09 April 2011

Reabertura da Sede do Bloco de Esquerda em Matosinhos - um testemunho

A minha actividade profissional deu o mote para marcar presença na reabertura da sede do Bloco de Esquerda em Matosinhos, Rua Brito Capelo, num sábado de tarde. Não que a política, e sobretudo os assuntos ligados ao momento económico e social conturbado que o país enfrenta, não despertem em mim necessidade de expor, ouvir, encontrar solução, mas, confesso, não me imaginaria, por iniciativa pessoal, naquele ou em outro espaço partidário. Perdoem-me os políticos e os amigos – sim, já posso chamar-lhes amigos – que tenho vindo a conhecer, com quem trabalho e convivo. Perdoem-me mas, sem ser apartidária, é bem provável que me encaixe naquele grupo de pessoas que desconfia à partida da instituição “política”. Perdoem-me se isto choca vindo de uma jovem de 26 anos que devia ter mais fé ou esperança (retirando por completo a conotação que estas palavras “fé” e “esperança” possam ter) no futuro…

Daí que a frase “fizemos um protesto apartidário” e os acenos de cabeça cúmplices com esta expressão que vi em alguns dirigentes do BE de Matosinhos me tenham dado o conforto de, mais do que trabalhar, naquele sábado à tarde, puder estar ali para ouvir e absorver a mensagem. Falo da intervenção de João Moreira, um dos organizadores do movimento “Geração à Rasca” que levou aos Aliados, no Porto, entre 60 a 80 mil pessoas, juntou 300 mil em Lisboa e várias centenas em outros Concelhos.

Já reflecti sobre esse protesto onde marcaram presença jovens, pais preocupados com o futuro dos filhos, com o congelamento de salários e estagnação das carreiras profissionais, idosos com reformas insuficientes para fazer face ao dia-a-dia, estagiários de longa duração, trabalhadores que de independentes só têm a independência de saber que saltam do barco quando quiserem, antes mesmo que o barco se afunde, mas sem colete salva-vidas nem bóia de protecção… Que protecção dá o recibo verde que esquece o direito a férias, a segurança social paga, os requisitos de um “pleno emprego”? É uma miragem, actualmente em Portugal, o direito ao pleno emprego? Então, reafirmando o que escrevi no início, faço parte daquele grupo que teme, antes de se decepcionar, acreditar na política e nos Partidos porque o 25 de Abril que me contaram não foi feito para isto! (Perdoem-se os amigos de todos os quadrantes, sobretudo os convivas daquele sábado)

Mas, eis que numa sede renovada, na presença de algumas dezenas de militantes e simpatizantes do BE, perante cartazes sobre resistência, observações contra a precariedade laboral, frases que exigem mais justiça na economia, ao som de músicas de intervenção, com a perspectiva de que, mais tarde, o lanche ainda tornaria o convívio mais informal, e após uma verdadeira “palestra” sobre a tal “fé” e “esperança” no futuro, me senti em casa não – que o Concelho é só adoptivo – mas integrada, acolhida!

“Palestra sobre a tal fé e esperança” quando o João Moreira falou em milhares na rua que estão preocupados com a sustentabilidade financeira e social do país? Sim, na medida em que também se falou na necessidade de não deixar morrer o movimento, nas iniciativas que se seguirão, no facto – bem visto sr. Deputado – das pessoas estarem a perder o medo de falar, de protestar e de sair à rua, mais de três décadas depois da revolução que ditou o fim da ditadura.

O convívio informal, as palavras de resistência, os apelos à mudança, as análises sobre o momento actual, não me surpreenderam. Muito menos a constatação de que nas eleições que se avizinham os actuais donos do poder aproveitarão ao máximo para vender a ideia de que ainda é possível salvar o que resta – o que eles deixaram – do Estado Social. Ironias, do meu humilde ponto de vista, de se ter de escolher entre o mau e o pior. Surpreendeu-me - peço já antecipadamente desculpa aos intervenientes, até porque não conheço, por pura ignorância confessa, os motivos fortes desse completo afastamento – que num cenário de “ou o mau ou o pior” a abertura a uma possível conversação à Esquerda não mereça um único aceno de cabeça ou pelo menos encolher de ombros. Surpreendeu-me, sem me chocar, apenas registei como registei as frases sobre a necessidade de mudança.

A sede foi reinaugurada sem pompa. Bom! Gostei! Não me surpreendeu porque a profissão ensinou-me já a distinguir bem o conteúdo e a fachada. Não se convidou nenhum artista. Nem era preciso. Diz-se que Portugal tem talento… Haja pelo menos talento! – e talento interventivo e talento sem medo e talento doque proporciona gargalhadas, daquelas que sacodem a poeira da sombra chamada “crise”, mesmo que isso levante a questão: Quantas Câmaras de Direita ou Centristas, vá, contratarão ainda os “Deolinda”? – Naquela tarde, quem ouviu o sr. da guitarra (perdoem-me que não registei o nome) a interpretar José Mário Branco, não precisava de mais nada. Não precisava de mais nada porque tinha ouvido que a mudança é possível. Não precisava de mais nada porque o balanço feito nessa tarde recorda que não se está sozinho no protesto. E isso conforta, mesmo os potenciais “apartidários”.

Obrigado mote profissional!

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