a divida nas condições impostas pela “troika”.

Mas este governo, que tem tudo menos respeito pelos cidadãos eleitores, continua teimosamente a afirmar que não vai negociar o pagamento da divida, nem os prazos, crescendo, também, o coro dos que consideram isso impossível, mesmo a par das sentenças contraditórias dos especialistas da imprensa estrangeira.

Ao lermos os termos em que é apresentado o documento que servirá de base ao novo programa do PSD tudo fica mais claro. O programa parece decalcado das pretensões da direita americana,” menos estado, mais iniciativa privada”. Só que isto equivale à destruição completa de tudo o que se pareça com Estado Social, que o PSD disse sempre não querer destruir.


É o desmascarar completo da própria designação do partido, que se diz social-democrata, mas cuja doutrina de aproxima cada vez mais da direita ultraliberal. Não condiz a cara com a careta.

Pedro Passos Coelho procura aplicar em Portugal as medidas que Margareth Thatcher levou à prática no Reino Unido com as consequências conhecidas: empobrecimento geral, fim do Serviço Nacional de Saúde, enfraquecimento dos sindicatos, precarização do trabalho, exacerbação da competitividade individual a todos os níveis. É o tempo do “cada um por si”,do empreendedorismo individual como o “milagre” contra a crise, do quebrar os laços entre as pessoas, do tornar mais fácil a dominação pelo pensamento único.

Em Portugal tudo isto acompanhado de uma arrogância incomensurável to tipo “… Portugal precisa disto…” e do “ custe o que custar” que lembra tempos em que um iluminado pensava e agia em nome de todos os portugueses.

Para dar cobertura a tudo isto tem sido utilizada, de forma regular, uma certa imprensa devidamente “domesticada”, como preconizam o assessor do Presidente da Republica, Fernando Lima ou o “guru” do neo-liberalismo João Duque. Parte dessa imprensa está, no momento, sob a mira de Dias Loureiro, com vista a sua eventual compra por empresas angolanas.

São os mais do que estranhos negócios das privatizações para que foi agora chamado a supervisionar mais um “boy” o Dr. António Borges, ex-director do FMI para a Europa e ex-funcionário da entidade que provocou e que mais tem beneficiado com a crise financeira internacional, o Banco Goldman Sachs. Este senhor é conhecido por ser adverso à presença do estado na economia.

Iremos continuar a assistir à venda, sob a desculpa de a “troika” exigir a privatização de empresas públicas, a estados estrangeiros como a China e Angola, como aconteceu com a EDP e agora com a REN. Como é possível que empresas estratégicas do Estado Português acabem nas mãos de estados estrangeiros?

Claro que quando os partidos de esquerda representados na Assembleia da Republica questionam o primeiro-ministro, como recentemente no caso do escândalo dos espiões/funcionários de empresas privadas, o inefável super-ministro Miguel Relvas dirá que se trata de circo.

Estranho entendimento este das relações institucionais entre o governo e o parlamento, por parte de um responsável que é só ministro dos assuntos parlamentares.

O governo e muitos fazedores de opinião revezam-se em apelos à passividade popular. Ao longo da sua história, Portugal conseguiu defender-se sempre que o povo se ergueu, quando enfrentou os usurpadores, as tutelas externas “inevitáveis” que lhe exigiam que se sacrificasse, então pelo rei e pelo império, agora pela finança.

6.02.2012

José Joaquim Ferreira dos Santos

Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda


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