04 November 2010

Orçamento de Estado aprovado

A proposta do Orçamento de Estado, negociada entre o Governo PS e o PSD, foi aprovada na generalidade no Parlamento. Sem surpresas, apesar das negaças e bravatas de uns e outros do género “agarrem-me senão vou embora” ou “agarrem-me senão chumbo o orçamento”, que não passaram de sobressaltos encenados para dar a impressão de que foi Cavaco Silva quem salvou a situação, e para nos convencer que há diferenças substanciais entre os partidos que têm governado Portugal desde há pelo menos trinta anos.

Dizia eu que, sem surpresas, porque não era preciso ser adivinho para se saber qual seria o desfecho; eu, como tantos outros, andamos há meses a dizer que as coisas se passariam como se veio a verificar… A verdade é que não há diferenças significativas nas opções de política económica nos partidos ditos do arco governativo: nenhum propôs medidas de combate ao desemprego e de promoção do crescimento económico, nenhum desses partidos propôs que se lançassem impostos sobre a verdadeira economia de casino que é a bolsa de valores e por aí fora… Estão de acordo é em congelar pensões, reduzir o abono de família, retirar o apoio às crianças para comprar livros ou pagar refeições, subir impostos, como é o caso do IRS ou do IVA… Como se vê, as divergências não são em questões essenciais, as diferenças são só de pormenor: admite-se ou não que os gastos de saúde ou os PPR sejam ou não deduzidos no IRS (mas, já agora, quem ganha dinheiro com os seguros de saúde: os grupos financeiras que os vendem; quem beneficia com os PPR: os grupos financeiros que os vendem – é que se não fossem os benefícios fiscais aqueles produtos não eram competitivos no mercado).

Portanto, nada de novo na aprovação do Orçamento de Estado!

Mas de todo este período, desde há já alguns meses, que antecedeu a discussão na Assembleia da República ficou-me um outro aspecto que me impressionou. Refiro-me à grande monotonia de todo o pseudo debate que ocorreu em todas as televisões. Era ver o desfile de economistas, jornalistas de economia, os mais diversos comentadores todos a dizer exactamente a mesma coisa: que o país estava mal, que o défice era muito elevado, que os mercados financeiros iam cobrar juros elevados e que seria necessário reduzir a despesa pública para acalmar os ditos mercados; e que o interesse nacional obrigava a reduzir salários, pensões e outras despesas com o estado social; nunca nenhum deles questionou a compra de material de guerra ou das viaturas blindadas para a polícia ou outras despesas semelhantes. Impressionou-me, mas não me surpreendeu – é que a maior parte desses comentadores ou estão nas folhas de salários dos grandes grupos económicos, ou andam na orla do poder ou já são reformados com duas e três reformas douradas. E agora, aí estão eles, todos, os mesmos, novamente, mas a dizer que afinal os sacrifícios que são impostos à esmagadora maioria dos portugueses se calhar não vão acalmar os mercados, se calhar não vão fazer reduzir as taxas de juros, se calhar novas medidas precisam de ser tomadas porque o Orçamento de Estado aprovado vai provocar uma recessão e os mercados continuam muito nervosos.

Creio que Portugal está a ser alvo de uma muito bem urdida manobra de intoxicação da opinião pública, com a proliferação de um pensamento único que a todos nos quer colocar perante a inevitabilidade de empobrecermos, de vermos a nossa vida a andar para trás. Cabe-nos a nós dizer-lhes: BASTA! Especialmente porque são eles e outros senhores que pensam como eles que nos fizeram marcar passo e agora nos querem fazer marchar à retaguarda. Já chega de cinismo!

Fernando Queiroz
Dirigente Bloco de Esquerda

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