19 November 2010

Quem lucra com o agudizar da crise?

A torrente de declarações contraditórias sobre a verdadeira situação do país e a necessidade de pedir auxílio ao FMI e, ainda a possibilidade de coligações entre o partido do governo e os outros à direita, revelam a falta de consistência política no chamado “arco do poder”. Se tais declarações saíssem apenas do grupo de “especialistas” que tem tomado os órgãos de comunicação social de assalto, até se podia entender, mas quando o “disse que não disse” parte dos próprios ministros, tidos como responsáveis, então a questão é bem mais grave. É a própria credibilidade governamental que está em causa.

Apesar de ter sido repetidamente afirmado que o acordo inter-partidário para aprovação do Orçamento Geral do Estado para 2011 era imprescindível para impedir uma escalada nos aumentos de juros da dívida pública, o que se verifica é que tal não sucedeu. Apesar de ter havido um acordo, o assalto dos banqueiros especuladores, incluindo portugueses, continua a manter-se e os juros da dívida, que são pagos por esses banqueiros a 1% no Banco Central Europeu, são cobrados a Portugal a mais de 6,8%. Convenhamos que é um grande negócio.

Quem está a ganhar com esta situação?

As opiniões expressas pelos conhecidos opinadores e especialistas da nossa praça, ao invés de tentar apontar para a criação de saídas para a crise, parecem denotar a intenção de degradar a situação cada vez mais. Seria interessante saber que finalidades e interesses estão por detrás de tão catastróficas opiniões. Já várias vozes apresentaram propostas para a saída da crise, mas como não eram compagináveis com a especulação financeira, nem com a economia de casino que continua impávida e serena, não lhes foi dada a mais pequena importância.

Continuaremos a assistir à sincronia dos opinadores televisivos. Cá estaremos para assacar as responsabilidades a quem as tiver, e para lutar contra a irresponsabilidade de alguns, para que não sejam sempre os mesmos a pagar.

Do Município de Matosinhos têm vindo a publico notícias que, no mínimo, me deixam perplexo. Da situação em sabemos terem mergulhado o nosso país, o executivo camarário parece estar completamente alheado. Nos últimos dias surgiram nos jornais informações acerca da possibilidade da Câmara Municipal adquirir os estádios de futebol do Leixões e do Leça. Clubes que por incapacidade de gestão estão completamente endividados, a despeito de, pelo menos o primeiro ter tido apoio financeiro por parte do Município, que aliás integra a SAD do mesmo. Nada tenho contra que as Câmaras Municipais apoiem o desporto e os esforços desenvolvidos pelas associações desportivas locais para manter de pé estruturas que proporcionem desporto, sobretudo aos jovens, mas uma coisa completamente diferente é as Câmaras sustentarem equipas de futebol profissional, com a única finalidade de participarem em campeonatos profissionais, o que está num âmbito completamente diferente. Não se trata de demonizar o futebol ou qualquer outro desporto, mas se a situação económica e financeira do país é como a pintam, não se entende a delapidação de fundos que bem poderiam ser aplicados de forma mais produtiva. Por outro lado, sabemos o que está acontecer em cidades como Aveiro, que possuem um estádio municipal que constitui um violento encargo para as finanças públicas e de que a comunidade não usufrui contrapartidas úteis.

É, mais uma vez, uma questão de inversão de prioridades.



José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda
E-mail jferreirasantos@netcabo.pt

No comments:

Visitas

Contador de visitas