21 October 2010

Por uma cidadania activa

Mesmo no meio da descrença, do desalento, da falta de incentivo, há sempre alguma coisa capaz de fazer despertar a esperança na capacidade do ser humano em superar as dificuldades, por maiores que elas pareçam. Refiro-me aos acontecimentos ocorridos na mina do deserto de Atacama, no Chile, e que terminaram da melhor forma.

O salvamento daqueles 33 mineiros constitui a prova de que a força colectiva, determinada, organizada e devidamente direccionada da solidariedade humana pode resolver a maior parte dos problemas. Independentemente da imagem dada pela histeria das televisões e dos jornais, mais em busca do sensacionalismo fácil do que da informação isenta e objectiva dos factos, foi possível saber como uma conjugação de esforços internacionais se mobilizaram para ultrapassar o que parecia um desastre sem remédio.


Sem pretender comparar o incomparável, a Comunidade Europeia dos 27 não fez nem faz qualquer esforço por desenvolver acções que permitam, em conjunto, ultrapassar a crise em que a economia de casino mergulhou o mundo.


Não se esperavam grandes gestos “revolucionários”, bastava que o Banco Central Europeu adquirisse, directamente, as dividas dos países em dificuldades, em vez de jogar com os bancos privados a quem está a proporcionar milhões de lucro, roubados aos mais pobres dos europeus, que são sempre quem paga os custos, como estamos a ver em Portugal.

A ultrapassagem da crise não passa exclusivamente pelas economias de cada um dos países, apesar da necessidade fundamental do contributo nacional.

O Orçamento de Estado, agora apresentado, constitui um acréscimo de dificuldades para o nosso já tão depauperado povo. Não é só pelos cortes de salários e de contribuições sociais, mas a travagem da economia que preconiza não pode ser encarada de ânimo leve por quem deveria ter responsabilidades governativas não imediatistas.

Já tenho escrito que se impõe que voltemos a olhar, com olhos de ver, para a agricultura e para as pescas como forma de conseguirmos ter, ao menos, uma menor factura externa em relação à importação de bens alimentares.

Durante algum tempo, fomos pagos para abandonar a produção agrícola, porque era necessário comprar esses produtos que comemos à Alemanha, à França e à Polónia. Tal politica mais não fez que contribuir para o nosso crescente endividamento.

Por outro lado, o abandono da agricultura empurrou para as cidades do litoral os jovens em busca de melhor vida e de emprego, por vezes conseguido em empresas de sustentabilidade mais do que duvidosa, abrindo o caminho ao desemprego e às consequentes dificuldades sociais.

Contrariamente às previsões das aves agoirentas que fazem ninho permanentemente nas televisões nacionais, não podemos pensar que tudo está perdido e que só nos resta baixar os braços e esperar por um qualquer D. Sebastião.

A força do exemplo do salvamento dos mineiros chilenos faz-nos pensar que outro mundo, mais fraterno e justo, é possível. Está nas nossas mãos mudar o que está mal.

Para já é necessário reflectir na nossa participação na Greve Geral convocada para 24 de Novembro pelas duas centrais sindicais e mobilizarmo-nos para exigir, em conjunto, outras políticas que nos permitam viver como cidadãos e não como súbditos obedientes.



José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda
E MAIL: jferreirasantos@netcabo.pt

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