30 October 2011

A CRISE NÃO É IGUAL PARA TODOS



Nós portugueses começamos a habituar-nos a que as “promessas” eleitorais não tenham qualquer valor porque são geralmente feitas de ânimo leve e com finalidades momentâneas.

Assim, já ninguém se admira que as palavras de Pedro Passos Coelho ditas antes de ser eleito e a propósito de cortes nos subsídios de Natal , de Férias e do aumento de impostos, sejam isso mesmo, promessas sem valor.

No entanto é absolutamente lamentável que não subsista um mínimo de respeito pelos eleitores, um mínimo de vergonha na cara de quem assim procede.

Nunca é demais afirmar que por alguma razão os partidos do governo e o PS que é co-responsável na situação, se tenham oposto a que fosse feita uma auditoria rigorosa à divida externa portuguesa, pública e privada. É que assim haverá , sempre , até sabe-se lá quando a desculpa de desvios nas contas para proceder a mais cortes e mais austeridade .

Esta desculpa servirá, também, para dar cobertura à venda ao desbarato das empresas do Estado.

São estes “negócios”, que, aliás, já começaram, da venda das Águas de Portugal, da TAP, da ANA, da EDP, dos lanços rentáveis da CP e dos transportes urbanos de Lisboa e Porto bem como de outras empresas apetecíveis pelas multinacionais ligadas ao FMI que eventualmente provocam a persistência do ataque das agências de notação financeira à nossa economia, debilitando-a e tornando cada vez mais baixo o seu valor .

Conforme os dias vão passando, vamos confirmando o quão falsas são as afirmações governamentais sobre a distribuição dos sacrifícios por todos os portugueses para conseguir cumprir com as “obrigações” contraídas, para pagamento das dividas.

A única forma que o governo encontra de cortar despesas é o despedimento e o corte nos rendimentos do trabalho, como um aluno fiel seguidor dos ditames do FMI.

Sabemos que apesar de ter havido “promessas” de acabar com as pensões vitalícias e reformas acumuladas para os políticos que mantivessem cargos públicos ou privados, elas continuam e com valores muitas vezes, escandalosamente altos, pelos curtos períodos de desempenho de funções.

É interessante verificar que algumas das “personalidades” contempladas são defensores acérrimos dos cortes de salários e de pensões dos trabalhadores.

Pelos vistos as “gorduras do estado” são muito difíceis de encontrar e é muito mais fácil cortar nos salários e nas pensões do que nos benefícios auferidos pelos amigos instalados à mesa do orçamento, mesmo que sejam claramente ilegais como os subsídios de alojamento para ministros e secretários de estado com casas próprias em Lisboa. Agora que foram “apanhados” podem aduzir as desculpas que quiserem.

Também vamos sabendo que os gestores bancários auferem ganhos muito superiores aos seus pares de bancos europeus.

Esta prática do regabofe não é exclusiva dos portugueses. No Parlamento Europeu, alguns deputados da esquerda tiveram a ousadia de propor cortes nas despesas de funcionamento o que tem sido recusado sistematicamente, por aqueles para quem o que interessa é sacar o mais possível.

Ainda, por falar em Europa, é vergonhoso o que se passa na União Europeia, já não basta o terem esquecido por completo as razões que levaram à sua criação , num momento de reconstrução da Europa saída da 2ª guerra mundial, pretendia-se uma Europa solidária, coesa e democrática, respeitando as especificidades de cada nação, mas procurando ter politicas comuns. Agora impera a maior submissão aos interesses financeiros dos estados mais ricos e dos seus respectivos bancos.


A situação das dividas soberanas dos países do sul foi resultante da crise financeira da economia de casino, mas também da substituição das produções nacionais pela compra de produtos importados, o que beneficiou os países mais industrializados.

As decisões que são tomadas pela senhora Merkel , em conluio com o senhor Sarkozy e depois transmitidas à comissão europeia, constituam a concretização do que foi denunciado como a instalação de um directório , tal situação tem a ver com os interesses que estão por detrás dessas mesmas decisões, que são a recapitalização da banca pelo confisco de parte dos salários auferidos pelos trabalhadores.

Esta prática neo-liberal de restringir a democracia à sua expressão meramente formal é a mesma que está presente nas propostas apresentadas no livro verde da administração local, cortando o mais possível no numero de autarcas eleitos, visando a concentração do poder nas mãos de uns poucos, assim talvez mais fáceis de controlar.

Mais uma vez é contra este estado de coisas que devemos estar atentos, não nos deixando enganar por questões lançadas, propositadamente, como areia para os nossos olhos.

24.10.2011

José Joaquim Ferreira dos Santos

Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda


No comments:

Visitas

Contador de visitas