25 July 2010

De boas intenções está o inferno cheio

Já tive oportunidade de escrever várias vezes sobre a quem pertence a responsabilidade da actual crise financeira que abalou o mundo e, consequentemente, Portugal.

Evidentemente que, a nível interno, a crise tem a sua origem na incapacidade dos diferentes governos priorizar a intervenção politica para um desenvolvimento sustentado da economia, colocando esta ao serviço das populações. Ao invés, os diferentes governos que temos tido delapidaram os fundos vindos da União Europeia em obras de utilidade mais do que duvidosa, como estádios de futebol construídos onde não têm utilização, ou auto estradas que se verifica não fazerem sentido, dada a fraca densidade de tráfego. O Estado comportou-se como se de um país rico se tratasse, comprometendo-se com despesas faraónicas do tipo da compra de submarinos e das participações militares. Os bancos, mercê de uma publicidade tão asfixiante como enganadora, promoveram o endividamento das famílias a níveis incomportáveis. Nessa fase, a que se poderia chamar das vacas gordas, não se ouviam conselhos em contrário dos que hoje aparecem como portadores de toda a verdade e senhores de todas as certezas.

É falso que não tenha havido alertas para a situação que se avizinhava. Basta ler as actas da Assembleia da República para verificar a quantidade de vezes que alguns deputados da oposição de esquerda foram acusados de arautos da desgraça, de pessimistas, e outros “mimos” do mesmo género. É, igualmente, falso que não tenham sido apresentados programas alternativos, propondo que se encaminhassem os fundos para o investimento e para a modernização. No vórtice consumista ninguém ouviu, nem quis ouvir. Em 2008, as mesmas agências de notação financeira, a Fitch, a Standard & Poor’s e a Moody’s, que agora se manifestam tão rigorosas com os países como Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha (a que depreciativamente apelidam de PIGS), avalizaram produtos financeiros que se verificaram ser desastrosos (os chamados tóxicos) que levaram à falência de bancos e à instabilidade financeira que conhecemos e à consequente crise social que vivemos.

Até hoje, apesar de todas as promessas e declarações de intenção, não se verificaram quaisquer alterações nas condições de supervisão por parte dos bancos centrais nacionais nem do banco central europeu que visem impedir a continuação da especulação financeira fraudulenta que desencadeou a crise. As únicas preocupações dos eurocratas têm sido o apoio aos banqueiros e aos bancos que foram causadores da crise, obrigando os países mais debilitados e enfraquecidos a cobrir os débitos das instituições arruinadas. Foi o que se verificou no nosso país, com o BPP e o BPN, a quem o Estado, prontamente, prestou auxílio em detrimento das pequenas e médias empresas e até dos cidadãos. Enquanto se despejavam nos cofres daqueles bancos quatrocentos e cinquenta milhões de euros, em nome da necessidade de não deixar cair o sistema bancário, promovem-se cortes nas despesas sociais e no investimento público, contribuindo assim para impedir o crescimento da economia. As despesas públicas têm de ser racionalizadas e cortado tudo o que for supérfluo. Não é possível é proceder aos cortes, precisamente onde não devem ser feitos, isto é, na saúde, da educação e no apoio social.

A direita, visando destruir todo o edifício do Estado social criado no pós 25 de Abril, propõe como panaceia universal a privatização de tudo o que ainda pode permitir ao Estado intervir socialmente na economia. Pedro Passos Coelho aparece como o campeão do neo-liberalismo, seguindo a escola dos economistas que se propõem acabar com o estado social criado no pós-guerra, na Europa. Este tipo de medidas já foram ensaiadas, por exemplo, no Reino Unido da Sra. Tatcher, com resultados desastrosos, e estão agora a ser tentadas na Alemanha e em França. Na Europa as respostas populares ainda só agora se começaram a fazer sentir, com a diminuição da popularidade destes líderes nas eleições internas.

As propostas que vemos ser afloradas pela direita, aliás oriundas de um grupo de “sábios” coordenado por mesmo Paulo Teixeira Pinto, o mesmo que foi corrido do Banco Millenium/ BCP, (com uma reforma de nababo), não auguram nada de bom. A alteração da Constituição da República visa criar um sistema político substancialmente diferente daquele que, apesar de tudo, tem servido a democracia portuguesa. É preciso saber o que, realmente, está por detrás destas propostas. Esperamos que os nossos concidadãos não se deixem iludir com falsas promessas “modernistas” revestidas de palavras e ideias ocas.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Membro da Assembleia Municipal de Matosinhos pelo Bloco de Esquerda

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