09 January 2011

É necessário mudar

O ano de 2010 despediu-se com a eclosão de alguns acontecimentos que me deixaram, forçosamente, perplexo. Um deles foi o presidente-candidato Cavaco Silva afirmar que nos devemos manter “caladinhos” e não protestar contra as agências de notação financeira, as companhias de seguros, os bancos e os grandes especuladores financeiros, caso contrário estaremos a agravar a situação dos juros da nossa divida externa que se encontra nas mãos daqueles “beneméritos usurários”. É a continuação da teoria do “comer e calar”.

Outro facto foi a defesa, pouco inteligente, aliás, que o presidente-candidato continua a fazer dos seus amigos e correligionários do BPN, ao tentar agregar à actual gestão as culpas da situação do banco falido, fazendo comparações descontextualizadas com o acontecido em bancos ingleses e irlandeses, procurando fazer tábua rasa da gestão criminosa desenvolvida por Oliveira e Costa e outros que, como agora se vai sabendo, lhe granjearam , também, avultados lucros.

Com cinco mil milhões de euros já enterrados nesse grande buraco financeiro e com o pedido de mais quinhentos milhões, é bom que tudo, mas tudo, seja do conhecimento de todos. É que esse dinheiro não é de qualquer entidade desconhecida, é nosso e já o estamos a pagar com os cortes em salários e em prestações sociais.

Estranhamente, o presidente-candidato não faz comparações com o que aconteceu com os bancos islandeses, a quem o novo governo da Islândia recusou o apoio, dada a má gestão do tipo economia de casino em que mergulharam. Resta afirmar que o novo governo da Islândia é um governo à esquerda, eleito após o desastre financeiro ali ocorrido.

Infelizmente e corroborando o que já tenho vindo a escrever nesse sentido, o que nos chega da União Europeia são apenas maus exemplos. O governo húngaro, que tem sido apresentado como um modelo de modernidade e de integração europeia, “borrou” completamente a pintura ao impôr medidas de censura na comunicação social, iguais às que têm merecido justíssimos protestos, quando ocorrem noutros quadrantes geopolíticos. Lembro que é este mesmo governo húngaro que assegura a presidência da U.E., no momento.

Ainda por cá, o recém eleito bastonário da Ordem dos Economistas, Rui Leão Martinho, tem afirmado em entrevistas publicadas, que o melhor para Portugal é pedir a ajuda do FMI ou do Fundo Europeu, acrescentando que, embora com pesados custos sociais, as condições de acesso ao crédito serão melhoradas. É caso para perguntar, ao serviço de quem falam estas pessoas .

É com gente desta que temos que nos haver. Como entender as informações sobre a subida vertiginosa da venda de automóveis de luxo, no final do ano, e a simultânea informação do aumento do desemprego e do fecho de empresas ?

Como escreveu William Shakespeare, no século XVI, “ alguma coisa está podre no reino da Dinamarca”. São necessárias medidas que erradiquem a podridão de entre nós. Alguma coisa terá que mudar para que possamos aspirar a um futuro com sentido. Não podemos esperar mudar, apenas, alguma coisa, para que tudo, no final, fique na mesma.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos e do Bloco de Esquerda
E MAIL: jferreirasantos@netcabo.pt

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