27 December 2010

Uma questão de opções



O governo do PS, mais uma vez, optou pela maior subserviência face às pressões exercidas pelos “mercados”, o que vai ajudar a destruir o pouco que resta do “estado social” que os trabalhadores foram construindo desde 1974.

As “medidas” anunciadas por José Sócrates, como fórmula para o crescimento do emprego e da economia, mais não são do que a consagração de uma forma mais fácil de desemprego, com menores indemnizações.

Estranhamente, as “medidas” preconizadas pelo governo à tarde, já tinham sido anunciadas pelo presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), de manhã. Não restam dúvidas acerca de quem põe e dispõe neste país em matéria de emprego e de direitos dos trabalhadores.

Atrevo-me a continuar a afirmar que a situação a que conduziram a economia portuguesa, apesar de grave, não é insuperável nem tem que, obrigatoriamente, contribuir para a destruição das condições de vida dos portugueses. Apenas, e a título de lembrança, não foi só a irresponsabilidade e o novo-riquismo que malbarataram os milhões de euros dos fundos europeus gastos, em obras faraónicas, como estádios de futebol, e outras, de utilidade mais do que duvidosa. Foram também as condições em que esses milhões foram aceites.

Recordemos que umas vezes a contrapartida para os subsídios foi o destruir o tecido produtivo do país: a indústria das pescas recebeu fundos destinados ao abate de barcos e a agricultura teve anos em que recebeu subsídios para plantar vinhas e outros para as arrancar. Decisões da maior irracionalidade e para quê ?

Para que o nosso país se tornasse totalmente dependente das importações dos grandes produtores da Europa. Tudo isto foi feito em nome de uma pretensa modernização do país, do “progresso” para “apanharmos o comboio da Europa”, como então se dizia. Pelo menos eram essas as alegações dos dirigentes da altura, de Cavaco Silva, por exemplo. Inebriados pela abundância de fundos europeus, de mão estendida, os nossos governantes venderam-nos o futuro.

A Europa financeira não questionava os empréstimos que nos ia fazendo, para permitir as compras de inutilidades, como carros de combate, submarinos, etc.. Era a sua industria que estava em causa.Temos o direito de questionar tais opções e temos o direito de responsabilizar quem as permitiu. É fácil entender que as exportações contribuem de forma importante para o crescimento económico, mas a substituição de importações pode ser, igualmente, um contributo para evitar a saída de divisas e o consequente endividamento externo. Sempre nos foi dito que numa UE de mercado livre, isto era considerado um crime de favorecimento económico.

Se temos possibilidades de aumentar a nossa produção agrícola, bem como as capturas de pescas, em quantidade e em qualidade, o que obsta a que o façamos? Porque temos de estar dependentes da importação de uma fantástica percentagem daquilo que comemos? A quem convém a manutenção desta situação?

O desemprego cresce, embora a nível oficial se diga que está estabilizado ou até que desceu! Só se pode combatê-lo com investimento que gere riqueza. Tal não será por certo com a constituição de falsas “empresas” de auto emprego, serão apenas paliativos e as primeiras vitimas a abater pela crise.

Sabemos que o dinheiro para tais investimentos não abunda e por isso estranha-se a preocupação em acudir ao banco falido BPN com mais verbas, para além dos muitos milhares de milhões já lá enterrados.

São mesmo estranhas as opções que o governo diz fazer por nós.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda
Email: jferreirasantos@netcabo.pt

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