07 July 2011

SACRIFICIOS SEMPRE PARA OS MESMOS



Já não é novidade para os portugueses o facto de o governo iniciar o mandato anunciando medidas que não estavam previstas no programa apresentado ao eleitorado. Assim fez Sócrates e o governo do PS , assim faz igualmente Passos Coelho com o seu governo PSD/CDS.

Refiro-me ao esbulho, mais uma vez praticado contra os rendimentos, já parcos, dos trabalhadores portugueses, desta vez em cinquenta por cento do valor acima do salário mínimo no décimo terceiro mês de salário.

Para já, nenhum outro rendimento, para além do trabalho é tocado. Nem as mais valias bolsistas, nem as transacções bancárias para offshores, nem qualquer outro rendimento do capital. Este é outro ponto de similitude entre o que agora acontece com o que sucedia com os governos PS.

Mas tal facto não tem que causar espanto. Tanto uns como outros se limitam a ser obedientes administradores do programa imposto pela troika. Não tendo nem imaginação, nem rasgo politico para outra coisa, senão, para obedecer.

O pobre povo português vai ter oportunidade para se aperceber de quem tinha razão acerca das denuncias que foram feitas durante a campanha eleitoral e que tão criticadas foram pelos “fazedores de opinião” ao serviço do “pensamento único” .

Radicam aí as causas dos violentos ataques desencadeados contra o Bloco de Esquerda na comunicação social. Não que queira utilizar isto como álibi para os maus resultados eleitorais, mas entendem-se pelo temor causado pelas questões levantadas.

Mas desenganem-se os que proclamam a desagregação do Bloco de Esquerda. Estão apenas a confundir os seus desejos com a realidade. O Bloco mantém-se vivo e actuante e não poderão contar com ele para entravar as lutas sociais que forçosamente irão eclodir. Os trabalhadores sabem que poderão contar com ele para lhes dar voz e para os apoiar.

Depois dos ataques anunciados à legislação laboral e aos direitos dos trabalhadores seguem-se as privatizações. Estas irão proporcionar grandes negócios dada a “urgência” das medidas e a crise financeira que deixa antever autênticas vendas a preços de saldo.

È nesse sentido que começaram a ser desmanteladas estações dos CTT, como no concelho a do Monte dos Burgos , visando preparar a privatização dos correios, tal como já ocorreu em diversos países da Europa, sendo que, por exemplo, no Reino Unido e na Bélgica os resultados foram de tal modo desastrosos que houve que nacionalizar, de novo, o serviço.

O intervencionismo da troika vai ao ponto de exigir a diminuição do numero de autarquias e de outras alterações administrativas que implicam revisões na Constituição da Republica.

É tal a convicção do governo de direita face à submissão do PS, que até já desmantelou os governos civis, mesmo antes de proceder às alterações necessárias na Constituição.

Passos Coelho e outros elementos do seu governo têm afirmado que este irá exercer uma governação de grande rigor. Espera-se que essa promessa de rigor passe pela Madeira, onde um governo regional da mesma cor partidária tem feito das maiores tropelias, ora negando a necessidade do dinheiro do estado, ora exigindo apoios para o acerto das contas regionais, sem que ninguém ouse comentar tais dislates, ou se oponha. Agora Jardim volta a acenar com a chantagem do independentismo. É de esperar que não esteja a contar com o “apoio” inopinado do ministro Álvaro Santos Pereira, que já defendeu em livro essa possibilidade.

Espera-se, igualmente, que tão apregoado rigor passe pela forças armadas, onde os gastos se nos afiguram desproporcionadamente altos face às necessidades nacionais.

A solução dos problemas políticos nacionais não passa por “suspender a democracia” como já antes foi aventado, por cercear a representação democrática como pretendem fazer na Assembleia da Republica, nem pela constituição de partidos de caciques locais. Passa sim pela apresentação e discussão de propostas politicas alternativas, credíveis e exequíveis que tenham em conta mais as pessoas do que os interesses dos grandes grupos financeiros, por um combate sem tréguas ao enriquecimento ilícito e a todas as formas de corrupção.

Conhecemos o discurso de toda a direita, incluindo o Presidente da Republica de que a crise veio para ficar e de que os sacrifícios têm que ser distribuídos, mas não é isso que vemos na prática.

Os sacrifícios recaem sempre sobre os mesmos, aqueles que dependem do rendimento do seu trabalho.

Só a luta impedirá e vencerá o abuso e não será com a chantagem do medo que nos calarão.

5.7.2011

José Joaquim Ferreira dos Santos

Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda



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