31 December 2011

EM JEITO DE BALANÇO




Nos finais de ano é habitual tentar fazer um balanço dos meses que agora acabam. Vou seguir a tradição e tentar compreender o que nos calhou neste ano de 2011.

Todos nos apercebemos que uma nuvem bem negra cobriu o nosso país e que o sol não ilumina a todos por igual, mas, independentemente da nossa vontade, voltará a raiar e a aquecer este Inverno .


Após meses em que sentíamos que algo estava a correr mal, mas em que o governo de então afirmava que tudo estava muito bem, surgiu o descalabro e o pedido de ajuda à “troyca” nas condições que julgamos conhecer.

Durante algum tempo ouvimos os lideres da direita, na oposição , então, fazer declarações solenes de que não haveria aumento de impostos, que falar em cortar o subsidio de férias e de natal seria um disparate e outras enormidades que tais.

O povo deixou-se enganar por essas belas canções de sereia e nas eleições legislativas deu a sua confiança, embora com grande abstenção, aos partidos da direita.

Esta enorme ingenuidade teve a ver com a insuportável governação de José Sócrates, com a arrogância com que se apresentava, com um certo clima de escândalos e de compadrio e com a falta de clareza em que se vivia.

Agora vejamos que acontecimentos foram mais penalizadores para a nossa economia: a destruição do tecido produtivo nacional, industrial, agrícola e das pescas, em nome de uma modernidade apregoada nos governos de Cavaco Silva, o então chamado “progresso”.

Assistimos à substituição das produções nacionais por importações, pagas com os fundos comunitários que se dizia destinados a estruturar a economia, mas que foram usados para fins sumptuários, para uma economia de casino e para engordar contas em paraísos fiscais.

As pessoas eram bombardeadas com ofertas de vendas a crédito e com propostas de cartões de crédito sem qualquer critério de atribuição o que criou uma autêntica compulsão consumista, sem que, por parte das autoridades houvesse avisos sobre os inconvenientes de tais factos e suas consequências futuras.

Depois soube-se dos casos dos bancos BPN e BPP, com o Millenium à mistura, da compra dos submarinos e carros de combate, da construção de auto estradas injustificáveis, das famosas parcerias publico-privadas e de outras obras megalómanas, tudo contribuindo para um endividamento gravoso e crescente.

Mas quem viveu acima das suas possibilidades? Porquê serem sempre os mesmos a pagar ?

Falam-nos de uma divida externa, pública e privada, mas ninguém do governo anterior ou do presente se preocupou em promover uma auditoria a essa divida que permitisse um conhecimento público do valor real da mesma, de quem a contraiu e quais os seus credores.

Esta ambiguidade tem servido para justificar todos os abusos em termos de cortes e de ataques aos rendimentos dos trabalhadores e pensionistas.

O governo saído das eleições legislativas de Junho de 2011, até pela sua composição não augurava nada de bom para a governação. Alguns tecnocratas com ligações ao FMI e às entidades e bancos que provocaram a crise financeira, defensores do neo-liberalismo em ascensão e dispostos à obediência cega aos ditames da “troyca” , chefiados por alguém a quem não se conhecia qualquer prática governativa e com Miguel Relvas como “eminência parda” , ele mesmo de quem se afirma com “interesses” e “contactos” no Brasil e em Angola.

Contrariamente ao que anunciaram durante o período eleitoral e a coberto do acordo com a “troyca”, que vai sendo alterado conforme convém, iniciaram uma campanha de cortes nas prestações sociais, nos salários e nas pensões de reforma, na saúde, na educação, aumentando o tempo de trabalho não pago, enfim, uma autêntica asiatificação das relações laborais, sob o falso pretexto de as equiparar às dos restantes países da Europa.

Estranhamente, nunca ouvimos falar esses falsos europeístas, em salários para os trabalhadores portugueses equivalentes à média dos trabalhadores europeus.

Ouvimos, sim foi declarações infelizes acerca da necessidade de empobrecimento do povo português e apelos à emigração como forma de ultrapassar o desemprego. E estas não são, com certeza compatíveis com os pedidos de confiança formulados pelo primeiro-ministro na sua mensagem de natal, na qual omitiu as medidas posteriormente anunciadas de mais cortes nas pensões e no subsídio de desemprego, de forma encapotada em agenda de reformas estruturais, que se afigura para pior. Já não há palavra, nem honra, vivemos num tempo do vale tudo.

A solução para tentar ultrapassar a crise, permitindo crescimento da economia e a criação de emprego passa pela renegociação da divida pública. Só assim será possível pagá-la, assegurando uma vida digna aos portugueses.

Só uma pressão social, se possível enquadrada e persistente poderá obrigar o governo a alterar as suas políticas de completa sujeição aos interesses do capital financeiro, lembrando-lhe que devem governar para os portugueses e não contra estes.

27.12.2011

José Joaquim Ferreira dos Santos

Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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