29 January 2011

Eppur si muove!

A frase que serve de titulo ao texto de hoje diz-se ser da autoria de Galileu Galilei, em 1633, e murmurada por este, após ter sido obrigado a abjurar, pela Inquisição, das suas descobertas cientificas sobre o facto de a Terra girar em torno do Sol, e não o contrário, como pretendia a Igreja de Roma. A frase de Galileu significa E NO ENTANTO ELA MOVE-SE, serve de mote às ilações que procurarei tirar sobre a continuação da democracia, após o acto eleitoral do ultimo fim de semana.

Constato que o eleitorado, melhor dizendo pouco mais do que 25% do universo eleitoral português, foi sensível às pressões, à gestão de silêncios, aos tabus, às “não informações”, mas também às declarações enfáticas de “seriedade intocável” de “homem do povo” com que o presidente-candidato inundou a sua campanha.

Às perguntas formuladas sobre a promiscuidade com os implicados na Sociedade Lusa de Negócios e do BPN, Cavaco Silva recusou explicações e respondeu acusando de “calunias, mentiras e insinuações” as dúvidas dos seus adversários. E, no entanto, foram publicados os negócios com a SLN e as complicadas trocas de moradias, no Algarve, com o Sr. Fantasia, bem como o apoio no Conselho de Estado, a Manuel Dias Loureiro.

Onde está a “vil campanha”? Quem pratica uma politica de inverdades? Nos últimos dias de campanha surgiu a ultima forma de chantagem exercida sobre o eleitorado, tratava-se de impedir a todo o custo a ida a uma segunda volta, porque isso “ iria agravar os juros da divida” e “complicar ainda mais a situação financeira”. Levado às ultimas consequências, este brilhante raciocínio é a continuação da proposta de Manuela Ferreira Leite da suspensão da Democracia por alguns meses, “para resolver as questões do país”.

Por mais erros que tenham sido cometidos pelas outras candidaturas, nada pode justificar a sobranceria, a arrogância como o de “ mediocridades” , “loucos”,” ignorantes” com que Cavaco Silva brindou, abundantemente, os seus adversários.

Continuo a afirmar que não houve debate de politica nestas eleições, mas reconheço que não é possível debater com quem não o pretende fazer. Depois lamenta-se o facto de mais de metade dos eleitores não irem votar e de 250.000 dos que se dirigiram às mesas, votarem em branco ou anularem o voto.

A democracia só se dignifica com transparência, sem ela não passa de uma situação mais ou menos pantanosa, incapaz de dar resposta aos problemas dos cidadãos. A nossa está doente.
As declarações das elites politicas apoiantes da candidatura vencedora, afirmando a necessidade de “reformas de fundo” são, para mim, altamente preocupantes. Elas significam, vindo de quem vêm, a destruição completa do pouco que resta do já frágil Estado Social que subsiste no nosso país.

Vemos alguns a colocarem-se, já, em bicos de pés para não serem esquecidos. De facto, a submissão aos ditames dos especuladores financeiros, já está em marcha com a aceitação da baixa dos valores a pagar por indemnização em caso de despedimento. As comparações com a situação de outros países é, no mínimo, ridícula, dada a diferença enorme nos valores das retribuições ali praticados. No entanto, o patronato avança com a possibilidade de os próprios trabalhadores contribuírem para o fundo a criar, destinado a pagar as indemnizações. Assim os trabalhadores vão pagar as suas próprias indemnizações.

Não serão, contudo, estes obstáculos a impedir a confiança dos democratas na capacidade regeneradora da participação democrática, o que me leva a dizer, parafraseando Galileu Galilei, a democracia vai continuar e ela move-se.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda
E MIL: jferreirasantos@netcabo.pt

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