21 February 2011

Moção de censura

A afirmação de que Portugal é um dos países da Europa onde se verifica uma maior diferenciação entre os níveis de rendimentos é já recorrente. Efectivamente, entre os salários médios dos trabalhadores, um grande número dos quais precários e a falsos recibos verdes, e os principescos rendimentos dos gestores, dos altos funcionários e outros “ boys & girls”, há diferenças abismais. Por isso é falacioso e ridículo afirmar que a crise toca a todos por igual.
Mas de que falamos, quando falamos de crise ? Embora nos tenha batido mais forte nos três últimos anos devido à crise financeira internacional, conhecida por economia de casino, que infectou, também, o nosso país, a “nossa crise” vem de longe. O endividamento crónico radica no período do consulado de Cavaco Silva e dos governos PS e PSD/CDS , nos anos 90.
Em nome de uma pretensa modernidade e “progresso” fizeram opções erradas que destruíram o tecido produtivo português agrícola, das pescas e industrial, tornando-nos dependentes das compras no mercado externo, em troca dos subsídios da, então, CEE. O incrementar do crédito fácil e aparentemente barato levou ao endividamento das famílias, das empresas e do próprio estado, a níveis muito para além do aceitável.
Opta-se por uma campanha de obras públicas, mal planeadas, como algumas famigeradas auto-estradas e estádios de futebol,( agora às moscas), pagos por valores muitíssimo além do orçamentado. Simultaneamente, crescem os casos de corrupção e de crime económico que todos mais ou menos conhecemos.
Na banca sucedem-se os casos BCP/Millenium, BPP e BPN e o seu cortejo de “individualidades” bem conhecidas e ligadas às mesmas famílias políticas. Ocorrem, igualmente, os casos de financiamento ilícito de partidos políticos como o caso “PORTUCALE” e outros. Decide-se a compra de inutilidades como submarinos e carros de combate, para alimentar os egos militaristas de alguns. E todo este regabofe à custa do erário público, com os sucessivos governos a pedir crédito e a não conseguir liquidá-lo. Por isso o endividamento foi crescendo, o país para comer passa a pedir emprestado.
Nestas andanças, ora uns, ora outros, os partidos do “centrão” vão-se apoiando, mesmo os que agora querem aparecer como campeões da luta contra a divida. Nesta última fase, com o agudizar da crise e as dificuldades sentidas no financiamento externo, assistimos aos cortes cegos nos benefícios sociais, nos salários e nas pensões de reforma e agora a facilitação dos despedimento.
Calhou ao governo do PS, de maioria relativa, constituir governo neste período de crise. E temos vindo a assistir a esta governação do PS, extremamente gravosa para os portugueses de mais débeis rendimentos, com o apoio do PSD, na aprovação dos PEC e do Orçamento Geral do Estrado.
Entretanto o PSD vai preparando os seus quadros para assumir o poder, logo que considere a situação madura, pois, para já, tem o PS de cumprir o papel, no quadro do neo-liberalismo. No governo Sócrates vemos uma situação de algum descalabro, com os ministros a falarem por si, em nome próprio, por vezes, contradizendo a política do governo, para logo serem desmentidos.
Esta situação foi sendo, sistematicamente, denunciada. Impõe-se uma clarificação de toda esta trapalhada. Saber o que se apoia e quem está com quem, quem apoia quem. É esse o papel da Moção de Censura ao governo, anunciada pelo Bloco de Esquerda e a apresentar no primeiro dia em que faz sentido. Dos dois maiores partidos, bem como do CDS/PP, ninguém tem as mãos limpas neste processo todo.
Assim, as diferentes forças politicas são confrontadas com as suas responsabilidades e deixarão de se esconder atrás de biombos mais ou menos opacos. É necessário desarmar as malfeitorias de uma governação com características de direita e com uma direcção bicéfala do PS e do PSD, não assumida.
As considerações que são feitas para além disto são as chamadas desculpas de mau pagador.
Alegações como a necessidade de estabilidade politica para os “mercados” seriam cómicas se não fosse trágicas, vindas de quem vêm.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda
E MAIL: jferreirasantos@netcabo.pt

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