03 April 2011

Um novo Governo, só com novas políticas

A crise politica desencadeada pelo pedido de demissão do primeiro-ministro José Sócrates, já antes perspectivada, constituiu a apoteose final de um governo que se especializou em esconder ou não informar a verdade aos portugueses.
Acontece que, um governo que fazia da estabilidade política uma prioridade absoluta, fazer depender a sua continuidade da aprovação do PEC 4 é, no mínimo, incongruente. Basta lembrar o que o governo e os seus apoiantes, incluindo o PSD, disseram da Moção de Censura do BE que, apenas alguns dias antes, tinha sido rejeitada na Assembleia da República.
O que podem os portugueses esperar de quem não os respeita, de quem muda de opinião ao sabor das conveniências, de acordo com razões que nada têm a ver com os interesses dos portugueses, dos trabalhadores, dos menos favorecidos e até daqueles que neles confiaram o seu voto. Quinze dias depois das gigantescas manifestações populares de 12 de Março em que um país “à rasca” disse claramente ao governo e aos partidos do chamado “arco do poder” que já não aguentam mais, os quartéis generais desses mesmos partidos deram as suas ordens à obediente comunicação social para que cobrisse com um manto de silêncio as repercussões das manifestações e, até, as fizessem esquecer. Mas as centenas de milhares de jovens e menos jovens, homens e mulheres que ousaram, alguns pela primeira vez, descer à rua e dizer não, não as irão esquecer.
As eleições que se anunciam não podem ser apenas mais uma manobra para criar uma maioria absoluta na Assembleia da República, por via de uma coligação inter partidária, às claras ou às escondidas, que permita levar à prática políticas cada vez mais lesivas e conducentes à destruição do que resta do estado social.
Entretanto decorreram eleições para a liderança, em dois dos partidos, cujos “lideres”foram eleitos com maiorias dignas das “democracias” de tipo norte coreano. A falta de alternativas dentro desses partidos é, evidentemente, sintomática da ausência de debate interno. Aos eleitores caberá olhar com todo o cuidado para as propostas que lhes forem apresentadas e não se deixarem enganar por cantos de sereia, nem por tradições eleitorais de que já conhecem as consequências.
Não são as declarações, apressadas, de defesa do estado social, agora feitas por José Sócrates que nos podem fazer esquecer as medidas tomadas pelos seus governos, precisamente contra os mais pobres, os trabalhadores de baixos salários, os desempregados, os reformados, aqueles a quem cabe ao Estado social proteger. Não podemos esquecer que Passos Coelho se afirmou pronto a governar às ordens do FMI e que vemos as malfeitorias que o FMI tem vindo a fazer na Grécia e na Irlanda. Ou mesmo em Portugal nos anos 80. Nem podemos esquecer as afirmações de Carrapatoso sobre a necessidade de cortar, novamente, nos salários e nas prestações sociais. Por outro lado, o CDS de Paulo Portas é um partido que se põe sistematicamente em bicos de pés para alcançar a mesa do orçamento, dado que tem clientelas a contentar. É responsável, tal como o PSD, pelo descalabro a que se chegou em 2003/2004, embora demagogicamente procure, sempre, fazer esquecer esta circunstância.
O governo que sair das próximas eleições não pode estar a governar para Bruxelas ou para o eixo Berlim/Paris, tem que o fazer, em primeiro lugar para Portugal e para os portugueses. As afirmações de que quem paga é quem manda, não colhem, embora, no fim, quem paga sejamos sempre nós. As agências de notação financeira trabalham e auferem lucros de acordo com os juros que proporcionam aos especuladores financeiros. É nessa medida que devem ser olhadas.
As propostas de medidas políticas alternativas que irão ser apresentadas aos cidadãos eleitores deverão ser estudadas e vistas por estes com uma perspectiva de mudança. É possível mudar. É possível fazer diferente.
José Joaquim Ferreira dos Santos Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda E MAIL: jferreirasantso@netcabo.pt

No comments:

Visitas

Contador de visitas